segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Jornalismo Econômico

Estou disponibilizando resumo de um seminário sobre Jornalismo Econômico apresentado por um grupo de alunos do 8o. semestre dentro da disciplina Jornalismo Especializado. Espero que seja útil:


Jornalismo Econômico


Introdução
Quando se fala em jornalismo econômico, a primeira ideia que nos vem à cabeça é que nele se trata de um conteúdo restrito e de difícil compreensão, ou seja, que não está ao alcance do grande público.
A função do jornalista é justamente tornar a linguagem da economia mais clara e compreensível para a maioria das pessoas. Consultando diversos entrevistados e estando apto a interpretar todas as informações que encontra, o jornalista deve manter a mesma clareza e objetividade ao realizar uma matéria ou reportagem na área de economia, assim como em qualquer outra área.
O interesse pelo jornalismo econômico pode ir do geral ao mais utilitário, isso porque quase tudo envolve economia. Nos casos mais específicos, acaba servindo como uma informação que pode se transformar em dinheiro, quando, por exemplo, um acionista quer saber qual será a postura de uma empresa com relação à determinada situação. Ele procura descobrir tal informação nos jornais, para saber se isso vai valorizar os títulos da empresa, concluindo assim, se ele deve vender ou comprar.

Surgimento e expansão
Caldas (2003, p.11) coloca que a história desse tipo de jornalismo caminha com a história da imprensa. Segundo a autora, é comum pensar que o jornalismo econômico nasceu após o golpe militar de 1964, o que é um erro. O que aconteceu foi que nessa época houve uma relevância e importância maior do gênero, mas sempre houve registros de fatos econômicos em jornais.
De acordo com Caldas (2003, p.11) afirma que no final do século XIX e início do século XX, os jornais brasileiros já traziam colunas fixas e diárias com temas exclusivamente econômicos. Em 1920, O Estado de São Paulo diariamente publicava a coluna “Magnos problemas econômicos”, assinada por Cincinato Braga. Nos anos 30, o ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Austregésilo de Athayde manteve por anos uma coluna em O Jornal com comentário sobre o mercado de café, na época o motor da economia nacional.
Nos primeiros anos do século XX os jornais passaram a publicar, assim como fazem hoje, seções de mercado em página inteira, com informações sobre cotação de abertura e fechamento dos mercados dos principais produtos agrícolas, ou de ouro e prata, por exemplo.
Na época da Ditadura Militar, os periódicos passaram a oferecer aos leitores informações e serviços de utilidade pública. A editoria de economia adaptou e especializou seus repórteres no seguimento de economia popular, o que Caldas afirma não ver mais hoje em dia. Também na época da ditadura surgiram revistas especializadas em economia, como a Gazeta Mercantil, que já existia antes, mas passou por uma reformulação, assim como o DCI – Diário Comércio e Indústria.
Na década de 70, o jornalismo econômico passou a se tornar comum na TV, por meio de uma linguagem menos complicada. Para tanto, o ex-comentarista esportivo Joelmir Betting, popularmente conhecido na área esportiva, foi convidado para conduzir um programa de economia na TV Gazeta. A TV Cultura também criou seu programa sobre o assunto, convidando o jornalista Marco Antônio Rocha para atuar como âncora.

Ramos
O jornalismo econômico é muito extenso e por isso a forma como ele se encontra nos jornais não se limita a apenas um tipo de caderno ou editoria. Pedro Kutney, jornalista com vasta experiência na área, afirma que há vários tipos de jornalismo econômico: macroeconomia, finanças, internacional, política econômica, finanças, empresas, legislativa e agronegócios.
Apesar das várias definições possíveis, Kutney considera que entre eles há um fator em comum: serem utilitários. O jornalismo econômico é informativo, mas são informações que valem dinheiro e se transformam em valor. Ele cita o exemplo de um aplicador em ações da Vale, que consulta os jornais para saber o comportamento de sua empresa e então decidir se deve vender ou comprar títulos.
Kutney considera que é possível fazer um jornal, revista, site, programas de TV ou de rádio inteiros só com assuntos de economia. O que de início poderia ser apenas um caderno genérico, pode se desmembram em diferentes editorias sobre economia. O jornalista especifica a função de cada uma:
-Nacional/Brasil (os nomes podem variar de veículo para veículo): Basicamente, neles encontram-se os assuntos macroeconômicos e os grandes números da economia, como: inflação, política econômica, emprego/desemprego, juros, câmbio e PIB. Nesse último ainda há a referência de tudo que está ligado e ele, incluindo consumo das famílias, gastos do governo, poupança e balança comercial com exportações e importações.
-Internacional: Em geral, contém os mesmo assuntos macroeconômicos mencionados no caderno anterior, só que se refere aos que acontecem fora do País.
-Finanças: Fala sobre o mercado financeiro (Bolsas de Valores, ações e derivativos), política monetária e juros, câmbio, captações internas e externas, crédito, seguros, investimentos financeiros e em participações, previdência privada, resultados e noticiário geral sobre bancos.
-Empresas e Negócios: Trata de assuntos de comércio, consumo, resultados (balanços) de empresas abertas, gestão e indústria. Dentro da indústria, há uma série de outras divisões, como automotiva, siderúrgica, farmacêutica.
-Legislação: Existe uma infinidade de assuntos econômicos que se resolvem na Justiça, como, por exemplo, saber se os bancos devem respeitar o Código do Consumidor ou o Banco Central.
-Política: Em todo veículo econômico há uma editoria de política, porque em muitos casos a economia é indissociável da política, especialmente em países como o Brasil, nos quais a política econômica pode mudar ao sabor dos governantes de plantão. Nessa editoria interessa cobrir a influência política sobre a economia.
-Agronegócio: É importante, principalmente para a região em que moramos. Cobre o setor de agropecuária e a indústria beneficiadora, como produtores de óleo vegetal e de frigoríficos, por exemplo.

O profissional
O jornalista que opta por trabalhar na área de economia deve, antes de tudo, ter os requisitos básicos referentes a qualquer jornalista. Além de gostar de ler muito, ser curioso e ter um texto simples e objetivo, o profissional não pode achar ruim lidar com números, tabelas e gráficos, pois precisa saber exatamente o que eles têm a dizer, além de muitas vezes conhecer fontes adequadas para ajudá-lo na interpretação dos dados.
Kucinski (2000, p.21) relata que enquanto no jornalismo genérico o objeto da informação é quase sempre algo incomum, excepcional, no campo econômico os fatos singulares têm tanta importância quanto os processos, leis ou relações econômicas, quase sempre desconhecidas pelo senso comum.
Com relação ao conhecimento apriorístico, Kucinski (2000, p.22) aponta a precariedade das teorias econômicas como um problema ao jornalismo econômico. O profissional se vê envolvido em diferentes escolas de pensamento, muitas vezes distantes do que ele pretende retratar. Nesse ponto é que se torna importante a busca constante do conhecimento pelo jornalista, tanto para exposição coerente das ideias, como para a filtragem crítica das premissas falsas.
Ainda segundo o autor, as novas gerações de jornalistas sofrem com a deficiência dos currículos dos cursos de jornalismo, que não trazem a possibilidade de um conhecimento substantivo sobre economia, história, sociologia, filosofia e política. Com isso, o espaço do jornalismo econômico vem sendo ocupado pó economistas e sociólogos.
Pedro Kutney ressalta que é importante fazer uma especialização no assunto. Ele afirma que são poucos os cursos de economia destinados a jornalistas e, na maioria das regiões do Brasil, não existem. Alguns jornais chegam a contratar cursos de formação econômica. Segundo Kutney, a Faculdade Getúlio Vargas chegou a ministrar um ótimo curso de 6 meses de economia para jornalistas. Atualmente, fornece apenas cursos de extensão na área.
A FAAP MBA tem um curso de seis meses, de graça, chamado “Agenda Brasil”, com fundamentos de gestão de empresas, macroeconomia e política industrial. Já a Bovespa/BM&F tem um MBA relacionada à área de finanças.

Coberturas
Kutney considera que existem dois tipos de cobertura econômica: a superficial e a aprofundada. Segundo ele, a maioria dos veículos tem cobertura superficial, informando pequenos números (a taxa de juro do dia, a taxa de câmbio, o movimento da bolsa, alguns negócios). O jornalista considera que normalmente quem escreve não entende nada sobre o assunto e, portanto, não pode se aprofundar.
Já em alguns grandes veículos como O Estado de São Paulo (que Kutney considera como tendo uma editoria de economia bastante completa) e na maioria dos jornais e revistas especializados no tema, existe um bom grupo de jornalistas, que sabem muito bem do que estão falando, e são o que ele define como “quase-economistas” (Joelmir Betting, por exemplo). Nesse caso a cobertura é mais aprofundada e analítica a ponto de muitas pessoas não entenderem. É comum, nesses veículos, ver o retrato de grandes debates econômicos, como, por exemplo, se a taxa de juro brasileira é adequada ou não ao desenvolvimento do país.
As agências de notícias sempre foram o veículo principal de disseminação da informação econômica em escala mundial. As primeiras já nasceram com esse intuito, principalmente entre Estados Unidos e Europa. Elas são quem fornecem a jornais de todo o mundo o noticiário básico. Dentre as maiores, duas das mais conhecidas são a Associated France Presse (AFP) e principalmente a Reuters. Quanto às intermediárias, como mais conhecidas tem-se a espanhola EFE e a japonesa Kyoto. Outras de grande importância são a Dow Jones (ligada ao Wall Street Journal) e a Bloomberg Business.
Segundo Kucinsky (2000, p.60), as agências estabeleceram o padrão e a estrutura de linguagem da notícia e a entrada no noticiário internacional, chegando em muitos casos a ser notícia apenas o que é captado e transmitidos por esses canais. Jornais pequenos e médios acabam sendo repetidores dessas informações. No Brasil, as agências dos grandes jornais como Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo fazem a cobertura nacional de modo semelhante ao que as grandes agências fazem em escala internacional, porém, reservando apenas aquilo que consideram informações exclusivas.
A revolução das comunicações provocou outras mudanças de informação econômica e na prática jornalística. Banqueiros conectam a redes mundiais e acessam bancos de dados, expondo seus produtos e fechando contratos. Com base na informática, há a multiplicação de boletins on-line, em geral publicado pelos grandes jornais.

Linguagem
No jornalismo dedicado à economia, um dos principais problemas reside no fato de ele se dirigir a dois públicos bem diferentes: os especialistas (grandes empresários e profissionais do mercado) e o grande público, bem como os pequenos empresários. Os primeiros usam termos próprios, como em um código específico, que nem sempre é de entendimento do segundo.
Por isso a importância da objetividade como um princípio de adesão à honestidade intelectual e de primazia dos fatos, fazendo com que eles sejam devidamente expressos na linguagem. É importante considerar a pertinência e a importância social do tema, a hierarquização dos fatos, bem como a sua contextualização. Além disso, é imprescindível a busca pela clareza, simplicidade, concisão e precisão. A clareza só pode ser alcançada se o jornalista entender o que se propõe a analisar, não se escondendo atrás das palavras difíceis dos jargões do “economês.”
Como nos exemplifica Kucinsky dizer “a produção nacional de café está encolhendo” é mais expressivo do que “o Produto Nacional Bruto está tendo crescimento negativo” ou ainda, falar “supersafra derruba o preço do café” é mais claro do que “safra excepcionalmente grande faz cair os preços do café.”

Ética
Um dos maiores problemas com relação à ética no jornalismo econômico está no deslumbramento que o jornalista pode ter diante de grandes empresas. Isso, segundo Kucinsky (2000, p.177), pode acarretar em uma promiscuidade nas relações com as fontese na aceitação de presentes.
A relação entre empresa e jornalista pode afetar a ética não só nesse aspecto, mas também por meio das assessorias. Segundo Kucinsky (2000, p.179), a disseminação delas alterou o jornalismo profundamente, fazendo dele, hoje, um sistema de comunicação baseado na parceria, pelo qual um jornalista empregado por uma empresa dá a informação pronta e acabada ao seu colega jornalista que trabalha em outro veículo.
O autor ainda considera que no jornalismo econômico a agenda passou a ser determinada pela empresas e agências do governo, por meio de press-releases; almoços, jantares e entrevistas coletivas promovidas pelas associações empresariais e agências do governo; além de prêmios jornalísticos, que quase sempre contemplam matérias que tratem de assuntos do interesse de grandes grupos econômicos.

Um comentário:

  1. Por mais que o Jornalismo Econômico não seja uma especialização "tãããão" querida, é importante pensar que nele está inserido o mesmo desafio presente nos demais segmentos: informar com responsabilidade e de uma maneira que atraia a atenção do público.

    Não trabalho com o jornalismo econômico (pelo menos por enquanto), mas penso ser gratificante transformar o que parecia um "bicho de sete cabeças" em algo que o público possa compreender de uma maneira fácil.

    Um texto bem escrito, um estilo próprio e diferenciado... tudo pode contribuir para que aquele conteúdo se torne indispensável no dia a dia do leitor, ouvinte ou telespectador.

    É importante que as pessoas saibam sobre a economia. E nós, enquanto comunicadores, temos o dever de facilitar para que isso aconteça;

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