segunda-feira, 23 de março de 2009

Jornalismo impresso infantil: Tico-Tico, a primeira revista


Tratamos, há pouco, neste espaço, sobre o jornalismo infantil, especialidade ainda incipiente no Brasil, com brechas preocupantes e um filão inexplorado. É, certamente, uma parte do jornalismo que merece um projeto especial porque pode ser responsável pelo auxílio à educação das crianças, como foi a revista Tico-Tico no século passado. Eis pouquinho da sua história contada pela jornalista e escritora Sandra Pina em um ensaio para o jornal Terceiro Tempo, do Rio de Janeiro.


Quadrinhos: Um centenário juvenil


O começo
A revista O Tico-Tico foi lançada em outubro de 1905 a partir de um projeto desenvolvido pelo jornalista e cartunista Renato de Castro, juntamente com o poeta Cardoso Júnior e com o professor e também jornalista Manuel Bonfim. O grupo apresentou a proposta da revista a Luis Bartolomeu de Souza e Silva, dono do jornal Sociedade O Malho, que, além de receber a proposta com entusiasmo, ajudou a formatá-la, usando como inspiração as publicações européias do gênero. Em especial, a revista francesa La Semaine de Suzette, que entrara em circulação em fevereiro do mesmo ano.
Desde o início, a revista se caracterizou pela variedade de seções e informações que trazia dentro de suas páginas, dando conta de diversos aspectos da vida social que, segundo seus editores, eram necessários ao desenvolvimento das crianças.

Perfil da revista
O aspecto pedagógico de O Tico-Tico foi a tônica da publicação ao longo de seus 57 anos de existência. Mesmo usando uma linguagem coloquial e um tom carinhoso para se relacionar com seus leitores, o preciosismo lingüístico era extremamente marcante, uma vez que a revista se pautava na idéia de que o desenvolvimento do país dependia de um compromisso sério com a educação de suas futuras gerações e da ampliação do acesso de todas as parcelas da população aos benefícios do mundo letrado. Foi em torno desse objetivo que se pautou seu projeto editorial.
Sendo uma revista direcionada ao público infantil e juvenil, os editores tinham consciência de que todo o seu conteúdo passava pelo crivo de professores e pais antes de chegar às mãos dos pequenos leitores. Dessa forma, tiveram o cuidado de estar sempre privilegiando o ponto de vista moral e educativo da publicação, espelhando os valores almejados pelas camadas dominantes da sociedade. Assim, O Tico-Tico tornou-se um baluarte da moral tradicional e do espírito positivista que marcava a chamada República Velha.
Essas proposições moralistas e cívicas ficavam mais evidentes nas seções fixas da revista destinadas a promover o diálogo direto e permanente com seu público leitor. Essas seções, com destaque para Lições de Vovô, Correspondência do Dr. Sabetudo e na Gaiola d’O Tico-Tico, se transformaram em verdadeiras escolas de disciplina. Além disso tudo, a revista foi um dos principais responsáveis, por exemplo, a estabelecer a figura de Papai Noel nas tradições natalinas brasileiras, durante o período da Segunda Guerra Mundial.

Os quadrinhos
A revista O Tico-Tico foi a primeira publicação brasileira a colocar regularmente em suas páginas, séries de histórias em quadrinhos. Nelas, passaram importantes nomes da cultura nacional como, por exemplo, o cartunista J.Carlos, Alfredo Storni, Paulo Afonso, Ângelo Agostini, entre outros.
Buscando inspiração nos quadrinhos estrangeiros, em especial nos europeus, personagens como Chiquinho, Benjamin, o cachorro Jagunço, Réco-réco, Bolão, Azeitona, Carrapicho, Goiaba, Lamparina, Maria Fumaça, etc, encheram as páginas da revista e invadiram a imaginação das crianças ao longo dos anos em que estiveram presentes nas bancas.
Nesse campo ainda, o caricaturista político Alfredo Storni retratou em suas histórias os costumes da época ao criar uma família de classe média carioca: Zé Macaco, o marido paciente e que atendia aos caprichos da mulher, Faustina, uma mulher sufragista (que defendia o direito de voto e de igualdade), Baratinha, assim como os outros personagens-meninos da revista, sempre aprontando peraltices, e o cão Serrote.
Na década de 30, surgiu o trio Réco-réco, Bolão e Azeitona, criado por Luis Sá. Foi um grande sucesso na época e sobreviveram até o final da revista. Sempre metidos em enrascadas, os personagens retratavam uma infância de meninos que brincavam de bolinha de gude, tomavam banho de rio, planejavam brincadeiras de mau gosto e, como era comum na época, realizavam pequenos serviços, como cuidar de animais domésticos e capinar terrenos, para ganhar alguns trocados.
Uma característica interessante é que a voz do adulto raramente aparecia nas HQs do trio.
Mas, o personagem que, talvez, tenha se tornado símbolo da revista, foi o Chiquinho, um loirinho endiabrado, de olhos arregalados. Foi o personagem que mais tempo sobreviveu nas páginas do semanário. Com sete anos de idade, estava sempre às voltas com alguma peraltice para atazanar a vida dos adultos que o rodeavam.
Nas Aventuras do Chiquinho, havia um diálogo constante entre o mundo adulto e o infantil.

Os brinquedos de armar
Outra coqueluche da revista eram os brinquedos de armar.
Publicados parcialmente durante várias edições, traziam carruagens, relógios, circos, casas e carrosséis.
Os desenhos vinham nas páginas centrais da revista com a instrução de serem colados em cartolina, recordados e montados conforme os esquemas.
Anos mais tarde, a revista Recreio usaria o mesmo artifício em suas páginas com grande sucesso.

As histórias
Nas páginas do Tico-Tico, o pequeno leitor também encontrava, publicados em capítulos, clássicos da literatura mundial. Ali puderam ser lidas As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain; A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, Cinco Semanas num Balão, de Julio Verne, Dom Quixote, de Cervantes, Hamlet, de Shakespeare ou ainda Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, entre outros.
Contos de fadas e lendas brasileiras também foram presença constante, encantando o público leitor com suas narrativas mágicas e fantasiosas.

Os almanaques
O primeiro Almanaque de O Tico-Tico foi lançado no final de 1906 e desde então, seguiu sendo publicado anualmente, sempre com capa dura, até 1958, ano em que deixou de circular.
Desde seu lançamento, o Almanaque O Tico-Tico tornou-se um item obrigatório para as crianças de classe média, que esperavam ansiosas ganhá-lo como presente de Natal.

O declínio e desaparecimento da revista
Embora tenha existido por parte dos editores um constante esforço para manter a publicação atualizada e contextualizada com o panorama social, sua visão tradicionalista do desenvolvimento infantil foi o maior responsável pelo fim da revista.
Em 1934, Adolfo Aizen lançava no Rio de Janeiro o Suplemento Infantil, inaugurando uma nova fase na divulgação das histórias em quadrinhos no país. O sucesso do Suplemento Infantil abriu caminho para outras publicações, como O Globo Juvenil e o Gibi, esta última acabou tornando-se sinônimo de revista em quadrinhos.
De repente, os personagens ingênuos e bem intencionados de O Tico-Tico, foram perdendo terreno para os intrépidos desbravadores de novos mundos, homens mascarados ou seres super-poderosos.


Algumas informações importantes

Primeira Edição
11 de outubro de 1905
Última Edição
1962
Tiragem Inicial
10.000 exemplares – devido ao sucesso da primeira edição, mais 11.000 exemplares foram impressos às pressas.
Periodicidade
Semanal – sempre às quartas-feiras.
Preço
200 réis – este preço, relativamente baixo para a época, se manteve por mais de 15 anos.
Total de edições
2.097 ao longo de 57 anos de existência.

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