terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ilustre convidado - perfil de Caco Barcellos

Caco Barcellos estará no Unitoledo nesta sexta-feira, dia 8 de outubro. O curso de jornalismo está em festa. Ele é mesmo o máximo! Pra aumentar a expectativa e contribuir com a aula de gêneros, a aluna Barbara, do 4o sem, encontrou este perfil dele escrito pelo jornalista Ricardo Alexandre, diretor da Época. Enjoy yourself!


Incansável

Escrevi esse perfil do jornalista Caco Barcellos para a Revista Fantástico de novembro de 2007. Foi uma das raríssimas chances que a carreira nos dá de fazer um perfil do jeito que deve ser feito: com acesso total ao personagem, com tempo para pesquisa e reportagem, com estrutura para embarcar Brasil afora com o entrevistado, com um baita fotógrafo como o Kiko Ferrite do nosso lado. Foi meu primeiro trabalho para a Editora Globo, a partir do convite do grande José Ruy Gandra. Fui editor-executivo nessa edição, daí logo fui convidado para assumir a “Monet”, no início de 2008, e da “Monet”, agora, parto para a Época São Paulo. Ou seja, é um trabalho pra lá de especial no meu coração.

Isso tudo sem contar o prazer descomunal de entrar um pouco na cabeça de Caco Barcellos, figura histórica do jornalismo brasileiro, e ser humano absolutamente intrigante. Evidentemente, apurei muito mais do que cabia no (generoso) espaço da revista. Aqui está a versão original, na íntegra. E abaixo está a foto usada na abertura da revista, no Senado, em que eu acabei aparecendo sem querer.

Eduardo Suplicy está com pressa. Cercado por aquele sufocante 360º de fotógrafos, repórteres, cinegrafistas e técnicos, o senador só tem “dois minutos, desculpe” para contar sobre a conversa que tivera, a portas fechadas, com o presidente do Senado, Renan Calheiros, até aquela hora da noite – o último encontro dos dois antes da votação que decidiria o destino do alagoano, no dia seguinte, no Plenário. Suplicy tinha um horário agendado na TV Senado, então, de fato, só respondeu à primeira pergunta, com típica calma e riqueza de detalhes, fazendo de conta que não ouvia as outras questões que lhe eram disparadas durante suas pausas de respiração. Foi quando Suplicy avistou Caco Barcellos, enterrado naquele coliseu humano, com os joelhos flexionados para não obstruir a câmera, e abriu um parêntese no meio da entrevista mais esperada do Brasil. “Muito boa a reportagem sobre os motoboys do ‘Profissão Repórter’!”, disse o senador, sorrindo, para o jornalista. E continuou a falar, do ponto exato em que havia parado.

Eu – tão longe que não aparecesse na TV, tão perto que não perdesse nenhum movimento – já nem me espantava mais. Por onde passava, Caco era interceptado, elogiado, recebia pedidos para fotos, autógrafos e, muitas sugestões de reportagens. Algumas horas antes, o senador Delcídio Amaral havia autorizado Caco a adentrar com exclusividade no Plenário. “Gente séria a gente tem de prestigiar!”, escancarou o petista. Recebeu o repórter com elogios, perguntou sobre Mano Brown, recomendou os livros de Thomas Friedman sobre o Oriente Médio e assinou uma autorização para filmagens de trás da imaculada cadeira do presidente da casa.

É verdade que um ambiente tão cheio de cerimônia e bajulação não é o natural de Caco Barcellos. Há 35 anos, ele é mais conhecido por dar voz aos fracos, levar a periferia para a televisão, denunciar arbitrariedades do Estado. Mas também é preciso dizer que Caco não é só isso. Nesse tempo todo, fez coisas tão variadas quanto perseguir Rod Stewart para a revista “Pop” ou mergulhar no universo da máfia calabresa, a N’drangheta, para a Globo. Há dois anos, Caco vem se reinventando com um projeto ao mesmo tempo pessoal e coletivo chamado “Profissão Repórter” em que lidera um grupo de 16 jovens jornalistas em pautas tão diversas quanto a festa do peão de boiadeiros em Barretos ou o tal especial sobre os motoboys assistido por Suplicy..

Tanto por seu formato (vários pontos de vista sobre uma mesma história) quanto pela variedade temática, “Profissão Repórter” é um retrato muito mais fiel de Caco Barcellos. Mais do que um paladino da justiça, ele é o repórter brasileiro por excelência. Convicto, incansável.

Embora tenha uma noção muito precisa sobre o tipo de jornalismo que pratica, por mais que conversássemos longa e abertamente nas seis sessões de entrevistas para essa matéria (duas em Brasília, duas em Maringá, no Paraná, mais duas em São Paulo), curiosamente, nem o próprio Caco parece notar o quanto este ponto de sua carreira, o mais alto, é tributário de tudo o que ele já fez – e, principalmente, de tudo o que ele viveu.

Vícios de taxista

Andar de carro com Caco Barcellos é uma experiência esquisita. Ele, o venerável repórter investigativo, guarda inacreditáveis vícios de taxista: Em Brasília, fez questão de buscar sua equipe no aeroporto, dirigindo ele mesmo o carro um-ponto-zero alugado; revelou ter certos problemas quando um ônibus o ultrapassa (“taxista ser ultrapassado por um ônibus é uma vergonha!”); faz campanha pessoal contra a existência de pontos de táxi (“taxista tem de estar na rua!”) e vê cada espaço impraticável como um desafio para a arte da baliza: “se cabe, eu estaciono”, gosta de repetir. Tudo com aquela calma, elegância, bom-humor e simpatia, o que deixa tudo ainda mais esquisito.

Caco trabalhou como taxista entre 1970 e 1973, para reforçar o orçamento que lhe permitia pagar a faculdade. Naquele tempo, ele já estava convicto de sua vocação para contar histórias. Nem sempre foi assim. Cláudio Barcelos de Barcelos nasceu em 1950 no bairro Partenon, a porta de entrada para a periferia porto-alegrense. Até abandonar a faculdade de matemática (onde entrou buscando um caminho para a de engenharia), não imaginava que as crônicas que escrevia secretamente desde a adolescência pudessem significar uma vocação profissional.

“Eu precisava ganhar dinheiro”, lembra ele, na sala de embarque do Aeroporto de Congonhas, olhando para seu copo de café como se fosse o túnel do tempo. “Eu quase fui padre”, ele corta. “Porque eu sabia muitas frases em latim e era coroinha, então o pároco me fez essa sugestão. Ele ficou muito decepcionado quando perguntei de volta: ‘Padre ganha bem?’”

Filho de um faz-tudo e de uma dona-de-casa, Caco trabalhava desde os 12, primeiro vendendo passes escolares, depois ajudando um tio na venda de frutas e verduras, depois juntando cacos de vidro e ossos em uma carriola que comprara em sociedade com seu grande amigo Nenélio.

Quando cursava matemática, apareceu a oportunidade de juntar mais um dinheirinho. Era uma vaga no jornal alternativo “Dluct”, mantido por um grupo de hippies gaúchos. “Eles eram politizados, intelectualizados pra caramba e estavam interessados em formar novos profissionais.” Caco escrevia suas matérias à mão, porque não tinha direito de usar as máquinas de escrever da redação.

O “Dluct” chamou a atenção do lendário jornalista Jefferson Barros, que em 1972 estava promovendo uma pequena revolução no jornal gaúcho Folha da Manhã. Uma de suas medidas mais importantes – para a carreira de Barcellos ainda mais – foi transformar as páginas “policiais”, que basicamente acompanhavam prisões e ações policiais, numa seção chamada “Sociedade”, alterando drasticamente o enfoque das pautas. “Até então, o repórter policial era a escória do jornalismo, e não fazia muito além do que reproduzir e ampliar os boletins de ocorrência”, conta Caco, que naquele mesmo ano transferiu-se para o curso de jornalismo. “Na ‘Folha da Manhã’ eu desenvolvi o hábito de ouvir o lado do torturado, não só o do torturador.”

Foi só quando seu salário como repórter foi equiparado ao de taxista que Caco encostou seu carro. E continuou no matutino até 1974, quando publicou uma reportagem sobre os abusos dos carcereiros no Presídio Central de Porto Alegre. No texto, Caco descrevia com jargões futebolísticos como os policiais chutavam a cabeça dos presos. Jefferson Barros foi pressionado a demiti-lo. Mais de 20 colegas se solidarizaram com o repórter e se demitiram também. Aquele grupo fundou a Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre. Confiante de seu talento, mas sem perspectiva de trabalho, com sua esposa grávida, Caco decidiu deixar o Rio Grande do Sul.

Cabeça-de-vento
Nos quatro ou cinco dias que esta reportagem o acompanhou, Caco esqueceu a chave dentro do quarto de hotel, perdeu o cartão de embarque durante uma conexão, esperou em vão uma bagagem que estava sendo despachada automaticamente entre dois vôos e esqueceu parte dos documentos necessários para o credenciamento no Senado Federal. O repórter é tão absorto em seu trabalho que desenvolveu uma espécie de avoamento crônico. Em sua própria casa, diz que sua família decidiu nunca despedir-se dele, porque é certo que dali a dez minutos ele volta para buscar algo esquecido.

Caco mora em um apartamento de quatro dormitórios no bairro de Higienópolis, Zona Oeste de São Paulo, certamente erguido nos tempos em que os prédios de apartamentos eram amplos e confortáveis como uma casa. Ele vive ali desde 2004, quando voltou de sua experiência como correspondente na Europa. Caco é casado com a estilista Beatriz Fragelli, a Bibi, e mora com os dois filhos deste seu segundo casamento: Iuri, 16, e Alice, 9 anos.

Quando se mudou para São Paulo, em 1975, as preocupações de Caco eram não muito maiores do que sobreviver como jornalista e sustentar o filho, Ian, que ainda nasceria. Usava de sua opção macrobiótica para cozinhar a cabeça dos peixes que os feirantes normalmente lançavam fora (“é onde está o maior número de vitaminas”, explica) e se deslocava de ônibus para as reportagens para economizar o dinheiro do táxi. Ainda sob influência do hippismo, ajudou a fundar a revista “nanica” “Versus”. Mas o dinheiro vinha mesmo da colaboração para veículos como o “Jornal da Tarde”. Seriam cinco anos de jornalismo independente.

Em 1978, o editor do “JT”, Luiz Fernando Mercadante, assumiu a direção de jornalismo da TV Globo e tentou levar alguns de seus melhores repórteres, como Luis Fernando Silva Pinto e Caco Barcellos. “Eu recusei”, lembra o gaúcho. “Disse algo como ‘a Globo é um veículo muito oficial, vocês detestam furo, estão sempre falando bem do governo. Me deixa feliz correndo atrás das minhas histórias.” Evidentemente, ele ainda era um hippie.

Dois anos depois, decidiu ir até a Nicarágua após ter assistido a uma cobertura sobre a Revolução Sandinista, com “repórteres em cima dos carros dos guerrilheiros, acompanhando a linha de frente”. Caco chegou na América Central no meio da contra-revolução, que desaguaria em uma guerra civil contra o governo. Sem dinheiro, ia toda manhã ao hotel em que os jornalistas estrangeiros estavam hospedados, e saía com os bolsos cheios de suprimentos para o dia.

Quando o conflito se tornou ainda mais violento, Caco descobriu um enfoque diferente para sua pauta: uma barricada de instigação formada por pré-adolescentes. A função daqueles garotos era atrair soldados para emboscadas, onde os adultos pudessem matá-los. Depois de alguns dias de acompanhamento, Caco foi confundido com um espião e feito refém pelo grupo. Quando a confusão foi finalmente desfeita, os adultos pediram para que o brasileiro ficasse e registrasse a operação deles. Caco saiu com material para seu primeiro livro, “Nicarágua: A Revolução das Crianças”. O livro só saiu em 1982, depois de meses ignorado: “Os editores não me recebiam e eu achava um tanto humilhante deixar os originais com as secretárias”, conta. “Percebi que eu teria de me tornar conhecido primeiro, se quisesse publicar próximo livro.”

Nem foi pelo reconhecimento que Caco reconsiderou a passagem para a televisão. Ele estava em Nova York, em outra viagem atrás de reportagens. “E fiquei apaixonado pelos documentários que eram produzidos na TV americana”. Procurou primeiro a TV Globo em Nova York, mas tudo o que conseguiu foi trabalhar como técnico em algumas matérias de Lucas Mendes. Caco só seria chamado em 1983, após passar pelas revistas “Istoé” e “Veja”, para fazer parte de um “redesenho” do “Globo Repórter”. Entretanto, o projeto demorou tanto a decolar que a Abril Vídeo, produtora da Editora Abril que havia comprado toda a grade noturna da TV Gazeta de São Paulo, contratou o gaúcho. Caco só retornaria à Globo em 1985, definitivamente.

“Eu comecei nos últimos anos da ditadura militar, uma época em que as fontes oficiais eram truncadas”, ele lembra. “Então aprendi desde cedo a contar uma história sem depender das fontes oficiais. Aliás, tanto melhor seria a história quanto mais fontes oficiosas eu tivesse.”

Coração de estudante

A presença de Caco – esse comedor-de-cabeça-de-peixe, rapaz feito refém na Nicarágua, ex-hippie, repórter investigativo e imã de problemas – na maior emissora do país sempre causou certo estranhamento. Mano Brown fala com ele, mas não com a Globo, como se fossem figuras dissociadas profissionalmente. Caco é visto como um símbolo de uma certa visão esquerdizada de jornalismo, herói dos estudantes de comunicação, capa da “Caros Amigos” – geralmente o tipo de gente que despreza qualquer organização com o tamanho e influência que a Globo tem: “Esse estranhamento desconsidera que tudo o que Caco fez desde 1985, ele fez dentro da Globo”, lembra Luiz Cláudio Latgé, diretor de jornalismo da emissora em São Paulo. “É um trabalho em que a gente sempre apostou, investiu. Não é um ponto fora da curva, é fruto da pluralidade que a emissora tem.”

A primeira fase de Caco na emissora, fase que se intensificou até o início dos anos 90, foi dedicada à cobertura policial, invertendo o ponto de vista da narrativa: ao invés da lógica das viaturas e dos PMs, o lado de quem é preso e torturado sem provas. O auge dessa fase foi a publicação do livro “Rota 66: A História da Polícia Que Mata”, em 1992, que surgiu da idéia de identificar todos os assassinatos cometidos pela polícia militar de São Paulo. Foram cinco anos passados em cemitérios e necrotérios para chegar ao nome de 4200 inocentes – de um total de 12 mil que a própria PM assumiria publicamente.

Como não poderia deixar de ser, durante uma palestra para estudantes de jornalismo em Maringá, a primeira pergunta é sobre “Rota 66”. “A polícia é perfeita para mim, eu não tenho do que reclamar”, ele responde. “Mas eu sou do tipo de pessoa que além de se preocupar com o próprio filho, se preocupa com o filho do vizinho, mesmo que ele more há 15 quilômetros da minha casa, onde a cidadania não chega.” Caco começa a despejar dados desconcertantes: sete entre cada dez presidiários são brancos, mas seis entre dez mortos pela polícia são negros; em um país em que a pena de morte é uma cláusula pétrea, a polícia aplica a pena capital 1.500 vezes por ano; entre as 46 mil assassinatos anuais no Brasil, não mais de 5% é fruto de assaltos; 20% é fruto de ação policial e o restante de discussões resolvidas por um “cidadão de bem” com uma arma na mão.

Entretanto, era flagrante certa decepção dos estudantes quando Caco Barcellos deixou claro que seu compromisso maior não é político, é jornalístico. Heresia suprema: ele acredita que a cobertura do velho caso Collor e do recente Renan Calheiros são exemplos de “denuncismo” da imprensa, a serviço da polêmica, não da informação. “Denuncismo é aquele jornalismo baseado em declarações ou dossiês”, explica. “Barbaridades que são quase sempre publicadas atendendo interesses políticos de terceiros e nunca são checadas. Apuração leviana, irresponsável e sobretudo incompetente baseada em apenas declarações. Isso não seria grave em si, desde que não atingisse a honra de alguém.”

Caramba. Depois de conversar com Caco, o “denuncismo” começou a saltar nas páginas da grande imprensa brasileira, como se fosse uma caneta fosforescente destacando na minha cabeça onde fulano foi “acusado de negociar”, cicrano foi “acusado de montar esquema”, beltrano foi “acusado de desviar verba”, falatório sobre o qual semanas e semanas de manchetes são vendidas. Mas, se é assim há tanto tempo e se vende-se tanta revista com isso, não seria exatamente este o tipo de jornalismo que a nossa classe média espera de nós? “Só se você quiser enxergar a imprensa como algo arrogante, irresponsável e julgador”, responde Caco. “Eu não quero essa definição pra mim. Isso combinaria mais com um delegado.”

Seu terceiro livro, “Abusado: O Dono do Morro Santa Marta”, foi publicado em 2003, durante os quatro anos que passou como correspondente da TV Globo na Europa, cobrindo especialmente assuntos ligados ao terrorismo. Antes de mudar-se com a família para Londres, Caco apresentou o programa semanal “Espaço Aberto” na Globonews, sobre iniciativas positivas na periferia, ao mesmo tempo em que mantinha suas reportagens para o “Globo Repórter”, “Jornal Nacional” e “Fantástico”.

Tão logo voltou ao Brasil, Caco Barcellos levou à direção da Globo o projeto do “Profissão Repórter” – uma nova fase, ao mesmo tempo totalmente integrado dentro da linha de respeito obsessivo pela curiosidade jornalística e pela ausência de verdades absolutas em torno de qualquer tema. “Muita gente me pára para dizer que o formato do “Profissão Repórter” é uma novidade na televisão”, ele conta. “Mas é a coisa mais velha do mundo, ir para a rua e ouvir as pessoas. As pessoas mais simples, as fontes não oficiais, observar o mundo respeitando a gente da rua. Quanto mais longe dos gabinetes, mais próximo da verdade nós estaremos.”

Caco Buarque

Uma das funcionárias da Secretaria de Comunicação Social do Senado aproveita a pequena balbúrdia em sua sala, com cinco marmanjos da Globo tentando credenciamento para me perguntar, à miúda, em tom de segredo: “Vem cá, o Caco Barcellos é casado?”. A graça da pergunta fica no ar, triturada em alguns segundos de silêncio cômico, então devolvo no tom: “É. Mas ele não fala da vida pessoal!”

Conversamos muito sobre o que era evidente: o cara é uma celebridade, sujeito ao mesmo tipo de assédio e aos mesmos tipos de obrigações e limites dos artistas. Mas Caco não é artista, certo? “Eu não imaginava que a trajetória de um repórter pudesse passar pela notoriedade. Morria de vergonha de fazer as passagens [trechos das matérias em que o jornalista aparece falando na tela] com pessoas atrás de mim. Até hoje não sei me comportar quando sou abordado na rua. Eu paro, converso, mas às vezes a pessoa não quer conversar realmente, ela quer apenas exercitar uma curiosidade em relação a alguém que todo dia invade a casa dela.” Hoje, mais de 20 anos depois de estrear na Globo, Caco garante que não muda sua rotina por conta do assédio, muito menos adota a “performance” típica das celebridades. “Quem anda com segurança não quer ser incomodado, mas obviamente quer ser reconhecido por onde passa.”

Uma das meninas da Secretaria de Comunicação em Brasília chama Caco de “Chico Buarque do jornalismo”. Mais tarde, no avião de volta para São Paulo, ele lembra dos casos de assédio, como o da garota do Pará que lhe procurou com uma pepita de ouro nas mãos como pagamento para que ela pudesse lhe fotografar “no alto de seus aposentos”. Houve ainda uma advogada que por dois anos lhe escreveu cartas alternando uma suposta denúncia de tortura com parágrafos como “invejo os lábios que tocam os seus lábios”. Ou ainda aquela que sempre esperava as reportagens de Caco com um disco de música clássica pronto para fazer fundo para a imagem do repórter. “Mas, durante tantos anos, foram só alguns casos eventuais. Não é algo freqüente, realmente”. Nada parece incomodar Caco Barcellos.

“O que me tira do sério de verdade”, ele corrige. “É quando estou sendo maltratado em algum lugar público, como na fila de um banco ou em algum supermercado. De repente, alguém me reconhece, e todo mundo passa a me tratar bem. Eu já fiquei tão nervoso com isso que exigi: ‘pois agora você vai continuar me tratando mal se não eu vou chamar o gerente!’”

Aos inacreditáveis 57 anos, Caco Barcellos parece renovar seu fôlego não nas diversas fases de trabalho que empreendeu, mas no velho direito de se surpreender, de se indignar, de aprender, de ouvir, como se fosse um magrelo barbado do Partenon. “O que você está fazendo comigo” – Caco me olha em algum ponto entre meus olhos e meu gravador – “é o que mais gosto de fazer, em toda a nossa dinâmica de trabalho. Conhecer gente, ouvir histórias. Gosto da captação, do processo de conquista de confiança, da descoberta de cada personagem. É maravilhoso.” Pelo jeito, enquanto existir gente com alguma coisa para falar, Caco Barcellos não estará cansado o suficiente que não possa ouvi-la.

Já em solo, esperando sua bagagem aparecer na esteira, me ocorreu o quanto de sua vida de coroinha deixou marcas em seu senso de justiça e em sua ética. “Não acreditar em verdades absolutas é um traço totalmente não cristão”, ele reconhece. “Mas há uma influência totalmente cristã na minha formação, que é não me dar o direito de julgar, muito menos tirar a vida de alguém. Observar, apenas; jamais condenar a princípio”. E conclui: “Essa conduta, aliada da boa reportagem.” Claro.

Daqui ele vai para sua casa, compensar as poucas horas de sono no Paraná, mas à tarde sai novamente a campo para, em plena hora do rush, se espremer nos ônibus de São Paulo em busca de um personagem para o “Profissão Repórter”. Ele, que havia 24 horas era assediado feito um astro em Maringá, quer ouvir o mais comum dos homens. Celebridade esquisita, esse Caco Barcellos.

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