domingo, 26 de abril de 2009

Temas difíceis no jornalismo infantil

Foi uma provocação. Durante as aulas sobre jornalismo infantil, instiguei os alunos de Jornalismo Especializado para que pensassem sobre como tratar de temas difíceis - mas atuais - como assédio sexual, pedofilia, estupro e aborto (entre outros expostos diarimente na mídia) para o público infantil, de 7 a 12 anos, que, se não lê muitos jornais e revistas, ouve noticiários no rádio e na TV.
O exercício não valia nota, mas eu queria que servisse de estímulo para que todos (re)pensassem como os veículos de comunicação estão tratando os leitores mirins, crianças que sofrem as maldades do mundo adulto, mas não são informados o suficiente para conseguirem se prevenir ou pedir ajuda.
Foram várias as surpresas boas, mas a exposta abaixo impressionou. As alunas Tamyres Araújo e Karol Veri se superaram. Elas criaram um panfleto, que também poderia ser uma página espelhada de jornal ou revista, onde abordaram os temas com um projeto gráfico atraente, uma abordagem direcionada e uma linguagem de fácil compreensão, mas sem ser simplista, reducionista ou abestalhada.
Parabéns meninas, o mercado está precisando de profissionais como vocês!



Jornalismo infantil, um desafio

Na aula de Jornalismo Especializado, coloquei minha moçadinha para conhecer, analisar e (re)pensar sobre o jornalismo infantil praticado nos veículos de comunicação brasileiros, em especial nos impressos.
Na minha avaliação, as aulas foram gostosas, pois é muito bom, para um professor, perceber a maturidade profissional na maioria dos acadêmicos.
Depois de estudarem as referências bibliográficas, analisarem as principais publicações, questionarem, debaterem e sugerirem, pedi um artigo que sintetizasse as ideais principais que ficaram do exercícios proposto.
O texto abaixo é o primeiro resultado:




Jornalismo Infantil: entre a informação, a educação e o entretenimento

Marília Lopes
Natalí Garcelan


Na metade do século XIX, o jornalismo infantil nasceu no Brasil como um instrumento de cultura e veículo utilizado no aprendizado escolar, a principal preocupação era o desenvolvimento da educação e do ensino, sem qualquer caráter mercadológico.
A revista Tico-Tico foi o marco neste segmento, já que renovou os métodos e objetivos do jornalismo feito para o público infantil. Em sua apresentação, no ano de 1905, a revista Tico-Tico se aproximou de seu público-alvo em um diálogo onde se mostrava totalmente destinada às crianças. “Eu acho que vocês todos têm razão. Na verdade, chega ser uma injustiça que no Brasil todas as classes tenham o seu jornal e só vocês não o tenham. Pois bem! Futuros Salvadores da Pátria e mães de famílias futuras! Daqui em diante, às quartas-feiras, exigi de vossos pais o Tico-Tico”.
A importância do jornalismo feito para crianças está no fato de que, assim como os adultos, elas também precisam de informação. Mayra Fernanda Ferreira afirma em sua pesquisa “Jornalismo Infantil: por uma prática educativa”, que “devido as transformações da sociedade contemporânea, na qual as crianças passaram a ter acesso às informações e à cultura, é necessário observar até que ponto a mídia infantil contribui para a formação deste público a partir dos conteúdos e formatos veiculados, uma vez que passa a atuar também como educadora”.
Um exemplo disso está em nossa cidade. A Folhinha, suplemento do jornal Folha da Região, além de informar, ocupa um papel importante na sala de aula. A jornalista responsável, Fernanda Mariano, afirma que o projeto busca ser suporte daquilo que é visto em sala de aula. Um exemplo disso está em abordar datas comemorativas, assunto que está fundamentando o discurso do professor e as práticas pedagógicas. A resposta pode ser vista no próprio suplemento. O espaço intitulado Coluninha dos Leitores recebe opiniões de crianças de diversas idades, a grande maioria incentivada por seus professores, que utilizam o material.
A pesquisa “Esqueceram de Mim”, coordenada, no ano de 2002, pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) e o Instituto Ayrton Senna, analisou o jornalismo infantil no País, e mostrou que das 138 edições consultadas, 41,3% tinha seções de cartas, em 71,9% elas ocupavam menos da metade da página. Quanto ao conteúdo, 37,8% das cartas encaminharam desenhos para publicação, 28,9% apresentaram comentários sobre o tema de capa da edição anterior, 16,7% constituíam correspondência entre leitores, 8,9% faziam pedidos ao editor e, por fim, 7,8% enviavam sugestões e críticas.
Este é um espaço que deve ser valorizado, já que é por meio dele que chegam as sugestões e opiniões daqueles que são os maiores críticos: os leitores. Outro meio de interagir com a criança é por meio das brincadeiras. 80,4% do material pesquisado apresenta jogos de passatempo como desenhos para colorir e caça-palavras.
Crianças são ativas, curiosas, imaginativas e criativas, seu mundo é diferente do mundo de um adulto, portanto a ideia de diversão deve estar ligada a aprendizagem. O quarto princípio da Declaração dos Direitos da Criança é claro quando diz que toda criança tem direito a recreação, tal princípio deve ser valorizado pelos comunicadores por meio do lúdico. Já dizia Walt Disney: “Nada melhor que ensinar se divertindo”.
Pode-se dizer que o lúdico é um dos fatores para a compra de revistas com brindes e coleções. Os estudantes de jornalismo que desenvolveram o projeto experimental de revista infantil Mundo da Leitura, afirmam que o grande problema ainda é o entretenimento. Os brindes oferecidos pela revista Recreio, segundo consta no relatório do projeto, foram criticados por fazer com que a criança compre a revista pelo brinquedo e não pela informação.
Para o psicólogo e filósofo suíço Jean Piaget, o jogo constitui-se em expressão e condição para o desenvolvimento infantil, já que as crianças, quando jogam, assimilam e podem transformar a realidade. Neste caso, a atividade lúdica é o berço obrigatório das atividades intelectuais da criança, desta forma podemos entender que é fundamental para a educação.
Com isso podemos concluir que os mimos e brincadeiras, colocados de forma correta, podem resultar no aprendizado e interesse das crianças. Nas últimas edições da Recreio temos um exemplo disso. O público pôde encontrar o rock animal, um animal que se transforma em pedra. Nas páginas da revista há uma história em quadrinhos onde os rock animals são heróis. Além de estimular a brincadeira com o brinde, a revista estimula também a leitura. Uma criança que lê quadrinhos, possivelmente tomará gosto pela leitura.
Os quadrinhos estimulam a criatividade e hoje 89,8% dos tablóides têm quadrinhos em espaço prioritário. Isso significa que independente do fato de a criança comprar ou não pelo brinquedo, ela estará sendo incentivada a se informar e consequentemente aprender. A missão da Recreio é de “informar e formar crianças, trazendo matérias sobre bichos, passatempos, notícias da TV e do cinema, curiosidades, testes e histórias em quadrinhos”. O projeto experimental Mundo da Leitura também apresenta passatempos, como adivinhações, fazendo com que as crianças pesquisem as respostas; e caça-palavras, trabalhando entretenimento e informação.
Estes são apenas alguns exemplos, mas para que a brincadeira possa cumprir o seu papel de auxiliar na educação e na informação é preciso orientação pedagógica, o que não acontece em muitos casos. Em 2005, em entrevista para o site da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Adriana Barsotti, responsável por um dos mais antigos suplementos, o Globinho, destaca que o veículo não tem a intenção de ser pedagógico.
Subestimar é a palavra chave dentro das discussões relacionadas ao jornalismo feito para os pequenos. Outro ponto controverso é que não há assunto que não se possa explicar às crianças. O jornalismo pode ter um papel fundamental na preparação da “criançada” para entender as modificações que estão ocorrendo no mundo. Os jornalistas deverão ter coragem para ousar e experimentar novas formas de veicular informação que se mostrem mais atraentes para o público infantil.
A responsabilidade é grande, portanto é preciso reportagens que veiculem a realidade para o leitor mirim. Para Mariano, o jornalismo infantil pode ser subestimado sim, mas é preciso não generalizar. “O que ocorre é uma "tradução" dos fatos para a "linguagem" da criança”.
A primeira barreira está justamente na linguagem. A pesquisa “Esqueceram de Mim” inicia sua analise falando sobre esta dificuldade. “Escrever para crianças não é missão fácil. Não é satisfatório simplificar a linguagem, o discurso, apelar para diminutivos, abordar os assuntos de forma superficial. Redigir para elas em suplementos infantis publicados periodicamente é uma tarefa complexa, difícil de enfrentar sem cometer equívocos conceituais, de forma ou de linguagem. Além disso, com raras exceções, os cadernos infantis são tratados pela direção dos jornais como meros apêndices do departamento comercial”. Mas afinal, como escrever para uma criança?
A linguagem deve ser fática, com frases curtas, ordem direta, linguagem simples e, o principal desafio, sem os “inhos”. Fernanda lembra que “criança não gosta de ser chamada de criança. Não adianta colocar tudo no diminutivo achando que a compreensão será maior. Pelo contrário, pode trazer mais confusão. O interessante é abordar fatos que realmente possam atingir este público, destacando situações que fazem parte do dia-a-dia, sendo o mais simples possível. Para isso, é fundamental a determinação da faixa etária para qual se escreve”. Monteiro Lobato escrevia em linguagem difícil. Isto é sinal de respeito com a criança, que não quer justamente, ser subestimada.
É preciso escrever centenas de vezes e sintetizar a informação, sem deixá-la superficial. Diferente do uso do lead, que responde as questões fundamentais, o jornalismo infantil deve ir além do fato em si. É preciso contextualizar. Por muitas vezes essa comunicação não é efetuada por não se conseguir atrair a atenção dos pequenos leitores. Em muitos casos, o jornalista sente enorme dificuldade em colocar palavras, expressões e ordenar os pensamentos de forma simples e breve.
A repórter apontou um fator importante: saber para qual faixa etária se escreve. Este é um outro grande problema. Um total de 63,6% das edições monitoradas pela Andi deixa claro que se direcionam à leitores com idades de sete a 12 anos. Porém, apenas 57,5% delas se dirigem especificamente à criança e 34,7% não são claras quanto ao público: se falam aos filhos ou aos pais.
Segundo o jornalista José Reinaldo Marques, os suplementos infantis são considerados os caderninhos em comparação aos cadernos dedicados ao leitor adulto. Mas isso não quer dizer que sejam menos trabalhosos. Falar com este público exige muito do jornalista, já que eles estão formando o s leitores de amanhã.
Jorge Santos, editor de suplementos do Estado de Minas, entre os quais se inclui o caderno infantil Gurilândia, afirmou em entrevista para o site da ABI que concorda com o fato de que muitos suplementos para crianças deixam a desejar. “Acabam entrando no consumismo, no modismo puro e simples, sem a responsabilidade didática e pedagógica que, a meu ver, é primordial em qualquer veículo destinado à garotada”.
Diante destas informações é preciso questionar como fazer um jornalismo infantil de qualidade unindo entretenimento, que é primordial para o mundo infantil, educação e informação. Alberto Dines afirmou certa vez, que “toda criança que cresce lendo um jornal ou uma revista aprende a ter uma construção critica da realidade”. A receita está pronta, seja nas pesquisas, entrevistas, análises e troca de informação com profissionais que vivem o mundo da criança em cada produção. Basta colocar tudo na panela e ir mexendo até achar o ponto certo.