quarta-feira, 8 de abril de 2009

Crônica: um modelo a ser seguido

Admiro o professor Tito Damazo por sua competência profissional, mas especialmente pela pessoa que é: educado, inteligente, ponderado, um exemplo. Acompanho seus textos periodicamente na Folha da Região e gosto de todos. Mas este, reproduzido abaixo, tem algo de especial: é simplesmente a perfeição! Uma riqueza de ideias e de palavras dignas de muita admiração. É por isto que reproduzo-o abaixo. Leiam, deliciem-se e, de preferência, inspirem-se neste modelo.


Crônica: “Recusa”

Por Tito Damazo

Publicada em 06 de Abril de 2009

Fiquei aturdido. Na primeira noite, a primeira vez, apreensivo. O pensamento insistindo em centrar-se naquela anormalidade da natureza, mas a insistente ansiedade de atualizar as leituras, vício irrevogável, relutava em não ceder lugar a tal fenômeno, invulgar, mas que já se cotidianizara em todas as instâncias da sociedade e setores da vida. O fato, embora ostensivamente rechaçado, não se extinguira do pensamento. Ficou ali pela zona periférica circunvagando, até que as leituras, muitas e diversas, foram embotando-o por completo.

As matérias das leituras, praticamente, como era de hábito, se esvaíram, pois outras similares logo as substituiriam e a estas, outras, assim, mecânica e sucessivamente. O simultaneísmo contínuo é que dirige a vida presente, os homens presentes. Entretanto, aquela fenomênica anormalidade, subjacente, por alguma circunstância metonímica, circunvagava, por instantes, o pensamento.

Certo é que a torpeza, o grotesco e o estapafúrdio tornaram-se caso comum da existência humana. A vida, uma dádiva inigualável, merecedora sempre de cuidados, amparos e reparos, para que fosse o mais eternamente durável, não apenas se fragilizou, tornou-se um risco de morte a cada instante. A absoluta insegurança, descrédito e desconfiança tomaram conta do homem. Mais do nunca, a frase, constantemente repetida por Riobaldo em "Grande sertão: veredas", "Viver é muito perigoso", tornou-se uma máxima destes tempos atuais.

Confessado, o que me aturdiu por certo será objeto de várias observações desabonadoras. Será tido por portador de romantismo ingênuo e há muito extemporâneo. Será motivo de ironias e sarcasmos. Dirão que não estou conectado com a realidade mesma. Outros ter-me-ão por otário, digno de sempre ser alvo de engodos.

Afinal, para eles, certamente, é rotina normal crianças de nove anos engravidadas por padrastos, parentes e, quando salvas por aborto, excomungadas, juntamente com os abortadores, por ignóbil bispo; filhas encarceradas e estupradas pelo pai; filha atirada de apartamento pelo próprio pai; homens-bomba matando dezenas, centenas de pessoas com sua explosão; assaltos e assassinatos hediondos cometidos, muitos deles, por menores, pelo que, impunemente, permanecem soltos, cometendo crimes da mesma natureza; jovens invadindo escolas e matando a tiros crianças e adolescentes escolares, como também professores; o narcotráfico, situado fora e dentro de presídios públicos, dominando e comandando a vida tanto em favelas, quanto fora delas; rios envenenados por toda sorte de poluentes; fumaças, fuligens, gás carbônico exterminando vidas, arrebentando a camada de ozônio; florestas devastadas, milhões de crianças, mulheres e velhos morrendo de inanição, enquanto milhares, dentre eles centenas de homens públicos, vivem nababescamente e, não contentes com mordomias e mansões, constroem castelos similares aos dos senhores feudais da Idade Média. Eis um simples retrato desta era termotécnica supermoderna: em vez de conforto e fartura a todos seus cidadãos, aumento assustador da miséria, da fome, do genocídio, da atrocidade, cujos protagonistas são os agentes que compõem esse quadro.

Ora, pois, direis, ante uma conjuntura existencial tão nefasta, confessar-se alguém aturdido por ouvir, por minutos, mais de uma vez em alta noite, gritos de bem-te-vis, só pode ser coisa de gente maluca, alienada, romântica, desocupada.

E eu vos direi, no entanto, que só quem se recusa de se conformar com tal condição humana, cujo autossuicídio se faz em escala progressiva estonteante, é capaz de se confessar aturdido ante gritos aflitos de bem-te-vis, que deveriam estar, em alta noite, postos em sossego, dormindo profundamente.


Francisco Antônio Ferreira Tito Damazo é professor-doutor, coordenador do curso de Letras do UniToledo e integrante da Academia Araçatubense de Letras. Ecreve, quinzenalmente, no jornal Folha da Região.

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