segunda-feira, 25 de maio de 2009

Obrigatoriedade do diploma de jornalismo: o que pensam os futuros jornalistas?


Lecionar para Jean Paulo Fronho de Sousa é sempre um desafio. Inteligente, com leituras fora do padrão para alguém de sua idade, perspicaz, e muito, muito crítico, ele sempre pontua as aulas do 5o. semestre do curso de Jornalismo do Centro Universitário Toledo de Araçatuba com comentários ora irônicos, ora sarcásticos, ora mordazes, mas sempre provocadores.
Provocar, aliás, é a sua especialidade. É o que ele faz agora no neste abaixo produzido durante as aulas de Técnicas de Redação (para textos opinativos) cujo tema era "a obrigatoriedade do diploma de jornalismo".
Fica aberto o desafio. Quem consegue argumentar contra as razões dele?
Comentem!


O clubinho e sua carteirinha indispensável

Jean Paulo Fronho de Sousa

No Brasil predomina uma mentalidade que acaba por impedir uma penetração e aprofundamento em qualquer tipo de organização ou atitude que se pretenda analisar. Movidos por um tipo de ação imediatista e que impede uma maior compreensão de tudo aquilo que se tenha a pretensão de realizar na sociedade, as pessoas, mesmo as que possuem um relativo grau de estudo e conhecimento, cometem erros que impedem o seu próprio desenvolvimento como membro de qualquer círculo de trabalho.

No caso do jornalismo não é diferente. Se perguntarmos a qualquer jornalista qual é sua função na sociedade, muitos deles poderão dar a resposta ensaiada que corresponde a “levar informação às pessoas”. Alguns ainda poderão acentuar o papel social que sua categoria representa e dizer que cabe a ela informar as pessoas de tudo o que acontece no mundo e dar à população a oportunidade de formar um senso crítico a partir de sua existência.

Porém, serão poucos aqueles que procurarão repensar o papel da mídia e como esta direciona a atuação dos meios de comunicação. Será uma minoria também, aquela que suspeitará do que o jornalismo define por “informação” e se a simples transmissão do que eles definem dessa maneira, é capaz de formar nas pessoas um senso crítico. Em uma espécie de tentativa de fechar os olhos a qualquer tipo de possibilidade de aprofundamento, alegarão eles que isso cabe a filósofos, sociólogos e economistas, pois jamais pensarão na hipótese de haver uma acompanhamento das Ciências Humanas à prática jornalística.

Esse tipo de crítica e observação cabe para mostrar como os cursos de graduação em jornalismo são incapazes de formar em seus alunos uma mentalidade que possibilite-os, não só entender sua prática profissional, mas também promover uma reciclagem periódica de ideias no meio. O que acontece é que acabou se criando uma noção de jornalismo paralela à ideal, e com isso muitos jornalistas seguem-na ao invés de procurarem promover uma evolução na linha iniciada e considerada certa, alinhando a prática jornalística à realidade social com o intuito de se manter a qualidade.

Não seria prudente, entretanto, atribuir somente aos profissionais da área essa culpa. O regime industrial e a conseqüente produção em série, transformou a notícia em uma mercadoria. Tal forma de produção exige uma técnica, que, além de possibilitar um ganho de tempo por parte dos jornalistas (o que nas redações é muito valioso), atende às respostas das pesquisas de mercado que visam descobrir qual formato de texto irá agradar.

Mas e a ideia de levar a informação, onde fica? Os defensores da máquina jornalística hão de dizer que a técnica promove uma sublimação dos fatos importantes e possibilita um melhor encaixe no sistema receptor do consumidor. Ainda dirão que o jornalismo não deixa de informar por causa disso e tudo o que as pessoas devam saber, estará presente nos jornais.

Imagina-se, então, que exista um Deus do conhecimento presente nas reuniões de pauta, capaz de apontar tudo aquilo que os mortais deverão saber ou discutir. E todos aqueles que possuem diploma saberão entender a linguagem do seu Deus, afinal, o que eles mais aprenderam em seus cursos foi decifrar a linguagem existente na cartilha do seu ser soberano, que adora informar a todos.

Relacionar a obrigatoriedade do diploma ao fato de haver uma mentalidade paralela crescente a ideia central do jornalismo é prudente a partir do ponto em que se afirma que o diplomado no curso em questão é capaz de exercer a profissão de jornalista. Um grupo de pessoas que não é capaz nem de saber que papel ocupa e como pode desdobrar sua função perante a sociedade em que vive, acaba exigindo uma “carterinha do clube dos alienados” e ao mesmo tempo excluiu não só a liberdade mas a possibilidade de se levar a informação da forma mais plena possível.

Não existe aqui uma defesa ao jornalismo romântico, tal qual se via no início do século passado. A principal oposição aqui é à “carteirinha do clube dos alienados”. Quantos estudantes de jornalismo, mesmo os que criticam o excesso da prática em confronto com a teoria, sabem da importância de não só fazer um estágio, mas também, colocar-se na posição de confronto entre o ideal e o real, entre o teórico e prático? Isso é formar uma consciência de sua profissão e não se vê uma preocupação com esse aspecto nas faculdades de jornalismo.

Afirmar que se paga por algo que não se pode ter, é honestamente, uma maneira de comprar uma posse, comprar a “carterinha do clube” e ter acesso a todos os direitos que ela proporciona. Fazendo menção à opinião da OEA, liberdade não se compra e é direito de todos. Só podemos falar em uma organização mais séria e conceituada, a partir do momento em que a liberdade for um dos aspectos que condicione a produção e transmissão de informação a uma população cada vez maior e diversa, o que exigiria uma reformulação do que se vê nos cursos de jornalismo.

Como o “clubinho” quer cobrar liberdade se ao mesmo tempo exige uma obediência a normas que se relacionam à própria mentalidade dos receptores? Isso nos faz concluir que existe uma restrição da produção e conseqüente propagação da notícia, obedecendo a uma ótica unilateral, que, ao invés de informar, só faz desinformar a população. É para fazer isso que estão exigindo diploma.

Somente quando houver uma preocupação de se criar uma classe preocupada com a transmissão da informação, levando em conta a responsabilidade e o enorme percentual de liberdade que deverá dar andamento a isso, é que se poderá exigir uma obrigatoriedade para exercer tal papel. Caso contrário, é até interessante que tenhamos marginais de outras áreas tentando “pular o muro do clubinho” e derrubar tudo aquilo que está em voga dentro dele.

Ainda há de surgir mais que um clube, mas sim, um espaço capaz de direcionar adequados debates elevados que, mesmo tratando o jornalismo como mercadoria, vislumbrem-na como uma mercadoria de alto porte nessa era moderna e fragmentada. Quando chegarmos a esse estágio, talvez o diploma seja um mero detalhe para um grupo de pessoas que terá seu papel não porque o conseguiu por compra ou sacrifício, mas, sim, porque corresponde àquilo que sabe fazer e tem vocação.