sexta-feira, 6 de março de 2009

Sobre o Dia Internacional da Mulher

Começo reproduzindo um texto traduzido do espanhol, de autoria desconhecida: Um idoso foi a um hospital fazer um curativo. Estava apressado dizendo-se atrasado para um compromisso. Enquanto o médico o tratava, perguntou o motivo da pressa. Ele disse que precisava ir a um asilo para, como sempre, tomar o café da manhã com sua mulher. Ela estava naquele lugar há algum tempo porque sofria do Mal de Alzheimer. O médico quis saber se a esposa não se alarmaria pelo atraso. O senhor disse que não porque a mulher não o reconhecia há cinco anos. O médico então perguntou qual a necessidade dele tomar café com ela todas as manhãs se ela não sabia quem o marido era. No que ele respondeu: - Ela não sabe quem eu sou, mas eu sei muito bem quem ela é.
Respeito, valorização e reconhecimento. Estes são os melhores presentes para uma mulher durante todos os dias em todos os anos de sua vida. Pena que seja necessário uma data específica para que a humanidade tenha consciência disto.
Pensando contra a corrente reinante neste período do ano, acredito que ao invés de ser “comemorada” com distribuição de flores e descontos no comércio; palestras feministas que mais servem para autocomiseração ou bobagens afins, o Dia Internacional de Mulher deve ser abolido e, em seu lugar, precisamos adotar uma postura de valorização do ser humano, seja ele de qual sexo for.
É verdade que ao longo da história há exemplos suficientes que servem para ajudar o senso (pouco) crítico reinante que transforma as mulheres em “coitadinhas”. Assim acontece com a própria data em questão. Há duas versões para o fato. Ambas são, coincidentemente, de sofrimento.
A mais conhecida é a história de que no dia 8 de março de 1857, em Nova York (EUA), 129 trabalhadoras de uma fábrica de tecidos teriam morrido carbonizadas em um incêndio. Era a primeira greve norte-americana conduzida por mulheres. Elas teriam cruzado os braços pedindo melhores condições de trabalho. Entre as solicitações, que a jornada de trabalho fosse reduzida para só 10 horas diárias (!). Durante a manifestação, teriam sido acuadas pela polícia no interior da fábrica a pedido dos patrões, que teriam fechado as portas e ateado fogo no prédio. Este episódio teria motivado a comunista Clara Zetkin a propor a criação do Dia Internacional da Mulher durante a 2a. Conferência Internacional da Mulher Socialista realizada em Copenhague, na Dinamarca em 1910.
Há uma segunda versão, menos conhecida, da socióloga Eva Blay, da USP, que revela que o episódio de 1857 nunca existiu. Segundo ela, as comemorações se baseiam em um outro incêndio, em um prédio de três andares, também em Nova York, onde funcionava uma fábrica de blusas. Dentre os 600 empregados, morreram 125 mulheres e 21 homens. Daí a homenagem.
A verdade é que em 1975 a ONU – Organizações das Nações Unidas incluiu a data em seu calendário oficial e 8 de março passou a ser reconhecido como o dia de luta feminina pela defesa dos seus direitos humanos, o que deveria ter feito com que as celebrações perdessem o tom feminista e alçassem um nível de discussão mundial da condição do papel da mulher na sociedade, o que, infelizmente, ainda não aconteceu, salvas algumas (raras) exceções.
Não adiantou queimar sutiãs e reivindicar direitos como o divórcio, aborto e sexo livre no passado. Ainda hoje, leis e costumes continuam causando inúmeros tipos de violência contra as mulheres. Na China, recém-nascidos de sexo feminino podem ser descartados nas lixeiras sem punição aos responsáveis. Em muitas aldeias africanas, se corta o clitóris para que a mulher lembre-se, para o resto da vida, que foi feita para servir e não para sentir prazer.
No Brasil as injustiças são de outra ordem. Em um país onde o último censo do IBGE registra mais de 90 milhões de mulheres entre os aproximados 180 milhões de brasileiros, elas ocupam mais de 50% dos bancos escolares enquanto conquistam apenas 42% do mercado de trabalho embora sejam responsáveis pelo sustento de quase 2/3 das famílias brasileiras mesmo com serviços de pouca valorização social e financeira.
Definitivamente, as mulheres estão presentes em todos os lugares. Fazem tudo o que os homens fazem e, para não perder a piadinha, de salto alto! Mas, neste 8 de março, ainda não há só motivos para comemorar.
É verdade que a mulher brasileira tem carro projetado para atender suas necessidades, mas precisou de uma lei específica para punir o homem que a espanca. Aproveita a independência financeira e a liberdade no exercício de sua sexualidade, mas é julgada moralmente quando sofre abuso sexual. Pode se beneficiar de uma série de inovações médicas, porém teme mais a violência doméstica do que o câncer de mama. As contradições são mesmo muito grandes.
Até no lar há exploração. Elas são as primeiras a acordar e as últimas a dormir. A rotina é massacrante. Mas há quem, depois de tudo isto, receba a violência como pagamento. De cada quatro mulheres, uma já foi vítima de violência física e/ou psiquica. É, definitivamente, o maior problema enfrentado hoje. São espancamentos, estupros, morte!
Assim, antes de celebrar qualquer coisa, o que precisamos é continuar lutando para que, como na história dos velhinhos que contei no início, os esforços das mulheres sejam respeitados, valorizados e reconhecidos todos os dias.

Texto publicado na Folha da Região de 06/03/09

7 comentários:

  1. Bom saber que você não perdeu a verve. Belo texto! Serve especialmente para provar que precisa sim ter Dia Internacional da Mulher, para que algumas, como você, alertem sobre a vergonhosa opressão que, em maior ou menor grau, recai sobre mais da metade da população humana deste planeta.
    Bom lembrar, inclusive, que a raiz da opressão sobre as mulheres está nas religiões - praticamente todas elas inferiorizam a mulher e propagam dogmas que oprimem o sexo feminino. Basta lembrar da recente idiotia do arcebispo de Olinda e Recife, que escomungou os médicos que fizeram um aborto para salvar a vida de uma menina de 9 anos grávida havia 4 meses de gêmios, bem como a mãe que autorizou o procedimento, mas o religioso julga "normal" continuar a ter em seu "rebanho" o estuprador.
    Temo que muitos dias das mulheres serão ainda necessários para mudar esse triste quadro. Parabéns por lembrar disso.
    Pedro Kutney

    ResponderExcluir
  2. Olá Ayne! Também acredito que criar uma data dedicada às mulheres apenas reforça estereótipos... A meu ver, a batalha de inúmeras mulheres justifica o argumento (um pouco de senso-comum) de que "todo dia é dia da mulher"
    Um forte abraço, e parabéns pelo Blog que a cada dia está melhor!

    ResponderExcluir
  3. Feliz dia das mulheres, Ayne!!

    Vc é o exemplo máximo de uma mulher que é tudo de bom!!

    Super beijo

    Mi
    http://www.magricelanapanela.com.br

    ResponderExcluir
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  5. As mulheres sempre marcadas e admiradas pelas batalhas eternas e conquistas honrosas. Os dias das mulheres deveriam sempre ser eternizados... Cada dia deve ser comemorado e vangloriado, pois as mulheres marcam e fazem história diariamente. São elas, ao lado, em frente, atrás(qse nunca) das maiores vitórias da humanidade, independentemente do status e sa posição em que estejam e, independentemente, do personagem que exerce tal função - a da conquista! Mulheres são sempre lembradas, são sempre admiradas e serão sempre vencedoras. Parabéns a todas as mulheres em todos os dias de cada ano, por tudo que fazem, por tudo que são e por tudo que representam!!!
    Bjos

    ResponderExcluir
  6. Pedro, algumas coisas a idade deu conta de acomodar (ou despencar...), mas minha capacidade de indignação continua a mesma. Acho que é isto que mantém a nós, jornalistas, vivos.

    ResponderExcluir
  7. Diuan, Lilian e Michele;
    Como disse meu mestre Pedro, acima, ainda serão necessários muitos dias das mulheres para que essa realidade preconceituosa e discriminadora - que não é só brasileira, mas mundial - modifique-se. E é nosso papel, como jornalistas, ajudar a mudar isto. Beijos e obrigada!

    ResponderExcluir