terça-feira, 24 de março de 2009

Palavra de mestre: Entrevista com Pedro Kutney


Pedro foi meu professor de jornalismo impresso no último ano da faculdade em São Paulo. Sob supervisão dele, fui uma das editoras do jornal-laboratório Momento (aos sábados e na madrugada). Foi ele quem orientou o texto que me qualificou para o curso de extensão na Editora Abril. Através dele consegui meu primeiro emprego e depois outros em São Paulo. Mas, depois do Momento, nunca trabalhamos juntos, o que não me permitiu aprender mais. Ele é dono do texto impresso que considero ideal. Além disso, tem capacidade de liderança (por isso tem sido editor há tantos anos) e uma cultura e um senso crítico capazes de fazer uma pessoa ouvi-lo por horas, sem cansar.
No seu currículo já são 23 anos de profissão. Começou aos 22 anos na faculdade em São Paulo. Desde então trabalhou em diversos veículos: três canais de TV, cinco revistas mensais, dois jornais diários e uma agência de notícias dirigida. Isso sem falar nas centenas de free-lancers, que incluem publicações especiais, anuários, house organs e até elaboração e edição de livros.
É bem eclético nos assuntos que, ele diz, nunca escolheu – sempre foi escolhido por eles. Já cobriu esportes, náutica, política, economia, automóveis e indústria automotiva. Mais recentemente, depois de cinco anos no jornal Valor Econômico, e outros dois anos na Agência AutoData, pode-se dizer que se tornou um jornalista especializado em economia, negócios e indústria automotiva, não necessariamente nesta ordem.
Conheça um pouco mais deste meu mestre:


1. Da sua experiência como professor, qual o conselho que você pode dar aos alunos de Jornalismo hoje?
Estamos em plena era do conhecimento. Se para qualquer pessoa a absorção de conhecimento é fundamental na vida, imagine para um jornalista que produz boa parte desse conhecimento. Gosto de lembrar de uma relação de grandeza já levantada por alguns sociólogos e antropólogos: um jornal de domingo hoje carrega mais conhecimento do que um homem podia aprender durante toda sua vida no século 18. Portanto o maior conselho que posso dar a um estudante de Jornalismo é esse: prepare-se muito bem para a profissão, seja um devorador de informações, aprenda, aprenda e aprenda. E quando achar que aprendeu tudo, aprenda mais.

2. A partir de sua experiência em TV, qual é o perfil ideal para o jornalista que deseja trabalhar nesta mídia?
O profissional jornalista de TV, antes de ser um bom escritor, deve ser um ótimo roteirista, pois deve engendrar a história que quer contar com imagens e sons, verbais ou não. É como fazer um minifilme. O jornalismo televisivo tem essa característica adversa dos demais veículos: o texto serve para referendar e reforçar a imagem. Ao contrário do jornalismo impresso, que cria imagens na memória do leitor, na TV a imagem vem antes do texto, ou algumas vezes vem até sem texto algum. Portanto o texto na TV deve ser irmão siamês da imagem, cada palavra deve estar casada em regime de comunhão total de bens com o que se vê. A palavra não pode contrariar a imagem, e vice-versa.

3. Quais a principais barreiras que o jornalista novato encontra nesta área?
Qualquer área do jornalismo hoje tem dois grandes problemas: mercado restrito e falta de qualificação adequada. A primeira barreira está na porta de entrada do mercado, muito estreita para suportar a passagem de milhares de jovens jornalistas que se formam todos os anos. Em muitos casos as redações são hoje 50% menores do que eram há vinte anos. Logo, para entrar na profissão, além de ter certa dose de sorte, é preciso ser muito bom bem antes de ter a oportunidade de aprender tudo que se precisa nessa área. Antes era comum em grandes redações que os mais velhos ensinassem o ofício aos mais novos. Agora os mais velhos nem existem mais dentro das redações e ninguém tem tempo para ensinar aos outros. Assim quebrou-se a corrente de conhecimento que preparava melhor os jornalistas profissionais. A faculdade de jornalismo é importante, defendo a obrigatoriedade do diploma para o exercício profissional, mas infelizmente não se pode aprender tudo na escola. Por melhor que sejam as instituições de ensino e seus professores, a prática é essencial para aprimorar o que se aprendeu na teoria.

4. Com relação ao impresso, qual o perfil do profissional para este mercado?
Grande capacidade de absorção de informação, faro e persistência para apurar as boas histórias e ótimo texto, desenvoltura em escrever rapidamente e com elegância. No caso das grandes reportagens escritas para jornais, revistas e (por que não?) internet, a principal qualidade do jornalista deve ser a de saber transmitir emoção em seu texto – isso prende a atenção do leitor e torna a informação mais efetiva, melhor lembrada. O escritor Gabriel Garcia Márquez, ganhador do Nobel de literatura e ele mesmo um grande jornalista, sempre disse que “a reportagem é irmã gêmea do romance”. E qual a maior qualidade dos grandes romancistas? Saber transmitir emoção.

5. Como editor de revistas e jornais diários, quais foram as principais carências que você verificou nos recém-formados?
Existem sim recém-formados que chegam nas redações quase prontos para uso. Mas infelizmente isso é raro. A maior das carências é a falta de informação – muitos recém-formados chegam a uma redação sem saber quem são os principais líderes do mundo, o que falam, o que defendem; tem gente que desconhece completamente a geopolítica do mundo. O pouco conhecimento da língua é outro problema, pois gera textos pobres e cheios de erros. Essa falta de habilidade e desinformação também causam deficiência de raciocínio: muitos recém-formados não conseguem se fazer entender no texto, não há fluidez, com começo, meio e fim, as ideias ficam embaralhadas, a compreensão fica prejudicada. E o lugar para se resolver essas carências é na faculdade – ou até antes disso. Infelizmente quem chega às portas do mercado de trabalho com essas deficiências tem pouca ou nenhuma chance de ser aproveitado, pois como já disse, hoje ninguém tem mais tempo para ensinar aos outros dentro das redações.

5. Recentemente você trabalhou em uma agência de notícias. Como o aluno deve se preparar melhor para este mercado de trabalho?
Nada muito diferente do que já disse aqui. Conhecimento amplo, perspicácia, perseverança e bom texto são qualidades que se exige de qualquer jornalista em qualquer veículo de comunicação. Em uma agência de notícia a rapidez deve-se juntar a essas qualidades. No caso do noticiário de agências e internet é muito valorizado ser o primeiro a publicar a informação. – não estou falando aqui de reportagens maiores e melhor elaboradas. No caso da internet, o profissional também deve ter visão multimídia, pois a tecnologia permite a oferta de textos, imagens e filmagens em um só veículo, além de também permitir referências por meio de links.

6. Por fim, como está o mercado de trabalho em São Paulo? O que é real e o que é ilusão?
A realidade é dura. Só para exemplificar o descompasso: quando eu me formei, em 1986, existiam em São Paulo não mais do que cinco faculdades de jornalismo e as redações, de maneira geral, eram bem maiores do que são atualmente. Hoje há mais de vinte cursos e nos veículos de comunicação o espaço para jornalistas foi drasticamente reduzido. Assim emprego com carteira assinada virou artigo extremamente raro. De fato, existe mais trabalho do que emprego. Conheço muitos profissionais, inclusive eu, que hoje vivem de trabalhos free-lancer. Mais do que nunca, o jornalista está se tornando um profissional liberal, autônomo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário