sábado, 14 de fevereiro de 2009

Então queres ser escritor?

O jornalista é um escritor, pois sua profissão é escrever. Nos jornais, revistas, sites, tvs e rádios, enfim, em todos os veículos de comunicação, seu instrumento de trabalho é a palavra, que mesmo quando sai da boca, está em um roteiro escrito. Muitas vezes, esse escritor-jornalista é massacrado pela pressão do deadline e, o que sai de sua cabeça e de seus dedos são apenas palavras vazias, colocadas no papel ou na tela por obrigação, com um modelo de texto fechado em fórmulas engessadas, mas que servem à indústria da comunicaão (pois as prensas e câmeras não podem parar...). A vontade de escolher melhor as palavras para significar mais em cada nota, notícia ou reportagem; artigo, crônica ou editorial é deixada de abandonada...Pensando sobre isso, encontrei no poeta Charles Bukowski, apresentado a mim por um ex-aluno e orientando, Diego Assunção, a melhor definição para aqueles que desejam a profissão de escritor:

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração da tua cabeça da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.
se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
quando chegar mesmo à altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve.

Tradução de Manuel A. Domingos

4 comentários:

  1. Muito bom o texto do Bukowski, Ayne! São conselhos que devemos seguir sem sombras de dúvidas!

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  2. Bons artistas são esses que conseguem expressar sentimentos através do poder das palavras. São capazes de dizer tudo o que queremos dizer, mas não somos capazes de encontrar termos corretos... Belíssimo texto e belíssimo blog Ayne!
    Estarei sempre passando por aqui!
    Abraços

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  3. Obrigada, queridos, pela visita. O espaço é para vocês e de vocês. Apareçam sempre e enviem suas contribuições! Beijos

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  4. Esse texto diz tudo. Todo escritor deveria ler esse magnífico "conselho", pois escrever, pelo que me consta, não é tão fácil e nem tão simples. O dom não basta (não em certas ocasiões e menos ainda nessa), é necessário muito mais que isso. Eu não conhecia o texto, mas passo a admirá-lo e (se vc me permite, Ayne) a apresentá-lo a muita gente. Obrigada e beijos.

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