segunda-feira, 16 de março de 2009

As mudanças na mídia

Este texto foi publicado na Folha da Região de Araçatuba no último domingo, dia 15, na coluna do renomado Luís Nassif. São constatações importantes que não podem continuar despercebidas, principalmente por parte dos novos/futuros profissionais do jornalismo. Vou inclusive fundamentar minha arguição na defesa do mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)usando alguns destes dados, que considero vitais, também, para a expansão do civic journalism no Brasil. Sobre este assunto, falamos depois. Fiquem atentos:

Um estudo amplo sobre os dados do IVC (Instituto Verificador de Circulação) - que audita a tiragem de jornais e revistas - e do Ibope - para TV e rádio - comprova que a última década foi de mudanças estruturais.
Essas modificações reduziram sensivelmente o papel e a influência da chamada grande mídia - categoria na qual entram a Rede Globo, os jornais Folha, Estado, O Globo, Jornal do Brasil e Correio Braziliense. E um sensível aumento de competidores, da imprensa do interior e dos jornais populares.
Entre as TVs abertas, a Globo tinha um share de audiência de 50,7% em 2001. Chegou a bater em 56,7% em 2004 - coincidindo com a queda de audiência do SBT. Hoje está em 40,6% - coincidindo com a subida da TV Record - que saiu de 9,2% em 2001 para 16,2%.
Nas três últimas semanas, o Jornal Nacional deu 26% de audiência em São Paulo. Seis anos atrás, era de 42%. Nessa época, quando o JN caiu para 35%, houve um rebuliço na Globo, a ponto de edições do JN terem blocos de 22 minutos com várias matérias de apelo. Aparentemente, perdeu esse pique.
Com os jornais da chamada grande mídia, repete-se o mesmo fenômeno. O estudo dividiu os jornais entre tradicionais (Folha, Estado, Globo, JB e Correio Braziliense), jornais das capitais, jornais do interior e jornais populares.
De 2001 a 2009, os tradicionais perderam 300 mil exemplares diários - de 1,2 milhão para 942 mil, queda de 25%. Os jornais de capitais (excetuando os do primeiro grupo) cresceram de 1,2 milhão para 1, 37 milhão - crescimento de 10,5%. Os jornais populares passaram de 663 mil para 1,2 milhão - alta de 85%. E os jornais do interior saltaram de 300 mil para 552 mil - alta de 83,5%.
Não apenas isso. Nos últimos anos, gradativamente, os jornais estão se desvencilhando da pauta da chamada grande mídia. Antes, havia um processo de criação de ondas concêntricas em torno dos temas levantados pelo núcleo central, com os demais jornais acompanhando as manchetes e as análises.
De alguns anos para cá, essa dependência cessou. Um estudo de caso analisou bem essa diferença de enfoque. Lula esteve em São Paulo.
Anunciou que as informações do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) seriam fornecidas em três horas. Os grandes jornais e o JN deram destaque para a visita a uma sinagoga (para repercutir a questão do Holocausto) e para intrigas políticas. Todos os jornais populares, do interior e das capitais, deram destaque àquilo que interessava diretamente ao seu leitor: a diminuição dos prazos de informações do INSS.
Esse exemplo sintetiza a armadilha na qual se meteu nos últimos anos a chamada grande mídia. Perdeu-se a noção dos temas relevantes ao leitor. Em vez de buscar a informação útil, enrolou-se no chamado jornalismo de intriga - sempre procurando frases ou enfoques que privilegiassem conflitos.
Enquanto isso, os jornais populares - com exceção dos paulistanos (Agora, Diário de São Paulo e Jornal da Tarde), que não decolaram - passaram a tratar dos temas de interesse de seu público, assim com os jornais de interior e da capital. Vai ser um longo trajeto para recuperar os princípios do jornalismo.