terça-feira, 27 de outubro de 2009

Polícia e Mídia

Polícia diz que imprensa faz cobertura desproporcional da violência
Izabela Vasconcelos, de São Paulo, para o Comunique-se


Representantes das Polícias Civil e Militar, reunidos no Seminário “A Polícia e a Mídia”, classificaram a cobertura da violência pela imprensa como desproporcional. O encontro foi realizado nesta quinta-feira (22/10), pela Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp).

“Existe uma desproporcionalidade entre o índice de criminalidade e a notícia do crime. Infelizmente o cidadão não vai ao site da Secretaria de Segurança Pública para ter uma visão mais proporcional”, afirma Túlio Kahn, cientista político e coordenador de Análise e Planejamento da Secretária de Segurança Pública do Estado de São Paulo. De acordo com o especialista, que apresentou dados comparativos, acontece muito mais furto que homicídios em São Paulo, mas o homicídio é sempre mais noticiado pela imprensa.

Além de apontar outros dados, Kahn, apresentou um gráfico que mostra o crescimento de notícias sobre o crime de arrastões em condomínios. Em 2004, a pesquisa no Google retornava apenas um resultado de notícia, em 2005, 14, este ano já são 130 matérias, além de 706 relacionadas. “A questão é que a média desse tipo de crime tem se mantido a mesma nesses anos, mas a repercussão na imprensa, não”.

Informações descontextualizadas
O especialista concorda no interesse da mídia pelo inusitado, mas acredita que além da desproporcionalidade, não há contextualização. “Sempre haverá interesse para os casos mais polêmicos, mas que a imprensa contextualize isso”, defende.

O Coronel José Vicente da Silva, ex-secretário Nacional de Segurança Pública, Psicólogo Social e Consultor do departamento de Segurança da Fiesp, concorda com Kahn. “Não é que estejam falseando a verdade, que haja má vontade, o problema é que essas informações não vêm com contexto”, afirma o Coronel.

Para comprovar sua tese, Silva diz que Salvador é seis vezes mais violenta que São Paulo, e Curitiba, duas vez mais. “Apesar disso, não é a sensação que a população tem. Não se contextualiza que o estado de São Paulo tem o melhor índice de redução de mortes por violência no mundo”.

Imagem e exposição do crime
Hoje os suspeitos de crimes são protegidos pelo direito de imagem, o que frequentemente é ignorado. “Os presos podem ser filmados ou não? Como um bandido fica famoso?" questiona Silvia Ramos, pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes (CESeC). A especialista critica o fato do bandido da periferia ser sempre mostrado, e haver uma polêmica na divulgação de imagens de pessoas de classe média, ou suspeitos de envolvimento em crimes de corrupção, sendo algemadas.

Violência não vende
Na opinião de Silvia, ficou provado que a violência não vende. “Um mito que caiu nessa pesquisa é o de que a violência vende. Não é que a violência não venda, mas o Notícias Populares fechou, o Aqui Agora acabou. Esse tipo de abordagem não vende, principalmente para os anunciantes”, explicou a pesquisadora, co-autora do livro “Mídias e Violência: novas tendências na cobertura da criminalidade e segurança no Brasil", produzido pelo CESeC.

Plano de comunicação
Silvia criticou a polícia por não ter um plano de comunicação amplo. “Só na Polícia Militar são 100 mil homens, maior que qualquer grande empresa, precisa de diálogo”.

A cadeia de Comunicação Social na academia de polícia também foi defendida pelo jornalista Ricardo Viveiros, diretor do Departamento de Comunicação da Fiesp, que foi o mediador dos debates. “Todas as manchetes de hoje do O Globo, Estadão e Folha são contra a polícia. Mas a polícia brasileira é uma das melhores do planeta”. Viveiros acredita que deve haver um diálogo mais profundo da polícia com a imprensa, com o investimento na comunicação. “Defendo que todas as instituições que lidam com o público, que possam estudar a comunicação”. Os representantes das instituições policiais se comprometeram a levar o assunto a diante, para que a comunicação entre na grade da academia.

O debate também contou com a participação de outros representantes das Polícias Civil e Militar, além dos jornalistas Valmir Salaro, repórter da TV Globo; Bruno Paes Manso, repórter de O Estado de São Paulo; Claudio Tognolli, professor da ECA-USP e repórter especial das revistas Consultor Jurídico e Poder.

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