terça-feira, 16 de junho de 2009

O caso Maísa, a TV e a internet: Mídia e espetacularização: uma proposta

Esta colaboração é do acadêmico Diuân Feltrin, do 5o. semestre de Jornalismo no UniToledo e estagiário no Sesc de Birigui/SP. Vale a pena ler e pensar sobre o papel da mídia no desenvolvimento das crianças


Confira entrevista realizada pela FOLHA DE S. PAULO com Ivana Bentes sobre a ridicularização de crianças pela mídia com o intuito de angariar audiência fácil. Confesso que sou um grande admirador do comunicador Silvio Santos. Cresci assistindo aos programas do SBT e até hoje prefiro esta emissora à Rede Globo de Televisão. No entanto, concordo plenamente com tudo o que está dito na entrevista abaixo sobre a humilhação imposta à criança Maisa. Garota cuja infância está sendo esquecida, roubada... tudo em virtude do Ibope fácil, o sustento das grandes redes de TV.

NA CASA DO PATRÃO

APRESENTADORA QUE ALAVANCA A AUDIÊNCIA DO PROGRAMA DE SILVIO SANTOS AO FUNDIR ESPONTANEIDADE E HUMILHAÇÃO, A MENINA MAISA REVELA A DUPLA FACE DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA




CYRUS AFSHAR
DA REDAÇÃO da Folha de S.Paulo


Ela acaba de completar sete anos, mas já tem mais de três anos de experiência profissional, e seu trabalho já é conhecido em todo o país.
Maisa comanda um programa no SBT e, aos domingos, é protagonista de um quadro em que conversa longamente com ninguém menos que seu patrão, Silvio Santos, e ajuda a alavancar a audiência do restante da programação. Mas, nas duas últimas semanas, o quadro dominical foi palco de cenas ao vivo de gritos e choros da criança.
"A questão é saber quando acaba o lúdico e o adorável e começa a perversão e a monstruosidade dessa situação-mídia", provoca Ivana Bentes, professora do programa de pós-graduação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Na entrevista concedida à Folha, por e-mail, Bentes explica alguns dos mecanismos de funcionamento da apropriação da imagem de novas celebridades, o comportamento do público e a importância da internet para o processo de espetacularização.

PERGUNTA - O que está acontecendo com a menina Maisa é um caso de exploração midiática?
IVANA BENTES - "Exploração midiática" é quase uma redundância. A expropriação/apropriação é base de funcionamento do próprio regime midiático em que nós, telespectadores, somos a matéria-prima em diferentes sentidos. Na busca de criar fatos midiáticos incessantemente, capturar nossa atenção e comprar nosso tempo, a televisão convoca, explora e mobiliza nossos afetos, nossa atenção.
O espectador é o primeiro "explorado" pela publicidade, pela ficção, pelas "atrações". Somos nós que emprestamos nosso tempo, nossa subjetividade e nosso imaginário para criar valor na TV. Ou seja, o que a mídia vende/explora não é a publicidade -somos nós mesmos. E, para isso, precisa minimamente que essa audiência se conecte, se deixe afetar por um personagem, uma situação, que crie hábitos e possa voltar -criando um sentimento de pertencimento a uma "comunidade imaginada". Aí se chega a Maisa, a menina-prodígio do SBT, a "menina-monstro" como definiu ironicamente, mas com precisão, o "Pânico na TV". A garota é realmente adorável e "monstruosa" ao mesmo tempo. Tem a dupla face da mídia atual, que incorpora e utiliza o mais "espontâneo", o íntimo, a gafe, o erro, o choro e todo tipo de assujeitamento e humilhação como matéria altamente valorizada. Isso sem abandonar a celebração do visível, da formalidade e da encenação. Não é à toa que os vídeos de Maisa estão no YouTube anunciem "pérolas de Maisa", gafes de Maisa, micos de Maisa, choro de Maisa, tropeços etc.. A questão é saber onde acaba o lúdico e o adorável e começa a perversão e a monstruosidade dessa situação-mídia. Não se trata de julgar nem de moralizar "este" caso, num momento em que o valor de "exposição" da vida, da intimidade, da subjetividade na TV, na internet ou em qualquer outra mídia é um valor em si. A visibilidade é um bem altamente valorizado e disputado -"naturalizado". É preciso justamente desnaturalizar esse novo regime midiático que não para de testar os limites do tolerável e do aceitável.

PERGUNTA - Nesse contexto (de exploração midiática), qual é o papel da mãe? E o do apresentador?
BENTES - Não é difícil entender o seu nível de satisfação/excitação do pai e da mãe da menina (satisfação simbólica e real, com sua galinha dos ovos de ouro mirim). E o apresentador/dono da emissora cumpre o mesmo papel de outros homens de negócio de TVs abertas que vendem "produtos" tão ou mais discutíveis e monstruosos: homofobia, intolerância religiosa, espetáculos de descarrego e expulsão de demônios dos corpos, preconceito racial, condenações morais, denuncismo, criminalização da pobreza e dos pobres e toda uma pauta conservadora e moralista. A questão que importa é saber qual o papel da "comunidade" de telespectadores e da sociedade diante desse quadro.


PERGUNTA - Como tem sido e como deveria ser o tratamento dado pela mídia neste caso?
BENTES - A televisão não tem programa de debate e de discussão do seu próprio conteúdo. A TV não dá direito de resposta, o que é escandaloso. Confunde audiência com legitimidade social e qualidade. Daí que não vi na mídia (com raras exceções, como a coluna de Bia Abramo do dia 17/5, na Folha) nenhuma discussão sobre os limites e constrangimentos de colocar uma criança de seis anos no horário nobre de domingo falando de "pum", gases, bunda, meleca.E, ao mesmo tempo, tendo que responder sobre assuntos extremamente complexos, como outras celebridades televisivas, profissões, afetos, casamento, Deus e infidelidade. E sempre constrangida por Silvio Santos até o limite do embaraço, do choro ou da mudez com reprimendas, ameaças, provocações.

PERGUNTA - Pessoas antes quase desconhecidas são alçadas rapidamente à condição de celebridades por conta dos milhões de acessos, casos da escocesa Susan Boyle, de Cris Nicolotti e de Maisa. Qual a importância hoje da internet no processo de criação das celebridades?
BENTES - "Celebridade" talvez seja um nome antigo (coisa do século passado, de mídias "modernas", como cinema e TV) para descrever os processos da visibilidade contemporânea. A internet e o YouTube criaram um novo público, pós-televisivo, um consumidor-produtor superativo, que clica tudo e que vê tudo -sem dúvida é uma nova força. O YouTube é genial porque é o esgoto público das imagens, onde é possível experimentar o que há de mais potente e monstruoso (no sentido positivo e negativo dos excessos e das exceções) na multidão de usuários, sem mediação. Sem o "patrão", como Silvio Santos se apresenta para a menina Maisa no SBT, num dos quadros.

PERGUNTA - Quando procuramos vídeos da artista mirim no YouTube, o site remete a entradas como "Maisa chorando", "Maisa chora" e "Maisa peidando", a partir das buscas mais realizadas. Os fãs sentem prazer em ver celebridades em situações constrangedoras?
BENTES - Trata-se de um fenômeno bem mais amplo e disseminado de midiatizacão, comercialização da intimidade e da "visibilidade". A partir do momento em que ruiu a barreira entre intimidade e publicidade, em que se esgarçou o limite entre público e privado, o que poderia ser constrangedor? Maisa chorando, Daniela Ciccarelli transando na praia, a cabeça de Saddam Hussein rolando, os exames de saúde da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, em jornais assistidos por milhares de pessoas? Exibir a intimidade vem deixando de ser um constrangimento para se tornar um "valor".. A intimidade na era da sua visibilidade máxima e as tecnologias de exibição de si são uma característica geral e uma exigência do capitalismo contemporâneo.

PERGUNTA - O caso da construção da ex-atriz Shirley Temple é paradigmático para entender a situação atual deste caso?
BENTES - Bem, o visual da apresentadora mirim do SBT parece inspirado nos vestidinhos de babados e cabelos cacheados da mais famosa menina-prodígio de Hollywood. Mas é preciso lembrar que Shirley Temple é um produto da máquina fordista hollywoodiana, dos anos 1930 e 1940, de um capitalismo disciplinar e disciplinador em que a ideia de "infância" e "criança" ainda estava bem delimitada e definida.
Hoje, quando foram desenvolvidos produtos midiáticos para crianças de zero a um ano -como os Teletubbies, que aceleram os processos cognitivos enquanto ensinam a criança a desejar e a consumir-, a comparação com Shirley Temple talvez não seja apropriada. Pois o capitalismo contemporâneo tem necessidade de incluir e modular todos, desde o ano zero e mesmo antes do nascimento. O aprendizado se faz pela mídia -com o fim dos tempos "mortos" da infância, de ócio e lazer, em nome de uma hiperprodutividade infantil- e por adestramento precoce, cujo modelo visível Maisa encarna. O assustador é que a subjetividade-Maisa é o modelo de criança e de infância em via de se universalizar. São muitos os indícios: o assédio e crescimento da publicidade infantil, sem controle no Brasil; a invasão de bichinhos e desenhos animados em anúncios de cerveja, carros, criando uma sensibilidade precoce e formando consumidores futuros, a erotização do universo infantil dissociada, mais tarde, do abuso sexual por adultos e da violência contra crianças. Enfim, a garota-prodígio do SBT aponta para antigas questões e novos limites, em torno da intimidade, da visibilidade, da infância. Nesse sentido é uma menina-modelo, exemplar de uma série de transformações.


CRÍTICA PERSUASIVA

O CLONE BIZARRO
INSPIRADA EM SHIRLEY TEMPLE, A ESTRELA MIRIM DA HOLLYWOOD DOS ANOS 1930, APRESENTADORA MAISA PARECE NÃO ENTERNECER SEU PATRÃO MIDIÁTICO


SÉRGIO ALPENDRE
ESPECIAL PARA A FOLHA


Um dia, o comunicador Silvio Santos colocou fotos da princesinha Shirley Temple no camarim de Maisa e reforçou uma semelhança que poucos notariam, sem os cachinhos e os vestidos alegres impostos à menina.
Maisa não é tão parecida fisicamente com Shirley Temple. O programa Silvio Santos não tem nada a ver com as sofisticadas produções hollywoodianas da década de 1930. Assim como 2009 está muito distante de 1934, ano em que Temple despontou para o estrelato.
Tudo isso é bem óbvio.. Neste caso, por que o experiente e astuto apresentador tentaria evocar, com sucesso, a representação da prodigiosa garota californiana se não fosse por uma tacanha exploração do espírito infantil? O que interessa é a tentativa de retomar o que já havia dado certo em outros tempos.
Silvio Santos se apropria de um ícone infantil para saciar o desejo do público por algo diferente, sem se preocupar com os efeitos dessa apropriação na personalidade e no desenvolvimento de Maisa. O que importa é o faturamento, o barulho que as travessuras da menina causam na mídia, suas aparições no [programa de TV] CQC e outros medidores do baixo nível da televisão brasileira. Contudo, a assimilação proposta por Silvio Santos não vai tão longe quanto o esperado: como Maisa, Shirley Temple tinha o rostinho de anjo, que tornava cada atitude de adulta ainda mais surpreendente.
Sua esperteza e charme incomuns eram destacados em cena, e sua fragilidade era escancarada em momentos estratégicos, para lembrar que era uma criança que estava à nossa frente.
Porém, Maisa tem a direção espalhafatosa de seu companheiro de palco, Silvio Santos, enquanto Shirley Temple, apesar de ter feito vários filmes com cineastas de araque, foi dirigida, ainda criança, por artesãos talentosos.

O rígido John Ford
Foi gente como Henry Hathaway ("Agora e Sempre", de 1934), David Butler ("Olhos Encantados", de 1934; "A Mascote do Regimento" e "A Pequena Rebelde", ambos de 1935; "O Anjo do Farol", de 1936), William Seiter ("Princesinha das Ruas", de 1936) e Irving Cummings (A "Pequena Órfã", de 1935; "Miss Broadway", de 1938), além de mestres como Allan Dwan (em "Heidi", de 1937; "Sonho de Moça", de 1938; "Mocidade", de 1940) e, principalmente, John Ford, um daqueles artistas que transcendem os limites da arte com um domínio sem igual da linguagem ("A Queridinha do Vovô", de 1937).
Suas lembranças do trabalho com Ford são curiosas e instrutivas. Em sua autobiografia ["Child Star", Criança Estrela], ela se queixou de que o diretor, num primeiro momento, não pusesse fé no poder de atuação da pequena atriz e lhe desse instruções detalhadas.
Enquanto para todos os outros [integrantes] do elenco apenas indicava um caminho, deixando que seguissem e acrescentassem sutilezas à atuação.
Mais adiante, percebendo a inteligência e o profissionalismo da garotinha, baixou a guarda e se enterneceu como um espectador comum diante de uma estrela.
O mesmo aconteceu com o ator Victor McLaglen, que inicialmente hostilizava a menina, para depois ser conquistado por sua doçura e carisma. Anos depois, Temple destacou que "A Queridinha do Vovô" foi o melhor filme de sua carreira.
A atriz que teve boa parte de sua infância perdida para o cinema elege justamente o filme que não a trata como uma estrela, mas que foi construído em torno das possibilidades da história.
Era a narrativa a principal atração [baseada numa história do escritor Rudyard Kipling, narra as aventuras de uma menina na Índia, onde o avô é oficial do Exército britânico]. Reveladora escolha de uma atriz acostumada a ser o centro das atenções nos filmes, em detrimento de qualquer outro aspecto cinematográfico. Se existia exploração na década de 1930 (e fica claro que havia), o que ocorre em 2009 se aproxima da crueldade pura e simples. E as diferenças de intenções e contextos são gritantes. Shirley Temple era capaz de interpretar uma criança mimada, mas havia espaço para que ela demonstrasse charme e inteligência.

Sem inocência
Conquistava todos ao seu redor e arrebatava os espectadores pelo coração. Maisa encanta pelas travessuras e pelos diversos momentos em que aparece em cena como "criança fazendo coisas de adulto". No programa não parece existir brechas para que ela seja mostrada como algo mais do que um clone bizarro.
Sua personalidade irrequieta é cutucada o tempo todo, mas existe sobretudo um esvaziamento de conteúdo e inocência, como se da criança só pudessem ser vistas a fragilidade e a inconstância, suscetíveis às manipulações e moldagens do adulto.
E o futuro de Maisa, como será? Que caminhos terá sua carreira sob as asas de um tutor que pode ser o maioral da comunicação, mas que pelo visto não tem condições de pensar no melhor para a garotinha?
E ela, que parece tão esperta, tão viva, teria condições de impor limites às doses cavalares de vulgaridade e manipulação a que é submetida? Assim como Shirley Temple conquistou o coração do rígido John Ford, teria Maisa condições de despertar sentimentos na pedra que o patrão parece ser?

SÉRGIO ALPENDRE é crítico da revista de cinema "Contracampo". FOLHA DE S. PAULO 24/05

Importante destacar que após os fatos tratados acima, a Justiça determinou que o quadro do programa de Sílvio Santos "conversando" com Maísa fosse retirado do ar, decisão que permanece até hoje.