quarta-feira, 4 de março de 2009

Jornalismo preguiçoso

A Fabrícia é uma aluna sempre disposta a colaborar. É daquele tipo batalhadora, curiosa, instigadora, enfim, com todos os requisitos necessários para a profissão. É dela a contribuição abaixo que merece ser lida e refletida:

A banda Los Hermanos, que em 2007 iniciou um recesso por tempo indeterminado, estourou em 1999 com o single Anna Julia. Depois disso, lançou três CDs aclamados pela crítica e continuou fazendo sucesso no cenário pop-rock nacional. Há cerca de dois anos, um dos integrantes da banda, o músico Rodrigo Amarante, deu uma entrevista numa coletiva de imprensa no Festival de Inverno de Vitória. Ela está disponível no Youtube (http://www.youtube.com/watch?v=iypM6LKhB8o) e na Revista Virtual Consciência.Net. Transcrevi-a abaixo:



Jornalista: Vocês são sempre lembrados por Anna Júlia, né?

Rodrigo Amarante: Nem sempre.

Jornalista: Isso incomoda vocês, ser (sic) sempre lembrados por Anna Júlia?

Rodrigo Amarante: Não. Por que nem sempre.

Jornalista: É que sempre que tem Anna Julia, tem a referência Los Hermanos-Anna Julia…

Rodrigo Amarante: Hã?

Jornalista: Sempre tem essa relação Anna Julia - Los Hermanos…

Rodrigo Amarante: É… é que é uma música nossa, né? Por isso que tem essa relação. Você queria saber o que mesmo?

Jornalista: Essa coisa… se incomoda vocês serem sempre lembrados por Anna Julia?

Rodrigo Amarante: Não porque não é sempre que a gente é lembrado por Anna Julia. Você vai ver. Hoje a gente não vai tocar Anna Julia. Você vai ver.

Jornalista: Mas sempre a galera pede…

Rodrigo Amarante: Não.

Jornalista: Não pede?

Rodrigo Amarante: Não. Você já foi em algum show do Los Hermanos?

Jornalista: Não.

Rodrigo Amarante: Ah… e esse “sempre” vem da onde?

Jornalista: Não, foi pelo que eu li… mas, pelo visto, incomoda, não?

Rodrigo Amarante: Não… o que incomoda é… é o jornalismo, é… como é que eu vou dizer… preguiçoso, de não saber o que perguntar e perguntar qualquer coisa… Ah, incomoda? É o jornalismo baseado na polêmica, sabe? É muito comum, hoje em dia, a polêmica ser a tônica do jornalismo, como se o papel do jornalista fosse descobrir um ponto fraco, uma coisa assim. Eu, particularmente, acho que o trabalho do jornalista é um trabalho muito importante. É, assim, como o trabalho… de uma pessoa pública do governo, do Estado. Tem uma responsabilidade, um papel importante, né? As pessoas lêem ou ouvem o que vocês fazem e tomam como verdade, como uma coisa que é feita com critério. E isso influencia a opinião das pessoas por aí, então. E esse tipo de pergunta… assim… leviana, sem profundidade… acaba levando as pessoas a terem uma opinião errada, que é essa, de que incomoda a gente Anna Julia. Pelo contrário, a gente adora a música, tem tocado em muitos festivais e… nunca tivemos problema com isso. Só que é comum no Brasil, as pessoas acharem que fazer sucesso é uma coisa ruim, negativa, porque… ah, faz sucesso, então não deve ser bom… e isso é uma ingenuidade tanto da imprensa quanto das pessoas em achar que… é… se tornar… público ou ser muito conhecido é uma coisa ruim. Acho que é ruim para quem é fraco e tem medo de perder isso. A gente nunca teve isso. A gente faz música com o coração, da forma como a gente sabe fazer. Então, Anna Julia foi feita da mesma forma, a gente adora a música. As pessoas se incomodam é com a gente ter feito sucesso, isso sim…

Jornalista: A minha pergunta é pelo seguinte… não é nada contra, eu nunca assisti o show, mas… é pelo fato de eu já ter lido sobre isso…

Rodrigo Amarante: Eu acho que você leu… pouco. Desculpa a sinceridade…



Bem, esta entrevista serve de lição para nós aspirantes ao bom jornalismo.

2 comentários:

  1. Esse vídeo já é quase um clássico do youtube. Também tem outro desse estilo envolvendo o Los Hermanos. Em algum festival que não me lembro qual é, o jornalista (na verdade eram 2, um rapaz e uma moça)pergunta para o Marcelo Camelo algo sobre a empolgação da galera durante o show, mas para exemplificar ele cita o exemplo do Charlie Brown Jr. que "detonou, quebrou tudo". Mal sabia ele da briga, então recente, entre os integrantes das duas bandas. Camelo respondeu bem áspero que não estava "nem aí".

    Ah, obrigado pela visita lá no meu blog, apareça mais. bjos

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  2. O despreparo de alguns colegas é mesmo um absurdo. Fico indignada quando vejo/ouço/assisto entrevistas quando alguns repórteres só conseguem dar a "deixa" da frase com uma ou duas palavras. Então o entrevistado deita e rola e fala o que quer, mesmo os maiores absurdos. São os famosos exemplos de que perguntar ofende, sim!

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