quarta-feira, 10 de junho de 2009

Palavras são como pontes antigas

O texto que reproduzo hoje é de um amigo querido, Prof. Dr. Paulo Custódio de Oliveira. Foi publicado no Jornal de Jales do dia 31 de maio de 2009 e precisa ser divulgado aqui pelo perfeito exemplo de como é importante trabalhar bem as palavras, articular o pensamento, escrever com clareza, mas, ao mesmo tempo, com toques da literatura, que sempre encantam.
O texto é bom como o próprio Paulo. Tive o prazer de trabalhar com ele no Sistema Anglo de Ensino, nas várias unidades da região de Fernandópolis, Jales e Santa Fé do Sul, por quase 20 anos (ai! esqueci de dizer que comecei muito cedo...). Nos últimos anos, trabalhávamos no mesmo dia, às quintas-feiras, na unidade de Jales. Era só alegria, pelo menos pra nós (os alunos amargavam aula de redação - minha, de literatura - do Paulo, e de filosofia - do Pérsio; tinham que pensar muuiittoo!!!). Pérsio foi outro anjo na minha vida. Assim, todas as quintas eram o céu: eu podia escolher a sala, o bloco de aulas, tudo o que quisesse, tinha todas as facilidades de uma dama no meio de dois cavalheiros.
As conversas nos pequenos intervalos afastavam qualquer cansaço. Tinha muito riso, muita música e poesia. Depois disso, nunca mais minhas quintas-feiras foram iguais...
Quando decidi mudar de vida, lá estavam os dois para me apoiar. Quando entrei no mestrado, ligaram os dois pra me parabenizar. No dia da minha defesa, lá estava o Paulo, no telefone, me dizendo palavras lindas e eu emocionada no meio do trânsito louco da capital.
Enfim, tudo isso pra dizer que as lembranças do professor de literatura que levava violão pra cantar com os alunos, era o melhor mestre de cerimônia das formaturas e a única pessoa que me fez cantar em público (pra quase 700 pessoas) são inesquecíveis.
Sim Paulo, você daria um excelente jornalista. Pena que a literatura te conquistou antes...


A nação, o povo e o território

As palavras são como pontes antigas. Não temos como não usá-las mas o melhor é que apenas as olhássemos de longe. Se puder, não se detenha sobre nenhuma palavra, querido leitor. Essas do título são exemplo claro disso. Parece que as conhecemos muito bem, mas a verdade é que uma pergunta radical sobre seus significados nos embaraçaria. Reconhecemos na palavra “povo” uma certa quantidade de pessoas que moram em determinado espaço. Quando estes se sentem unidos, dizemos que ele se constitui uma nação. A coerência interna permite que uns indivíduos se identifiquem com os outros. Essas pessoas precisam de uma língua, de uma história e de um território comuns.
Celebrar os heróis nacionais, como fizemos no último dia 21 de abril, é uma maneira de se construir uma narrativa organizadora. Digo construir porque o herói, como eu disse, foi transformado em narrativa quando alguns indivíduos perceberam que não tínhamos história e precisávamos de uma. Não existe muita coisa para sustentar a concepção de nação além dessa história imaginada por essas pessoas. Por isso é tão importante oferecer imagens que corporifiquem as idéias que os nacionais têm de si mesmos. Alguém que permita que esses homens se sintam corajosos e determinados. Um povo precisa de uma narrativa para manter-se unido. Quando ela está bem instalada na mente de um indivíduo, torna-se possível exigir-se dele as atitudes que salvaguardem a paz e a riqueza da nação.
Por esse mesmo motivo é tão complicado parar sobre a palavra nação. Seu significado também é muito frágil. Que características o herói deve apresentar para unificar um determinado povo?
Não se iluda. Qualquer resposta rápida é insuficiente. O conceito de povo não é claro para ninguém. Considera-se que um determinado grupo de pessoas pode ser chamado de povo quando elas gostam das mesmas comidas, celebram moda parecida e riem das mesmas piadas. Nesse caso, teríamos alguns problemas para chamar o povo brasileiro de nação. Somos um povo muito plural. Os costumes são muito díspares. Não me sinto nada parecido com os gaúchos. Sinto-me distante dos nordestinos. E nem lembro dos índios.
A idéia de território também não é muito segura. Não podemos dizer que evocar o território como alicerce da nacionalidade traga alguma tanquilidade. Até ontem conhecíamos um lugar chamado “União soviética”, tinha mapa com limites enormes e tudo mais. Hoje em dia a gente nem se lembra dela direito. Os mapas mudaram e ninguém falou nada. Portanto, se amanhã o país Brasil for desenhado sem a Amazônia, não acredito que vá acontecer muita coisa. As pessoas esquecem-se rapidinho de como eram as fronteiras e passam a aceitar com serenidade o novo formato do país. Tenho até impressão de que isso já começou.
Além disso, há nações sólidas sem território. Lembremos dos bascos e dos Israelense. O povo de Israel empreendeu verdadeira cruzada para conseguir um lugar na terra. Fizeram renascer a língua hebraica que já estava morta. Lutam pelo terreno até hoje. Os bascos estão em condição pior. Ainda continuam sem nenhuma terra. Nem por isso se consideram espanhóis.
Vês? Quando tomamos as palavras, vagamos de uma quase significado para um quase sentido. Sempre. Como as pontes velhas, elas sustentam precariamente os pensamentos. Causa-nos angústia estar diante delas, perguntar-lhes o que nos trazem. Quando há resposta, o significado pobre ou terrível, desvela sempre a instabilidade do real.

PAULO CUSTÓDIO DE OLIVEIRA
(Prof. de Literatura da UNIJALES e do Anglo)

3 comentários:

  1. Ave, que posts grandes!!! hehehe!!! Brincadeira... Prometo ler, mas agora venho pedir tua participação no meu post mais recente "Ferimos o mundo...". Faço questão e se houver algum problema com a postagem, me avisa que eu toco o terror no provedor, uhá, uhahá, uhahahahá!!

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  2. O Ayne, beleza? Estou passando para registrar que meu blog voltou à rede. Aparece la para uma visitnha. Bjusss

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  3. Valeu, Ayne!!! Seu feed-back me faz ter vontade de acreditar que vale continuar!!! Bjão e sucesso sempre!

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