terça-feira, 14 de abril de 2009

A verdade e a internet

Tenho uma preocupação constante. Das pessoas que me rodeiam, dos meus filhos aos meus alunos, a maioria acredita que tudo o que é divulgado na internet é verdade. Ao ler o texto transcrito abaixo, tive uma esperança. Por isto estou divulgando-o. Servirá de reflexão e, espero, atitudes diferentes das que presencio hoje. Boa leitura!

Obra ataca voz amadora na internet

A história da técnica é a história das nossas histerias. Basta consultar um manual de história e verificar o medo que nossos antepassados sentiram perante qualquer descoberta tecnológica: da máquina a vapor à invenção da telefonia sem fios, passando pela TV e pela internet, cada avanço traz um cortejo de apocalipses. Razão tinha Paulo Francis, que em momentos de maior acídia gostava de lembrar: "O cavalo já foi um erro".
Andrew Keen integra-se no coro da histeria. Em "O Culto do Amador", este antigo "yuppie" do vale do Silício resolve matar o pai para denunciar a imoralidade da internet. "Imoralidade"? Leram bem: a internet destrói o tecido moral das nossas sociedades, a começar pela busca desinteressada da verdade e do bem. Num meio onde toda a gente tem uma voz, a verdade não se faz por discussão racional; mas por consenso.
Os motores de busca que todos usamos são a prova de que "verdade" é tudo aquilo que os internautas elegem como verdade. É assim que a Wikipedia tem mais sucesso e autoridade do que, por exemplo, a vetusta "Encyclopaedia Britannica".
Mas não só. A internet, e o culto do amadorismo que ela promove, ameaça as instituições culturais que fizeram o nosso mundo. Jornais, música, literatura ou cinema estão sendo assaltados por milhões de internautas que não respeitam os direitos autorais e roubam conteúdos sem um pingo de vergonha.
Sem falar do resto: exércitos de blogueiros em pijama que acreditam e professam um radical igualitarismo de opiniões. Na cacofonia da internet, um Ph.D. de Harvard, que passou os melhores anos da sua vida enfiado em bibliotecas, não tem mais valor intrínseco do que um autodidata adolescente, que plagia ou inventa na cave do seu subúrbio. Será possível suportar este assalto?
Keen sugere medidas destinadas a combater o monstro. "Não roubarás", declara. "Não plagiarás", acrescenta. E, pelo meio, o assustado Keen defende a existência de autoridades reguladoras que possam vigiar e punir conteúdos do meio que difamam ou assaltam a propriedade intelectual alheia. Tudo muito certo, muito sensato.

Formação clássica
Infelizmente, Keen se esquece do conselho mais importante de todos: a internet deve ser um complemento da nossa vida intelectual, e não o princípio dela. A ignorância que a internet comporta; a sua intrínseca boçalidade; a sua falta de valores éticos ou de conhecimentos válidos só será um perigo para quem procura na rede a fonte principal das suas informações.
Não conheço nenhum jornalista sério que, para preparar suas matérias, consulte a Wikipedia O mesmo para qualquer acadêmico digno de nome, que jamais substituirá o contato direto com as fontes pela consulta de um blog. Diferentemente do que Keen escreve, a internet só é uma ameaça para a nossa educação tradicional se as pessoas se esquecerem da necessidade de uma educação tradicional.
Se se esquecerem, no fundo, de que, antes de ligar o computador, é necessário um sólido conhecimento do que deve ser feito, pesquisado e finalmente encontrado.
Talvez por isso a existência da internet torna mais necessária, e não menos, uma formação clássica que proteja os indivíduos da ignorância das massas. Nas mãos certas, a internet é um instrumento poderoso e útil. Nas mãos erradas, é como qualquer pedaço de tecnologia: uma ameaça destrutiva. O problema não está na internet. Está, como sempre esteve ao longo da história, em nós.

Crítica de João Pereira Coutinho sobre o livro "O culto do amador" publicada na Folha de S.Paulo de 11 de abril de 2009.