quarta-feira, 6 de maio de 2009

A foto


Durante uma das aulas sobre as convergências (e divergências) entre o texto jornalístico e o texto literário, propus que os acadêmicos do 7o. semestre treinassem uma redação criativa a partir de uma foto premiada (já postada anteriormente neste blog). Eles deveriam utilizar-se das informações captadas pela lente do repórter fotográfico (ganhador de prêmio internacional pela imagem) e escrever um texto que fugisse do modelo hegemônico de lead e pirâmide invertida. O exercício abaixo é da acadêmica Dayane Castro, uma das minhas apostas na profissão.

Uma foto

O dia nublado parece uma guerra entre céu e terra. Um rosto e 21 pernas identificam o paredão de homens, sem sombra, da Polícia Militar. No chão, onde pisam as pernas grossas munidas de joelheiras e coturnos pretos, foi deixado um rastro de outras pernas menores, sem joelheiras e coturnos, sem proteção. Essa terra tem a cor do ouro mais caro e da disputa mais injusta. Como espartanos, protegiam-se com a fraternidade de seus escudos e varriam o que houvesse por vir...uma mulher ameaçada pelo cacetete do único homem cujo rosto está amostra. É uma índia da Amazônia, do Brasil. Suas pernas estão quase descobertas por uma saia colorida, seus pés pisam o chão calçados por um chinelo de dedo. São homens e mulher. O que ela segura não é um escudo, mas lhe serveria como. O que ela segura, meu Deus, é uma criança! Ela está nua, vestida apenas por uma sandália, protege-se no colo estreito da mãe.
A foto.
Um jornalista premiado.

Um caso de amor

O texto abaixo, dos acadêmicos Ivan Ambrósio e Ronaldo Ruiz, aborda as convergências entre jornalismo e literatura, tema discutido recentemente nas aulas de Técnicas de Redação - Projetos e Produtos do 7o. semestre do curso de Jornalismo do Centro Universitário Toledo de Araçatuba. Acompanhem:

Livro-reportagem: Um caso de amor entre jornalismo e literatura

Não há limites para o jornalismo literário inserido em um livro-reportagem. As limitações da imprensa cotidiana como falta de tempo e espaço, efemeridade, preocupações com a factualidade e o texto formalista causado pela busca incessante da objetividade, ficam para trás neste estilo de se fazer jornalismo, onde as práticas jornalísticas de pesquisa, entrevista e apuração, se aliam aos recursos lingüísticos da literatura.
As empresas jornalísticas se assemelham cada vez mais ao perfil de uma empresa capitalista qualquer. Tudo é feito as pressas e em série. Não há espaço para enfeites ou um aprofundamento da notícia, o que caracteriza a grande reportagem, pois a pressão causada pelo dead line é grande e o leitor, geralmente também apressado, quer saber apenas quem, fez o quê, como, quando, onde e por quê. As matérias são cada vez mais curtas e os espaços publicitários cada vez maiores. A falta de tempo também é prejudicial à pesquisa e apuração. O número de fontes ouvidas é pequeno, se restringe a ouvir os dois lados, algo que pode confundir o leitor, e geralmente essas fontes são as de sempre, oficiais, deixando de lado profissionais e testemunhas, que poderiam dar uma visão mais ampla do fato.
Para superar todos estes impedimentos, jornalistas procuram refúgio em outro suporte: o livro-reportagem. Aqui o repórter se sente mais livre para entrevistar um sem número de fontes, analisar documentos, livros, objetos, entre outras coisas, sem se preocupar com o horário de fechamento, linha editorial e manual de redação do veículo.
Tom Wolfe, um dos principais representantes e teóricos do jornalismo literário, diz que a mídia impressa tradicional busca formas simples de expressão em matérias curtas. O jornalismo literário, a rigor, se baseia no real, porém sem abrir mão de recursos da literatura de ficção. Ao detalhar ambientes, o autor utiliza recursos lingüísticos da literatura para dar mais vida ao cenário, usando de sinestesias, comparações, que criam uma imagem mais viva na cabeça do leitor. Nos diálogos a linguagem dos personagens é preservada. São utilizadas gírias, dialetos, e até palavrões usados dos personagens. O narrador chega a ser figura onisciente e onipresente, sendo capaz até de expressar em palavras o que o personagem está sentindo, pensando e sonhando. Tudo isso é impossível de se pensar na imprensa cotidiana, sempre amarrada ao conservadorismo do lead e à pirâmide invertida.
O jornal é um produto efêmero. Sua vida é curta, talvez chegue a sobreviver até apenas o meio-dia, quando uma boa parte do que ali está escrito está velho, tornando o veículo descartável. O livro, porém, fica para a posteridade, por não apenas se manter ao fato, mas por contextualizá-lo, fazer uma leitura aprofundada dos fatores que o motivaram e as conseqüências dele no futuro. Como sempre faz questão de ressaltar Edvaldo Pereira Lima, o autor de “O que é livro-reportagem” e “Páginas Ampliadas”, o jornalismo diário se preocupa demais com a factualidade e se esquece do passado que vem à tona ou que desperta a curiosidade do leitor. Muito menos se incomoda em analisar o que o acontecimento poderá provocar ou fazer uma interpretação do que ocorreu. Ao aparecer um caso mais novo, rapidamente se esquece do ocorrido. O livro-reportagem faz o resgate histórico de acontecimentos, personalidades, contextualiza e os interpreta, nos brindando com uma leitura mais profunda do assunto, para deleite dos leitores mais curiosos, que não se satisfazem com apenas a objetividade.
A empresa jornalística talvez até não publique algo por não considerar que seja de interesse público, o que muitas vezes não é verdade, ou reportagem que vá contra os interesses financeiros e ideologias do veículo. Geralmente essas matérias “auto-censuradas” pelas empresas ganham espaço nas páginas de um livro. E a tão sonhada grande reportagem se realiza nas páginas de um livro.
Por toda essa liberdade, de linguagem, idéias, espaço, entre inúmeras outras, que cada vez mais as grandes reportagens deixam as páginas dos jornais e revistas e se transferem para os livros, onde elas ultrapassam limites estéticos e de aprofundamento. Vários títulos e autores, seduzidos por esta forma de reportagem, estão surgindo. O jornalismo literário é o futuro do jornalismo.