terça-feira, 24 de março de 2009

Só para rir: Os diferentes ângulos da notícia


A colaboração é da aluna Maria Cecília Egreja. Inteligente e de bem com a vida, ela divide, conosco, seu bom humor. O texto é de autoria desconhecida e ela recebeu, por e-mail, de amigos.
Eu mesma já usei este texto em sala de aula com algumas turmas justamente para demonstrar, de forma cômica, alguns processos de angulação, enquadramento e linha editorial dos veículos de comunicação.
Ainda sobre este mesmo tema, há um filme infantil recente ("Deu a louca na Chapeuzinho") que demonstra as várias versões desta mesma história e que vale a pena ser visto.
Divirtam-se, mas também reflitam:


Chapeuzinho Vermelho na imprensa....

JORNAL NACIONAL
(William Bonner): 'Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem...
(Fátima Bernardes): '... mas a atuação de um caçador evitou uma tragédia'.

PROGRAMA DA HEBE
(Hebe Camargo): '... que gracinha gente. Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?'

BRASIL URGENTE
(Datena): '... Onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? Cadê as autoridades? ! A menina ia para a casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público! Não tem transporte público!
E foi devorada viva... Um lobo, um lobo safado. Põe na tela!! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não... '

REVISTA VEJA
Lula sabia das intenções do lobo.

REVISTA CLÁUDIA
Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho.

REVISTA NOVA
Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama.

FOLHA DE S. PAULO
Legenda da foto: 'Chapeuzinho, à direita, aperta a mão de seu salvador'.
Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.

O ESTADO DE S. PAULO
Lobo que devorou Chapeuzinho seria filiado ao PT.

O GLOBO
Petrobrás apóia ONG do lenhador ligado ao PT que matou um lobo pra salvar menor de idade carente.

ZERO HORA
Avó de Chapeuzinho nasceu no RS.

AGORA
Sangue e tragédia na casa da vovó

REVISTA CARAS
(Ensaio fotográfico com Chapeuzinho na semana seguinte)
Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS: 'Até ser devorada, eu não dava valor para muitas coisas da vida. Hoje sou outra pessoa'

PLAYBOY
(Ensaio fotográfico no mês seguinte)
Veja o que só o lobo viu.

REVISTA ISTO É
Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.

REVISTA CARTA CAPITAL
Lobo Mau tinha ligações com FHC e o objetivo era desestabilizar o governo Lula e o PT.

G MAGAZINE
(Ensaio fotográfico com lenhador)
Lenhador mostra o machado

SUPER INTERESSANTE
Lobo mau! mito ou verdade ?

DISCOVERY CHANNEL
Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver.

ONG vê risco para exercício do jornalismo no Brasil

Diuân é um aluno esforçado, sempre presente, curioso, como todo bom jornalista. É dele a colaboração abaixo que serve de alerta para todos nós. O texto, de Sérgio D´Avila, foi publicado na Folha de S.Paulo de hoje, dia 24 de março de 2009.

O Brasil está entre os 14 lugares mais perigosos do mundo para o exercício da profissão de jornalista, junto de países em guerra, como Iraque e Afeganistão, ou que passam por conflitos civis, caso de Serra Leoa e Somália. A conclusão é do CPJ (Comitê para a Proteção dos Jornalistas), que acaba de divulgar seu levantamento anual.

É o Índice da Impunidade, que elenca os países em que os jornalistas são mortos com regularidade e em que o governo falha ao tentar solucionar os crimes. Em seu segundo ano, traz o Brasil em 13º lugar, à frente da Índia (quanto mais elevada a colocação, piores as condições). Os líderes são Iraque, Serra Leoa, Sri Lanka, Somália e Colômbia.

Para chegar ao ranking, a ONG baseada em Nova York, que defende a liberdade de imprensa no mundo inteiro, divide o número de casos não resolvidos de assassinatos de jornalistas por milhão de habitantes no período de 1999 a 2008. Só entram na lista países com cinco ou mais casos; são considerados não resolvidos os que não resultaram em condenações.

É a estreia do Brasil na lista. "Embora as autoridades brasileiras tenham sido bem-sucedidas em promover ação penal contra alguns assassinos, esses esforços não diminuíram a alta taxa do país de violência mortal contra a imprensa", diz o texto, segundo o qual alguns "jornalistas cobrindo crime, corrupção e política local" encontraram "consequências brutais".

O CPJ afirma que houve cinco assassinatos de jornalistas não resolvidos na última década no Brasil. O relatório cita o de Luiz Carlos Barbon Filho, que em 2003 denunciou um esquema de aliciamento de menores que envolvia vereadores de Porto Ferreira (SP) e foi morto em maio de 2007 num bar da cidade. "Cinco homens, entre eles quatro policiais, estão sendo julgados", diz o CPJ.
Brasil, Colômbia e México são os únicos latino-americanos do ranking, de resto dominado por países do sul da Ásia. Mesmo em zonas de guerra, como Iraque e Afeganistão, é mais provável que o jornalista seja assassinado em decorrência do assunto que cobre no momento que durante combate ou vítima de fogo amigo, diz o comitê.

Palavra de mestre: Entrevista com Pedro Kutney


Pedro foi meu professor de jornalismo impresso no último ano da faculdade em São Paulo. Sob supervisão dele, fui uma das editoras do jornal-laboratório Momento (aos sábados e na madrugada). Foi ele quem orientou o texto que me qualificou para o curso de extensão na Editora Abril. Através dele consegui meu primeiro emprego e depois outros em São Paulo. Mas, depois do Momento, nunca trabalhamos juntos, o que não me permitiu aprender mais. Ele é dono do texto impresso que considero ideal. Além disso, tem capacidade de liderança (por isso tem sido editor há tantos anos) e uma cultura e um senso crítico capazes de fazer uma pessoa ouvi-lo por horas, sem cansar.
No seu currículo já são 23 anos de profissão. Começou aos 22 anos na faculdade em São Paulo. Desde então trabalhou em diversos veículos: três canais de TV, cinco revistas mensais, dois jornais diários e uma agência de notícias dirigida. Isso sem falar nas centenas de free-lancers, que incluem publicações especiais, anuários, house organs e até elaboração e edição de livros.
É bem eclético nos assuntos que, ele diz, nunca escolheu – sempre foi escolhido por eles. Já cobriu esportes, náutica, política, economia, automóveis e indústria automotiva. Mais recentemente, depois de cinco anos no jornal Valor Econômico, e outros dois anos na Agência AutoData, pode-se dizer que se tornou um jornalista especializado em economia, negócios e indústria automotiva, não necessariamente nesta ordem.
Conheça um pouco mais deste meu mestre:


1. Da sua experiência como professor, qual o conselho que você pode dar aos alunos de Jornalismo hoje?
Estamos em plena era do conhecimento. Se para qualquer pessoa a absorção de conhecimento é fundamental na vida, imagine para um jornalista que produz boa parte desse conhecimento. Gosto de lembrar de uma relação de grandeza já levantada por alguns sociólogos e antropólogos: um jornal de domingo hoje carrega mais conhecimento do que um homem podia aprender durante toda sua vida no século 18. Portanto o maior conselho que posso dar a um estudante de Jornalismo é esse: prepare-se muito bem para a profissão, seja um devorador de informações, aprenda, aprenda e aprenda. E quando achar que aprendeu tudo, aprenda mais.

2. A partir de sua experiência em TV, qual é o perfil ideal para o jornalista que deseja trabalhar nesta mídia?
O profissional jornalista de TV, antes de ser um bom escritor, deve ser um ótimo roteirista, pois deve engendrar a história que quer contar com imagens e sons, verbais ou não. É como fazer um minifilme. O jornalismo televisivo tem essa característica adversa dos demais veículos: o texto serve para referendar e reforçar a imagem. Ao contrário do jornalismo impresso, que cria imagens na memória do leitor, na TV a imagem vem antes do texto, ou algumas vezes vem até sem texto algum. Portanto o texto na TV deve ser irmão siamês da imagem, cada palavra deve estar casada em regime de comunhão total de bens com o que se vê. A palavra não pode contrariar a imagem, e vice-versa.

3. Quais a principais barreiras que o jornalista novato encontra nesta área?
Qualquer área do jornalismo hoje tem dois grandes problemas: mercado restrito e falta de qualificação adequada. A primeira barreira está na porta de entrada do mercado, muito estreita para suportar a passagem de milhares de jovens jornalistas que se formam todos os anos. Em muitos casos as redações são hoje 50% menores do que eram há vinte anos. Logo, para entrar na profissão, além de ter certa dose de sorte, é preciso ser muito bom bem antes de ter a oportunidade de aprender tudo que se precisa nessa área. Antes era comum em grandes redações que os mais velhos ensinassem o ofício aos mais novos. Agora os mais velhos nem existem mais dentro das redações e ninguém tem tempo para ensinar aos outros. Assim quebrou-se a corrente de conhecimento que preparava melhor os jornalistas profissionais. A faculdade de jornalismo é importante, defendo a obrigatoriedade do diploma para o exercício profissional, mas infelizmente não se pode aprender tudo na escola. Por melhor que sejam as instituições de ensino e seus professores, a prática é essencial para aprimorar o que se aprendeu na teoria.

4. Com relação ao impresso, qual o perfil do profissional para este mercado?
Grande capacidade de absorção de informação, faro e persistência para apurar as boas histórias e ótimo texto, desenvoltura em escrever rapidamente e com elegância. No caso das grandes reportagens escritas para jornais, revistas e (por que não?) internet, a principal qualidade do jornalista deve ser a de saber transmitir emoção em seu texto – isso prende a atenção do leitor e torna a informação mais efetiva, melhor lembrada. O escritor Gabriel Garcia Márquez, ganhador do Nobel de literatura e ele mesmo um grande jornalista, sempre disse que “a reportagem é irmã gêmea do romance”. E qual a maior qualidade dos grandes romancistas? Saber transmitir emoção.

5. Como editor de revistas e jornais diários, quais foram as principais carências que você verificou nos recém-formados?
Existem sim recém-formados que chegam nas redações quase prontos para uso. Mas infelizmente isso é raro. A maior das carências é a falta de informação – muitos recém-formados chegam a uma redação sem saber quem são os principais líderes do mundo, o que falam, o que defendem; tem gente que desconhece completamente a geopolítica do mundo. O pouco conhecimento da língua é outro problema, pois gera textos pobres e cheios de erros. Essa falta de habilidade e desinformação também causam deficiência de raciocínio: muitos recém-formados não conseguem se fazer entender no texto, não há fluidez, com começo, meio e fim, as ideias ficam embaralhadas, a compreensão fica prejudicada. E o lugar para se resolver essas carências é na faculdade – ou até antes disso. Infelizmente quem chega às portas do mercado de trabalho com essas deficiências tem pouca ou nenhuma chance de ser aproveitado, pois como já disse, hoje ninguém tem mais tempo para ensinar aos outros dentro das redações.

5. Recentemente você trabalhou em uma agência de notícias. Como o aluno deve se preparar melhor para este mercado de trabalho?
Nada muito diferente do que já disse aqui. Conhecimento amplo, perspicácia, perseverança e bom texto são qualidades que se exige de qualquer jornalista em qualquer veículo de comunicação. Em uma agência de notícia a rapidez deve-se juntar a essas qualidades. No caso do noticiário de agências e internet é muito valorizado ser o primeiro a publicar a informação. – não estou falando aqui de reportagens maiores e melhor elaboradas. No caso da internet, o profissional também deve ter visão multimídia, pois a tecnologia permite a oferta de textos, imagens e filmagens em um só veículo, além de também permitir referências por meio de links.

6. Por fim, como está o mercado de trabalho em São Paulo? O que é real e o que é ilusão?
A realidade é dura. Só para exemplificar o descompasso: quando eu me formei, em 1986, existiam em São Paulo não mais do que cinco faculdades de jornalismo e as redações, de maneira geral, eram bem maiores do que são atualmente. Hoje há mais de vinte cursos e nos veículos de comunicação o espaço para jornalistas foi drasticamente reduzido. Assim emprego com carteira assinada virou artigo extremamente raro. De fato, existe mais trabalho do que emprego. Conheço muitos profissionais, inclusive eu, que hoje vivem de trabalhos free-lancer. Mais do que nunca, o jornalista está se tornando um profissional liberal, autônomo.