terça-feira, 10 de março de 2009

A Folha de S.Paulo e a "ditabranda"

Como pode um veículo de comunicação que, na época da ditadura militar no Brasil (1964-1984), foi considerado "de esquerda", afirmar, mais de 20 anos depois, que os anos de chumbo no país foram "brandos?". Pois foi isto que a Folha de S.Paulo fez em editorial recente, de fevereiro, o que deixou nervosos os jornalistas, especialmente aqueles que sofreram literalmente na carne os horrores da tortura. Em solidariedade a eles, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo realizou uma manifestação na capital, na porta daquele jornal diário. Leia matéria abaixo retirado do site do sindicato:


Mais de 300 pessoas participaram do ato organizado pelo Movimento Sem Mídia, neste sábado (07/03), contra o editorial da Folha de S.Paulo que classificou a ditadura brasileira de “ditabranda”. O protesto, realizado na porta da Folha, região Central de São Paulo, reuniu jornalistas, sindicalistas, estudantes e familiares de presos torturados durante o regime militar.

O presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, José Augusto Camargo (Guto), afirmou que "deturpar a história é um crime contra a cidadania" e criticando o "lamentável editorial da Folha", lembrou que "a esmagadora maioria dos profissionais de comunicação condenou o jornal, pois é ética e tem compromisso com a verdade e com as gerações futuras".

Coordenador da manifestação e do Movimento dos Sem Mídia, Eduardo Guimarães esclareceu que a manifestação representava um rechaço coletivo à tentativa do jornal de reescrever a história quando "afirmou que o regime dos generais-presidentes teria sido ‘brando'. Tal afirmativa constituiu-se em dolorosa bofetada nos rostos dos que sobreviveram, em verdadeiro deboche dessas vítimas expresso por meio do termo jocoso ‘ditabranda', corruptela do único termo possível para identificar aquele regime, o termo ditadura". Guimarães publicou no blog Cidadania os agradecimentos e a repercussão do ato.

Neste domingo (08/03), Otávio Frias Filho, diretor da Folha, publicou uma declaração admitindo que o termo ditabranda no editorial de fevereiro foi um erro. “O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis”, afirmou. Mas sustenta que o regime de exceção no Brasil foi mais brando do que os congêneres na Argentina, no Uruguai no Chile e em Cuba.

2 comentários:

  1. Realmente uma colocação no mínimo infeliz do editorial da Folha. Fico imaginando aqui, por exemplo, o Vlado, ele deve ter se retorcido todo no túmulo com essa posição da Folha.

    Se retorcido igual quando o seu Estadão tomava algum furo da Folha. Ainda bem que ouve um "meia-culpa" do Frias Filho, mas não resolveu muito coisa não.

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  2. Toda ditadura é uma violência, que não tem nada de branda. Penso no Vlado, mas, pior, imagino como devem ter se sentido todos aqueles jornalistas que foram torturados durante a ditadura militar no Brasil, mas sobreviveram e convivem, até hoje, com suas dores. Para eles, foi mais um golpe na dignidade.

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