terça-feira, 11 de agosto de 2009

JORNALISMO E CIDADANIA

“O jornal é a oração matinal do homem moderno”. A frase não é minha, é de Hegel e foi pronunciada há muito tempo embora permaneça atual. Vivemos, hoje, na sociedade da informação. Alguns acordam com o rádio-relógio a informar as últimas notícias. Muitos ligam os aparelhos de televisão e o próprio rádio nos noticiários enquanto se arrumam ou se dirigem para mais um dia de trabalho.
Quem tem tempo, toma café da manhã folheando as páginas dos jornais. Quem não tem, nas grandes cidades recebe de graça seu exemplar na porta do metrô e entre uma estação e outra, consome as informações. Se não quiser ler, pode prestar atenção nas telas instaladas nos vagões e ônibus, equipados para informar todo tipo de necessidade humana: temperatura e previsão do tempo, situação do trânsito, mercado financeiro, política, conflitos, catástrofes...
Nas versões mais sofisticadas até os celulares atualizam seu portador sobre o que acontece no mundo, em tempo real. Enfim, há um exército de profissionais que se dedica a nos apresentar e explicar o mundo. E é destas apresentações e explicações que nasce o conhecimento da realidade que o homem assume no seu dia-a-dia.
Entretanto, quando a grande maioria destas informações é produzida pelo e para o showjornalismo e vêm embaladas em pacotes que, quando se espreme, sai sangue, a imprensa perde seus dois principais papéis históricos: 1) o ideal de esclarecer os cidadãos, e 2) de ser o meio de defesa dos interesses da sociedade contra quaisquer violações ou abusos.
A questão que se coloca na atualidade é como ter, ao mesmo tempo, uma tecnologia que amplia de forma inimaginável a circulação de dados elevando este momento à era da sociedade da informação e, ao mesmo tempo, assistir à atividade jornalística atravessando um período de descrédito significativo – um dos exemplos é a não necessidade do diploma para o exercício da profissão - deixando, na maior parte da população, uma sensação de impotência apesar da avalanche de notícias que alcança os brasileiros nas vinte e quatro horas do dia, mas que o torna impassível diante da maioria dos fatos.
Para combater essa sensação de alienação promovida por todos estes fatoresé que nasceu, primeiramente nos Estados Unidos, o civic journalism, termo sem tradução ideal para o português e por isto mesmo confundido com outros gêneros. No Brasil, ele ainda não é muito conhecido e vem sendo chamado ora de jornalismo cidadão, ora de jornalismo cívico, ora de “jornalismo do bem”. Os cursos superiores não têm aulas sobre ele previstas em suas grades curriculares, só algumas instituições já se anteciparam convocando especialistas para palestras ou cursos de extensão.
Mas alguns veículos de comunicação já descobriram seus benefícios. A TV Cultura, com três programas baseados neste novo modelo, é uma delas. E agora os veículos regionais podem lucrar com o civic journalism uma vez que um estudo de caso desenvolvido no programa de mestrado em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo conseguiu mostrar que além de um jornalismo mais ético, esse novo formato pode ser até mais rentável por atrair mais leitores que se identifiquem com a resolução dos problemas locais e da região.
No século XVIII, os iluministas acreditavam que esclarecido, o povo tomaria as melhores decisões para a sociedade. Dois séculos depois, Juan Diaz Bordenave afirmou que a sociedade só pode mudar aquilo que conhece. E José Marques de Melo insiste que nos três gêneros jornalísticos – informativo, opinativo e interpretativo -, a imprensa deve ajudar a formar uma sociedade mais justa.
Todos estão certos. E da mesma maneira que a tecnologia vem evoluindo em benefício da informação e do conhecimento, o modo de fazer jornalismo também precisa mudar. É preciso dar um basta na exploração da dor alheia que nada constrói. Basta de especulações. O que ainda não aconteceu nem é fato, portanto foge até da definição de notícia.
Se o jornalismo deseja ser o quarto poder, chegou a hora de recuperar a credibilidade do público. Para isto, é necessário trabalhar com conceitos como cidadania e responsabilidade social. É preciso despertar a sociedade para ações concretas que a ajudem a solucionar efetivamente os problemas comunitários.


* Este texto foi publicado pelo jornal Folha da Região de Araçatuba no dia 07/08/09.

2 comentários:

  1. Creio que ainda há confusão em compreender o Jornalismo cidadão... Carecemos desse tipo de abordagem na mídia...

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  2. OI Ayne. Este é o texto que lhe falei.
    obrigado.

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