segunda-feira, 6 de abril de 2009

Sensacionalismo em cena

Dias atrás, sugeri, neste espaço, que os interessados em jornalismo - jornalistas ou não - fossem assistir, de graça, à peça "O Rei dos Urubus", em cartaz no Sesi de Birigui. Diuân Feltrin, um dos mais aplicados alunos do 5o. semestre no curso de Jornalismo da Toledo, aceitou o convite e compareceu. Assistiu ao espetáculo, dividiu suas emoções comigo e aceitou escrever o texto abaixo. Vejam o que perderam:

Por Diuân Feltrin

Emissoras de televisão, em geral, preocupam-se em manter altos índices de audiência. Além de acarretar credibilidade à empresa, isso traz consigo investimentos publicitários. No contexto atual, o telespectador é considerado mercadoria, à medida que os canais analisam o público-alvo de determinada atração para organizar suas tabelas de preços de inserções publicitárias. Mas o que será que pode acontecer nos bastidores de um programa quando este se torna saturado e passa a perder prestígio? Certamente os nervos dos produtores se exaltam, já que o emprego está em jogo. Com o intuito de alavancar o Ibope, tudo pode ser feito, mesmo que isso custe a dignidade de outrem.

É esta a temática que compõem a peça “O Rei dos Urubos” da Cia. dos Gansos. A tragicomédia retrata os bastidores de um programa de TV com o sugestivo título “Programa de Família”. A atração, de uns tempos para cá, viu sua audiência despencar ladeira abaixo. O histérico e hilário Robério, diretor geral da atração, se vê aflito e estuda maneiras de fazer com que seu produto volte a ter o sucesso de outrora.

Em uma reunião de pauta com a também problemática apresentadora Solange, com o saturado e sarcástico escritor de casos humorísticos Valdemar e com o sobrinho misterioso do proprietário da emissora, Gilberto; Robério encontra o formato ideal para o “Programa de Família”. Depois de acaloradas e engraçadas discussões, o grupo resolve investir na exposição de histórias de vida de personalidades esquecidas pelo público.

Eis o enredo do “novo” programa: as personalidades-vítimas, sentadas em uma cadeira ao centro do palco, são bombardeadas por perguntas inconvenientes formuladas pelos jornalistas Robério, Gilberto e Valdemar. Porém o detalhe: os artistas não resistem até o final do programa devido às humilhações em rede nacional.

A estreia do formato, é claro, se torna um sucesso. No entanto, durante outra reunião da equipe, surge a hipótese de colocar na “cadeira quente” uma socialite chamada Alice Brandão que estava supostamente envolvida em escândalos extraconjugais. Explorar a desgraça da subcelebridade, na opinião de Gilberto, dobraria o Ibope do programa. Não, eles não conseguem convencer a mulher a conceder a entrevista, mas trazem ao palco seu excêntrico segurança, que diz saber todos os detalhes da suposta traição.

O empregado aceita conceder a entrevista com a condição de que sua identidade não fosse revelada. Além disso, não responderia determinadas perguntas, já que estava sendo ameaçado pelo suposto amante da patroa. O pobre homem resiste, mas a produção oferece dinheiro para que ele conceda a polêmica entrevista.

Após intensos conflitos nos bastidores, chega o momento da fatídica entrevista. Jornalistas a postos no palco; entrevistado ao centro; gravando! A partir daí o espetáculo se torna cruel. Perguntas contestadoras são feitas em uma espécie de “tribunal do santo ofício”. Gilberto exagera na dose. Solange e Robério, ao ar, pedem que o jornalista mantenha a calma. Intervalo. Todas as solicitações do entrevistado foram desacatadas. Este foge do palco, é claro, solicitando a quantia que foi prometida.

Após o término da atração, a emissora passa por uma reviravolta. As consequências foram graves! Gilberto assume o posto que era de Robério. Solange, histérica, deixa a atração que passa a ser comandada por Valdemar. Tudo é pretexto para discutir questões que tangem à ética e domínio do poder.

Seguidas as consequências da polêmica entrevista surge a questão imposta por Gilberto: “Não me arrependo de nada do que fiz. O público merece ter informações verídicas e completas. Cumpri minha missão. Fiz minha parte”.

“O Rei dos Urubus” retrata de maneira ímpar, bem-humorada e realista o cotidiano em uma emissora de TV, além de estimular o público a pensar a respeito do fato de o sensacionalismo ser ou não o vilão da mídia contemporânea. Afinal, cada público tem a informação que merece?

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