segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Na África, jornais ainda reinam

Caríssimos,

Eis-me aqui novamente. Agora, com a ajuda da Simone Dias, ex-aluna, atual companheira de pós, colega de trabalho. Ela enviou esta colaboração. Concordo com a Simone de que será interessante dividir este assunto com todos vocês. Grande abraço!


Um artigo muito interessante chegou às minhas mãos por indicação da amiga Ana Estela, que muitos devem conhecer em razão de seu blog, o Novo em Folha, (http://novoemfolha.folha.blog.uol.com.br) meu vizinho aqui na Folha Online.

Interessante e improvável à primeira vista. É sobre um mercado que sofre no resto do planeta, mas que ainda demonstra vitalidade na África: o de jornais impressos.

Por todo o mundo, e no Brasil não é diferente, o anúncio da morte iminente dos jornais é feito quase diariamente. De alguma forma, a mídia impressa sobrevive, mas tem dificuldades para estancar a queda de circulação. Expandi-la, então, é algo quase do outro mundo.

O artigo está no site da “Columbia Journalism Review”, especializado em mídia e afiliado a uma das mais prestigiadas instituições de ensino de jornalismo, a Universidade de Columbia, em Nova York (EUA).

O link é esse (em inglês): http://www.cjr.org/feature/a_passion_for_print.php

A autora, Karen Rothmyer, trata especificamente do Quênia, mas algumas das suas considerações me pareceram válidas para vários dos países africanos que já visitei. “Num período em que jornais estão morrendo como moscas nos EUA, o Quênia, um dos países mais pobres do mundo, tem 40 milhões de pessoas com uma aparentemente insaciável paixão pela mídia impressa”, diz ela.

Seu relato é o de novos jornais surgindo, tiragens em alta e do respeito que comandam por lá. Um jornaleiro empreendedor (daqueles tipos que parecem só aparecer na África) aluga jornais por meia hora, para quem não tem dinheiro para comprar um exemplar novo. Política move o noticiário, e pessoas vêem na página impressa certezas que não conseguem ter numa transmissão pelo outro veículo extremamente popular no continente, o rádio.

“Book no lies”, diz uma senhora, em inglês capenga, mostrando a credibilidade que a palavra no papel mantém. Do outro lado do continente, Ellen Johnson-Sirleaf, presidente da Libéria, conta uma história parecida em sua autobiografia. “Ma knows book” (“ela conhece livros”), diziam eleitores ao explicar porque votariam nela, em referência a seu extenso currículo acadêmico. Um fenômeno que une as duas pontas do continente, portanto.

A imprensa escrita na África impressiona ainda mais pela vitalidade porque desafia duas realidades: a da baixa escolaridade e a dos regimes autoritários (e que portanto não gostam de imprensa).

O padrão é muito parecido: um jornalão oficial, em cores e razoavelmente bem-feito, ligado ao governo, e uma infinidade de pequenos jornais independentes, geralmente semanais, e que incomodam.

Em Angola, por exemplo, os semanais são um fenômeno (nem todos são independentes, é verdade, pois muitos servem como vozes de políticos de oposição). Em Moçambique, começa a acontecer o mesmo. No Zimbábue, ainda são uma voz dissonante do diário oficial do regime do ditador Robert Mugabe, o “Herald”. E na África do Sul, há jornais para todos os gostos: desde o “Beeld”, para a comunidade africâner, até o “Sowetan”, para a nova classe média negra.

Não sou especialista nem tenho dados estatísticos, mas imagino que ajude muito o fato de a internet na África ser movida a lenha. Não há jornalismo online digno de nome, ainda, por lá. E a TV, por ser cara, costuma ser brinquedo do Estado: monótona, oficialesca, sem ser incomodada pela concorrência.

Restam os jornais e suas fotos chamativas e longas reportagens de política, futebol e crimes. Como diz a autora do texto, jornalistas podemos nos consolar com o fato de que em algum lugar do mundo, pelo menos por enquanto, os jornais continuam reinando.

Escrito por Fábio Zanini às 21h58

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