segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Jornalismo do bem X jornalismo do mal

Postei há alguns dias, aqui neste espaço, um texto intitulado Jornalismo e Cidadania. Ele é um resumo da minha introdução do mestrado e havia sido publicado primeiramente pela Folha da Região de Araçatuba. Soube hoje, através de um e-mail do colega, Alexandre Ribeiro, o Carioca, que o Jornal de Jales também reproduziu o artigo.
O texto que reproduzo abaixo, com autorização, é do Carioca, radialista por vocação, jornalista por profissão. Há anos da imprensa regional, ele está indignado com o que chamou de "jornalismo do mal" e expoe bem do que se trata nas linhas a seguir.
Todos os estudantes de Jornalismo, mas especialmente quem milita na profissão precisa refletir sobre o que ele, corajosamente, expõe. Vejamos:


Oi Ayne. Parabéns pelo seu artigo de hoje no JJ. Seu pensamento é compartilhado por muita gente. Até tempos bem recentes (antes do Lula), a imprensa tinha uma enorme credibilidade diante da população, mas agora parece que alguns governos fazem questão de desmoralizá-la, principalmente aquela que mostra suas mazelas, com o objetivo de desqualificar suas críticas.

Sabemos todos nós que imprensa totalmente imparcial não existe, afinal, fazer reportagem, significa reportar o que vemos, repassar para outras pessoas a informação que obtivemos, portanto, repercutir a impressão que temos de um fato para outros que não o conhecem. Inevitável que a reportagem carregue a nossa interpretação particular. Isso é totalmente legítimo. Desde que honesto, sem segundas intenções ou objetivos escusos.
Até dispensável dizer isso a uma professora de jornalismo como você. Mas preciso dizer que como profissional que forma novos profissionais desta área, acho que você acaba se tornando uma espécie de representante da classe, portanto, sua palavra tem peso importante aqui fora. Então, acredito que ao mesmo tempo em que prega o “Jornalismo do Bem”, deveria combater frontalmente o que qualquer um chamaria de “Jornalismo do Mal”, que prejudica a sociedade, o trabalho dos colegas e denigre a profissão.
Não é uma crítica que faço aqui, mas apenas uma recomendação de quem tem testemunhado a farsa com a qual alguns colegas conduzem a notícia. Gostaria de vê-la mais incisiva contra essa prática porque sei que a sua orientação será seguida por colegas já formados e por outros em formação.

Explico o que seria o tal “Jornalismo do Mal”. É básico, o vemos todos os dias em todos os lugares e em quase todos os veículos.

É quando uma determinada instância de poder, público ou econômico (às vezes ambos), subverte os veículos para impor a sua “verdade” através de meios torpes. Mas é, principalmente, a forma inversa de subversão de valores. Ou seja, quando um veículo se sujeita a este tipo de prática, usando seu alcance para influenciar a vida de seus leitores, espectadores ou ouvintes. Não por acreditar no que publica, mas por acreditar que o que publica lhe renderá dividendos futuros. Ou ainda quando deixa de noticiar determinado fato por considerar que poderá perder dividendos.
O resultado são as frequentes intervenções dos departamentos comerciais nas redações e as constantes ameaças aos repórteres e editores. Muitas vezes, quem tem influência externa em determinado veículo avalia que os outros também estão ao alcance de seu poder. Não são eles os culpados, mas os mal-profissionais praticantes do “Jornalismo do Mal” que autorizam os detentores dos poderes a comparar TODOS os veículos com o mais baixo dos chantagistas. Ao conhecer um jornalista ou empresário chantagista, se acham no direito de estender esse conceito a todos os demais. Ou pelo menos tentar.
O “Jornalismo do Mal” deixa de cumprir a principal função do jornalismo em uma sociedade civilizada: a de informar a população. Parece óbvio, mas não é. Quando deixam de cumprir essa função com lisura, deixam de ser jornalistas para serem comerciantes da informação. Por interesses particulares, os “jornalistas do mal” omitem informações valiosas ou distorcem outras que poderiam ajudar a mudar a vida da população, seja em atitudes, votos, opiniões ou mesmo em conhecimento que lhes foi sonegado.
Não podemos, DE FORMA ALGUMA, classificar como “Jornalismo do Bem”, os veículos que se prostituem em troca de contratos com o poder público ou privado, omitindo ou distorcendo informações, ao bel prazer do contratante.
Onde está o bem feito por um veículo que só noticia a troca de um secretário municipal para elogiar a posse do substituto? Onde está o bem feito por um veículo que, de uma hora para outra, resolve “comprar” o projeto de determinada vereadora só porque tem interesses sexuais sobre ela? Onde está o bem feito pelo veículo que ignora por meses a fio as decisões tomadas pela Câmara dos vereadores, apenas porque eles não quiseram anunciar nas suas tradicionais mensagens natalinas? Onde está o bem feito pelo veículo que promove intensa campanha contra o comandante da polícia, culpando-o pela baderna e os congestionamentos em frente à sua sede e ignora a mesma baderna e os mesmos congestionamentos quando ela finalmente se muda para outro local? Onde está o bem feito pelo veículo que defende ou ataca o vereador conforme o contrato de publicidade que a empresa dele assina (assinou ele fala bem. Não assinou ele fala mal)? Onde está o bem feito pelo veículo que ataca a polícia em favor de acusados por crimes graves como sonegação fiscal, formação de quadrilha, contrabando e descaminho, somente porque são seus anunciantes? Onde está o bem feito por um veículo que prega a proibição de carros de som por medo da concorrência, mas omite que seus clientes emporcalham a cidade com os panfletos impressos na sua gráfica? Onde está o bem feito pelo veículo que ignora solenemente os sete processos movidos contra seu prefeito, somente porque detém um contrato de publicidade com a Prefeitura? Onde está o bem feito pelo veículo que ignora os claros indícios de desvios de centenas de milhares de reais do dinheiro público simplesmente porque um dos principais envolvidos é seu parceiro em promoções publicitárias e seu anunciante? Onde está aí o tal "Jornalismo do Bem"? Não seria a hora de um exame de consciência sobre o que é comércio da informação e comércio da opinião? Qual o legado queremos deixar? O de idealista que sonha com um futuro melhor para todos (mais adequado aos jornalistas), o de influenciador das massas (mais adequado aos políticos populistas) ou o de negociante do undergound (mais adequado aos lobistas corruptos)?
O que bastaria para classificar o “Jornalismo do bem”? Manter uma ONG, noticiar festas beneficentes, promover campanhas radiofônicas para ajudar pessoas carentes, distribuir bicicletas no Natal, plantar árvores nas avenidas, pertencer a um Clube de Serviço ou a uma entidade assistencial?
Nada disso adianta coisíssima alguma, se nas páginas do seu jornal ou nos programas de sua rádio ou TV, o jornalista engana o povo, omitindo ou distorcendo informações conforme o balanço de sua conta bancária!
Se seus anunciantes são a favor da lei antifumo ele também é, se seus anunciantes são a favor da meia-entrada para o a festa do peão, ele também é, se a empresa de ônibus deixa de anunciar, ele passa a pregar a sua substituição e assim por diante. Esse é o “jornalismo do Mal”, que engana seu público, prejudica seus colegas equiparando-os a jornais de aluguel, reduz a qualidade de sua classe profissional e banaliza o elogio fácil, desqualificando a crítica idônea.
O fato de termos entre os colegas ocupantes de cargos de confiança do prefeito, proprietários de agências de publicidade contratadas pela Prefeitura, presidente da Câmara e do Partido de apoio ao Prefeito já nos coloca (a classe) em situação extremamente desconfortável e os coloca em situação totalmente suspeita. O povo cobra nas ruas a idoneidade da classe e a postura destes colegas, perfeitos exemplares do “Jornalismo do Mal”, só traz descrédito à profissão e joga no mesmo “saco de gatos” os profissionais idôneos e os à venda.
Acredito que "Jornalismo do Bem" não é um conceito incompleto aplicado a quem tem apenas alguma atividade social, mas a quem tem isso e também cumpre com todos os seus deveres profisisonais perante a sociedade. Esse deveria ser o primeiro requisito. Não se espera que o jornalismo mude o mundo. Do jornalismo, espera-se que ele seja honesto e que cumpra com a sua função primordial: informar, garantir o direito à informação correta, idônea, límpa e honesta. Sem isso, de nada adianta o resto. Nem mesmo as inúmeras atividades sociais, que ficam parecendo um sacrifício pessoal para remissão de pecados.
Até tolero que determinados veículos façam esse tipo de coisa, afinal, cabe também ao leitor, ouvinte e telespectador discernir sobre o que é notícia pura e simples e opinião ou “direcionamento”. Mas não tolero que essa prática seja vendida como a mais pura verdade e que os jornalistas que a praticam posem de imparciais ou donos da verdade. Compra sua mensagem quem quer. Mas o que se vende é a notícia, não a opinião e quem vende a opinião não pode ser classificado como “Jornalismo do Bem”, ainda que tenha outros requisitos para tal.

A gente não quer só comida!

Resultado da enquete que perguntou sobre o que os seguidores deste blog gostariam de ver mais nas páginas dos jornais diários: Arte e Cultura. Foram 40% dos votos totais. Os demais votos ficaram para Turismo e (20%), Lazer e Entretenimento (20%) e matérias destinadas ao público masculino (20%). Obrigada aos eleitores! Preparem-se para novas indagações.