segunda-feira, 13 de abril de 2009

Senado X mídia


Na última sexta-feira, dia 10 de abril, o jornal Folha de S.Paulo publicou pequena notícia sob o título Casa endurece regras para o acesso. O texto explicava que, diante da série de denúncias de irregularidades no Senado veiculadas pela mídia nas últimas semanas, aquela Casa havia decidido colocar em prática um documento elaborado desde 2005, mas que agora servirá para "endurecer" com a imprensa.
O tal documento obriga que todos os questionamentos para os senadores e funcionários do Senado devem ser feitos por ofício, com prazo de cinco dias para resposta. Detalhe: os pedidos de pessoas físicas devem ser apresentados mediante cópia autenticada da carteira de identidade, comprovante de residência, motivação detalhada do pedido e termo de responsabilidade assinado e autenticado. Para as pessoas jurídicas ainda é preciso uma procuração.
A Folha de S.Paulo apurou que a primeira leva de pedidos, inclusive dela prória, deve ser indeferida, pois "não cumpriu requisitos estabelecidos pela Mesa Diretora".
Como o assunto é sério e não dá só pra rir, disponibilizo, abaixo, texto ímpar do incomparável Clóvis Rossi publicado na mesma Folha, no sábado, dia 11:


Quebrar o espelho


SÃO PAULO - O que faz quem anda com má imagem? Se é uma pessoa normal e entende que a má imagem é produto, de fato, de atitudes incorretas ou inconvenientes, trata de corrigi-las.
Se acha, ao contrário, que a imagem ruim é injusta, trata de divulgar o máximo possível de fatos que demonstrem a injustiça e, no limite, corrijam a imagem.
Mas, se é congressista, quebra o espelho que mostra a imagem. É o que acaba de fazer o Senado, ao decretar que todo pedido de informação deve vir na forma de ofício, com prazo de cinco dias para a resposta. Quer dizer na prática o seguinte: o parlamentar é, teoricamente, representante do tal de povo, mas não se sente como tal.
Sente-se como parte de um clube fechado que não tem a menor pressa em dar satisfação ao público. Nesse ambiente porco, sou obrigado a lembrar uma coisa elementar, mas que os nobres pais da pátria perderam de vista faz séculos: jornalista, salvo os venais que também existem, não busca informação para levar para casa e contar para a mulher, o pai, a mãe, os filhos ou os amigos.
O sentido da coisa toda é repassar as informações ao leitor/eleitor. Lembro também outra obviedade que a casta esqueceu completamente: todas as informações que os congressistas detêm não são propriedade pessoal. Ele não fica sabendo disso ou daquilo nem toma tal ou qual atitude como pessoa física, mas como pessoa jurídica, como representante do eleitor.
Por extensão, tem que dar satisfações imediatas a este, diretamente ou via mídia, como acontece em qualquer lugar do mundo civilizado. E quando não acontece, a imagem do político sofre tanto que ele acaba defenestrado.
Aqui, terra sem lei e sem respeito, não. O político quebra o espelho para evitar que o público veja a imagem patética que eles construíram e querem esconder.

Os bons repórteres devem ser admirados


Gosto muito de Luís Fernando Veríssimo. Da sua inteligência, do seu texto e, principalmente, da sua habilidade de assumir verdades que poderiam, muito bem, ficar escondidas. Mas ele faz questão de mostrá-las e, com elas, valorizar alguém, algum sentimento, alguma coisa. Desta vez foi conosco, jornalistas. Vejam:



Eu, repórter

Luís Fernando Veríssimo (*)

Fonte:O Globo

Reminiscências, reminiscências... Trabalho em jornal há mais de 40 anos mas uma única vez saí da redação para fazer uma reportagem. Dizem que só o repórter é jornalista mesmo, no sentido em que só quem está na linha de frente é soldado mesmo – o resto é burocracia fardada. Pois fui repórter por um dia, em 1968. O sul-africano Christian Barnard, que meses antes fizera o primeiro transplante de coração da História, viria participar de um congresso em Buenos Aires. Eu fazia de tudo na redação do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Até, como já contei mais de uma vez, o Horóscopo. Quando faltavam artigos para a página de opinião eu fazia, usando pseudônimos. Certa vez dois dos meus pseudônimos polemizaram violentamente, pois tinham opiniões radicalmente opostas sobre determinado assunto. Eu também fazia um guia de bares e restaurantes da cidade e vez que outra inventava personalidades que os frequentavam (o conde italiano Ettore Fanfani, o empresário e bom vivant Aldo Gabarito) e davam seus palpites. Quer dizer, nada menos sério e mais longe da reportagem do que minha enclausurada atividade jornalística na época. Mas eu falava inglês, e fui o escolhido para entrevistar o Barnard. Me botaram num avião para Buenos Aires. Junto com um cinegrafista, o Leca, porque a matéria que eu conseguisse também seria para a TV.

O dr. Barnard se tornara uma celebridade mundial com seu feito. Havia uma multidão querendo entrevistá-lo em Buenos Aires. Ele atenderia a imprensa de uma vez só, numa coletiva, e depois responderia a perguntas individuais – mas só uma pergunta por repórter. Entrei na fila. O Leca ficaria perto do doutor e ligaria a câmera quando eu chegasse lá. Fiquei pensando no que perguntar ao Barnard. O argentino atrás de mim me cutucava com seu microfone à altura dos rins. Ouvi uma altercação vindo do começo da fila. Um repórter desobedecera ordens, tentara fazer uma segunda pergunta ao cirurgião e ouvia protestos dos colegas. Eu não conseguia pensar na pergunta que faria ao Barnard. Tinha que ser uma única pergunta. Uma pergunta definitiva.

– O que o senhor está achando de Buenos Aires?

Não! Algo mais científico. Como está passando o paciente que recebeu o coração transplantado? Não! O paciente poderia já ter morrido, a pergunta seria vista como provocação. Falar do apartheit na África do Sul? Não, nada a ver.

Perguntar o quê?

Eu chegava cada vez mais perto do começo da fila. O Leca me fazia sinal de positivo, estava a postos. A ansiedade do argentino atrás de mim aumentava e as cutucadas também. Perguntar o quê?

Finalmente cheguei na frente do dr. Barnard e...

Sabe que eu não me lembro o que perguntei? Tenho a vaga lembrança de alguma coisa como “O senhor espera operar num brasileiro, um dia?” mas prefiro estar enganado. Minha única vontade era estar de volta na redação do Zero Hora, inventando frases para o conde Fanfani ou o Aldo Gabarito, em vez de para mim.

Desde então, só aumentou a minha admiração por repórteres.

(*) Colunista do jornal O Globo - texto publicado na edição de 09/04/09