sexta-feira, 29 de maio de 2009

Tem uma prostituta na minha janela


Ela aparece todos os dias, de domingo a domingo. Chega cedo, com o sol, e vai embora junto com ele. Ajeita-se em um dos bancos da praça a esperar. Algo, aliás, que nem faz muito. Logo chega um pai que já deixou o filho na escola, um funcionário adiantado para o serviço, um aposentado que não consegue dormir mais pela manhã e mesmo um jovem, que não voltou ainda pra casa depois da balada.
Na primeira vez que notei sua presença, pensei, ingenuamente, que esperasse pelo namorado. Alguns casais faziam isto antes dela se instalar. Mas o namorado dela não veio, embora muitos homens já a tenham levado e trazido.
Eles são muitos, de todos os tipos. Tem o dono do Astra prateado, brilhante de tão limpo. O homem não é novo, mas impõe respeito pela roupa social e o gel no cabelo nas primeiras horas da manhã. O motorista do Uno esverdeado tem a feição mais dura e prefere a discrição, deixa-a um pouco distante da praça, como se não pudesse assumir suas ações. O moço da Saveiro de capota marítima também. Alguns só poderiam tê-la pagando, mas outros...Todos, por fim, desfilam pela minha janela, que fica na frente da praça.
No começo, tive uma crise de moralidade e pensei em ficar indignada. Depois, veio a preocupação real: a prostituição é um problema de saúde pública. É só fazer uns cálculos. Nos dias de pouco movimento, ela tem uma meia dúzia de clientes. Mas há outros que ela não chega a se sentar no banco. Desce de um carro e, de uma ponta a outra na praça, encontra outro “cliente”.
Que seja: Seis relações por dia sem camisinha - "porque os clientes não gostam" - significam pelo menos 12 possibilidades de pessoas infectadas com as mais variadas doenças sexualmente transmissíveis (entre elas a aids) ao final do período, os “clientes” e suas parceiras. Doze pessoas infectadas nos 7 dias da semana são 84 pessoas com probabilidade de precisar de tratamentos e internações. Oitenta e quatro pessoas por semana são 336 pessoas ao mês e, multiplicando este total pelo número de meses do ano, temos o volume assustador de 4.032 possíveis doentes, tudo isto causado apenas pela prostituta da minha janela. Será que ela se importa? Será que alguém se importa? Olhando para a prostituta da minha janela e seus “clientes” só consigo pensar que não há sistema de saúde que sobreviva!
Então imagino as esposas, noivas e namoradas desses “clientes” da prostituta da minha janela. Se elas não se prevenirem com o preservativo feminino ou exigindo o uso da camisinha por parte dos seus parceiros, vão sofrer e morrer porque confiaram no seu amor. Tempos difíceis esses que estamos vivendo, não?
Gostaria de abrir minha janela amanhã e não ver mais a prostituta. É muito difícil ser testemunha da degradação humana.


Publicado na Folha da Região de Araçatuba - 29/05/2009