quarta-feira, 8 de abril de 2009

Na orgia da festa

O texto reproduzido abaixo, com este título (acima), foi enviado em forma de colaboração pela acadêmica Marília de Oliveira da Silva Lopes, do 7o. sem de Jornalismo do Centro Universitário Toledo de Araçatuba. Ele foi reproduzido na íntegra, portanto todos os conceitos emitidos e regras ortográficas cumpridas (e descumpridas) são de responsabilidade do autor (e da colaboradora). Ela faz uma reflexão ao final e pede que os colegas também se manifestem. Vamos a ele!

Na orgia da festa
Por Labi Mendonça

Ou será no desespero da fé?
Sei que tem muito intelectual que diz não gostar de carnaval. No Brasil o carnaval é uma festa muito importante, tão importante quanto o natal.
Tem gente que detesta. Os beatos, os puritanos, os frescos metidos a sebo também execram. Sei que tem gente boa que critica dizendo que é uma loucura generalizada que toma conta das pessoas e faz a festa profana mais famosa do mundo parecer uma orgia desenfreada de ritmos primitivos, de bebedeiras, dança, suor, sexo e futilidade.
Tem os que explicam pela ótica da psicologia dizendo que é uma catarse coletiva necessária como válvula de escape das pressões sociais. Mas tem também quem saiba defender pelo lado da cultura popular, da festa de folia tradicional de um povo, e que até se mostra como uma manifestação riquíssima onde a mistura de várias artes consegue produzir coisas sempre inovadoras e culturalmente dinâmicas na nossa sociedade miscigenada e sincrética.
Eu não me preocupo muito com essas explicações nem com os ataques. Eu sei que gosto desse tal de carnaval. É uma coisa deliciosa. Eu curto diferentes aspectos dessa folia.
Fico pensando nos milhares de pessoas que vivem quase todo o ano, ou até o ano inteiro, trabalhando para que os carnavais sejam sempre inesquecíveis para quem deles participe. Uma multidão de artesãos, de coreógrafos, de artistas plásticos, músicos, aderecistas, mecânicos, costureiras, fabricantes de bebidas, de tecidos, etc...
É um período especial que mobiliza inúmeros setores da economia, até a importação de artigos e a exportação de outros produtos advindos do carnaval. Chegamos a exportar bundas para outros países, admirados, que levam nas fitas de vídeo ou DVD essas esculturas eróticas nacionais.
No Brasil inteiro, em cada rincão diferente, festas, manifestações culturais regionais específicas, brincadeiras, tradições, são revisitadas e renovadas.
Acontece num período especial, perto do final do verão. O turismo ganha sua expressão máxima, a hotelaria se dinamiza, e as pessoas entram numa espécie de frenesi que torna a coisa sempre muito interessante e excitante de observar e de vivenciar.
Eu hoje não bebo mais, mas já bebi muito e gostava de ficar alegre para me divertir mais ainda no carnaval. As pessoas ficam excitadas, procuram fantasias para vestir ou para viver, se despem, se travestem, se mascaram ou se desmascaram, revelando sua natureza descomprimida pela maior liberalidade que a época impõe. Elas querem brincar e ser felizes.
Não estou tentando fazer uma resenha cultural sobre a importância do carnaval e nem um resgate das suas origens. Estou falando mesmo do prazer que eu sinto nessa época, ao ver as pessoas se entregando a essa maravilhosa fantasia de viver na alegria e na onda liberal de poder esquecer o mundo e as suas rígidas obrigações, para embalar um sonho de alegria que dura poucas horas ou alguns dias.
Seja no norte, na Amazônia dos bois-bumbás, no nordeste dos frevos e maracatus, na Bahia dos trios elétricos, ou no centro-oeste e sudeste dos blocos e das escolas de samba, ou ainda no sul de gaúchos, manezinhos e paranaenses, que exporta turistas para as demais regiões, o carnaval incendeia a grande maioria do povo e faz com que esse período seja uma busca coletiva pelo prazer.
Eu fico encantado quando vejo a busca sadia pelo prazer. Sei que tem a busca doentia, mas essas loucuras existem em todas as épocas. No carnaval eu vejo a busca sadia pelo prazer tomar mais evidência. As pessoas se despem, buscam as praias e o sol para ficarem bronzeadas, se embelezam, se esforçam para exercitar melhor a força da sedução, incorporam uma sensualidade ampliada pelo desejo de sensações libertas das rígidas restrições que o dia-a-dia lhes impõe.
As mulheres exibem seus corpos sensuais, algumas chegam a desfilar nuas, belezas tentadoras, provocando o desejo e satisfazendo a necessidade exibicionista de se expor aos olhos admirados do resto do mundo. Mesmo quem não é um poço de beleza assume sua forma natural e se expõe, transgredindo com deleite os padrões de normalidade.
Eu me encanto com essa época subversiva e anárquica, onde as pessoas podem dar uma liberada básica e geral na sua própria loucura, sem que sejam definitivamente condenados ao julgamento dos que se colocam como os donos dos destinos. E vejo com grande satisfação as brincadeiras, os desfiles, as multidões que se sacodem nas ruas ao som de ritmos frenéticos.
A impressão que eu tenho é que nesse período até o sexo é feito de uma forma mais arrojada e excitante. Quem nunca deu daquele jeito vai experimentar e dar. Quem nunca comeu daquela forma vai tentar comer. As pessoas buscam satisfazer alguns desejos e fantasias guardadas especialmente para esse período onde podem dar espaço para tais sentimentos e vontades.
Eu assisto a esse maravilhoso espetáculo da vida, que busca com mais intensidade o prazer imediato ao seu alcance e fico contente, achando que a cada ano mais pessoas se libertam da prisão da vida comum e sem revolta se permitem mergulhar nesse mar de aventuras e novidades que a festa do carnaval oferece. Até parece que o paraíso voltou a se instalar na terra.
Mas além dessa onda de alucinação encantada pela folia do carnaval, o mundo continua cada dia mais hediondo. Ao mesmo tempo em que vejo o maior dos espetáculos cênicos da atualidade no mundo, o desfile das escolas de samba no Rio de Janeiro, também assisto uma reportagem onde pessoas bomba se matam assassinando com seu gesto terrorista a centenas de outras totalmente indefesas. Aí eu acordo do sonho bom e fico vendo novamente o pesadelo acordado, onde a humanidade continua a ser de uma falta de sensibilidade atroz, selvagem e brutal, de uma crueldade e egoísmo sem precedentes.
Então eu fico pensando: Será que as vigílias e os exílios dos religiosos que acontecem nessa época são contra a entrega natural das pessoas de bem em busca do sonho e do prazer ou somente rezam para se redimir do mal que as religiões e seus extremismos causam à humanidade em sua declarada busca pela redenção? Alguns dizem que a loucura do carnaval aparentemente passou. Eu digo que a loucura voltou. Mais do que nunca ainda não estamos livres da ameaça dessa loucura que pode um dia incendiar ou explodir o mundo em defesa do ódio e da intolerância que muitas vezes se justifica na fé.

Comentário de Marília:
Achei que Labi Mendonça foi ousado em seu artigo ao usar jargões como "Quem nunca deu daquele jeito vai experimentar a dar". Essa expressão ridiculariza a conduta de quem festeja o Carnaval. Ele poderia ter dado a opinião dele ser ferir opiniões, ideologias, crenças, valores. Também peca ao questionar se os religiosos rezam para se redimir do mal que as religiões e seus extremismos causam à humanidade em sua declarada busca pela redenção. Pegou pesado demais. Nunca li um artigo tão pesado e interessante de debater como este. O que acha?

Um comentário:

  1. Admiro o texto de Labi Mendonça e concordo com a atitude, mais do que com o conteúdo justificativo. Mostrar a própria visão e tentar oferecer o mesmo prisma para que outros experimentem é iniciativa de se aplaudir, ainda mais com tanta clareza.

    Se há algo de lamentável, foi a quebra de estilo quando passou de poesia a texto acadêmico em se tratando de terminologia. E é com essa observação que faço uma outra (observação) paralela: Critiquei a mudança do estilo pela forma como aconteceu, pois foi o que me desagradou e me fez dar um tapa na mesa. E escolhi criticar isso. Poderia ter apenas elogiado, já que adorei o texto, mas repeito ainda mais a iniciativa da "escolha".

    Tenho muitas e quase todas as formas de observar o mundo, mas me dá muito prazer quando escolho fazer e o que fazer. E assim endosso a poesia de Labi, que fez, justificou e mostrou o prazer de ser livre. Não me soou como generalização nem como descrição incontestável. Soou-me como simples visão manifestada. Genial.

    Assim fez também Marília, que escolheu os pontos a criticar. E eu respeito, ainda que não somando em seu apoio. E como essa última também me afetou em seu tom, também escolho comentar, mas escolho não argumentar a cerca de "ridicularização", "pecado" ou "pegar pesado".

    Mas aplaudo, assobio e grito "u-huuuu" porque chamou ao debate! Porque fez, falou e assinou! Parabéns Marília, sou teu fã agora também!

    P.S.: Você só tá perdendo pra Ayne, mas eu acho que vocÊ entende, né...

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