sábado, 25 de dezembro de 2010

Diário de bordo - Ainda são muitos os Fabianos

Quinta-feira (23/12/2010)


Maurício se esqueceu de atualizar o relógio e quando ele tocou, no horário de verão de São Paulo, às 6h30, eram 5h30 da madrugada no Piauí!!!! Mas o hotel estava um movimento só. Acho que todos acordaram juntos e quiseram sair ao mesmo tempo. O que no Piauí é impossível. Eles não têm pressa. Muitas vezes, nem planejamento, nem organização. Explico: O café da manhã não foi suficiente para todos os hóspedes, algumas pessoas ficaram sem comer porque o hotel não tinha previsto o movimento (e nos povoados vizinhos não havia alimento, água e outros tipos de bebidas para prover o hotel, simples assim). Comemos o suficiente. O Maurício até arriscou uma carne seca com suco de cajá logo cedo (ai). Eu fiquei só no suco. Não tenho estômago pra tanto.
Comecei dirigindo e dei sorte porque depois de 3 horas no volante, quando passei a tarefa para o Maurício, foram 75 quilômetros pra esquecer. Primeiro porque o asfalto atrapalhava os buracos, da média de 120 quilômetros por hora que vínhamos fazendo (ops!), por 75 quilômetros tivemos que reduzir as vezes até para 40 quilômetros. A tortura durou uma eternidade. Depois porque revi cenas que pensava que jamais tornaria a ver.
Há 18 anos estive no Nordeste pela primeira vez, e uma cena em Alagoas me marcou: crianças na estrada, com pás nas mãos, tampavam e destampavam os buracos do asfalto (feitos pelo tempo ou por eles próprios) para ganharem um “dinheirinho” como pediam acenando com os dedos. Hoje vimos a mesma coisa no Piauí, em Campos do Buriti. Mas não eram mais só crianças. Crianças, moços e velhos, homens e mulheres, todos num sol de no mínimo 40 graus (lembrem-se, a Linha do Equador passa por aqui!) tendo só essa opção pra sobreviver. Vivem daquilo que lhes é jogado das janelas dos carros. No passado, além do dinheiro, quis dar um pacote de bolachas para um grupo de crianças de Alagoas. Elas pegaram o pacote, cheiraram o plástico da embalagem e não sabiam o que fazer com aquilo, não conheciam. Hoje não quis dar as bolachas, fiquei com medo daquela cena se repetir. Fui dando as moedas de 1 real que tinha até que elas se acabaram e as pessoas pedindo, não. Me senti incapaz, não resolvi os problemas de quem eu dei a moeda, não resolvi os problemas dos outros. E eles também não conseguirão resolver este problema. Vão trocar seus votos pelas cestas básicas que lhes derem, porque precisam sobreviver (embora a não reeleição doMão Santo e do Heráclito já sejam um bom indicativo). Ainda existem muitos Fabianos e agora eu entendo porque o “sertanejo é um forte”.
Almoçamos em Floriano, a terceira maior cidade do estado e olha, ela é bem menor do que Jales...O almoço foi uma delícia, em um restaurante de hotel onde fomos apresentados à cajuína, um suco de caju diferente do que conhecemos. Bem, a paisagem só mudou na entrada da capital Teresina, grande, plana e com todos os problemas das capitais, em especial o trânsito caótico, as ruas mal sinalizadas e a pobreza exposta pelas ruas. Aqui elas não estão debaixo dos pontilhões porque alguém decidiu transformar estes vãos em shppings da natureza, lojas que vendem plantas e flores. Ideia original e genial.
Estamos no melhor hotel, com vista para o Rio Poty (Poty era o nome da cidade antes de Teresina), de frente aos shoppings e eu ainda me sinto tão culpada pelas crianças que não pude ajudar pela estrada. Meus filhos levaram um “baque”. Não imaginavam a pobreza. Agora sabem que existe e é cruel, desumana. Jantamos em um dos shoppings que tem tudo o que os outros têm, inclusive as franchisings, mas uma característica singular: ele é térreo, aliás tudo em Teresina é plano, só há 10 anos eles começaram a construir prédios, em um bairro específico, Ilhotas, onde ficam os hotéis, como o que nós estamos. Dormimos como anjos...

Cidades: Barra de Santana, Palmeira do Piauí,Alvorada do Gurguéia, Colônia do Gurguéia, Eliseu Martins, Canto do Buriti, Pajeu do Piauí, Flores do Piauí, Itaueira, Floriano, Angical, Santo Antônio dos Milagres, São Pedro do Piauí, Agricolândia, Lagoinha do Piauí, Olho D´Agua do Piauí, Miguel Leão, Monsenhor Gil, Lagoa do Piauí, Demerval Lobão, Teresina (PI).

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