sábado, 25 de dezembro de 2010

Diário de bordo - No porão da ditadura

Sexta-feira (24/12/2010)

Primeiro dia sem estrada. O dia começou lindo, com sol. Acordamos sem despertador, tomamos o café da manhã mais farto até agora. Não consegui escapar e acabei experimentando a tapioca com queijo e presunto e outra versão mais pesada: com bacon. Gostei, mas não dá pra encarar todos os dias como eles fazem por aqui. É pesada, tem uma hora que a massa cresce na boca. Depois do café, piscina, sol, leitura do jornal local – o melhor até agora, boa diagramação, mas linha editorial complicada – brincadeira com as crianças na água até cansar.

A proposta do dia era visitar os pontos turísticos da cidade. E foi o que fizemos: igrejas, palácios – a sede do governo é linda!!!!, o Palácio de Karnak, uma réplica de um templo do antigo Egito – pontes, rios, prédios antigos (cuja arquitetura vem sendo mantida, lindos) e o centro de artesanato. Visita despretensiosa, para compras e lazer. Quem dera!

O centro funciona em um prédio antigo, que no passado teve duas funções. Uma de suas fachadas servia para o teatro da cidade. A outra era sede do Exército. Unidos, os prédios agora formam um grande quadrado onde foram dispostas pequenas lojas, anfiteatro, salas de aula das diversas artes, entre outros. Precisei visitar uma ala inteira das lojinhas para perceber que todas elas, de tamanhos iguais, mais pareciam celas. E foram, no passado. Mas só entendi tudo na última porta, depois de comprar as lembranças de palha de bacuri, chaveiros, chapéus e licores. Naquele local, um grupo ouvia atentamente um piauiense empolgado. O sotaque e o modo de falar deles dificulta a compreensão de primeira, mas ele falava de ditadura militar e não deu pra não parar para ouvir.

Ele mostrava uma grade no chão, de onde podia se ver uma escada grande, íngreme, com degraus grossos. Então entendi de vez o que quer dizer, literalmente, a expressão “porões da ditadura”. O guia explicou que nos anos 60/70 aquela sede do Exército serviu para prender e torturar os piauienses. Eles eram presos, trazidos para o local, torturados (um bastão de madeira ainda está lá, em exposição), e muitas vezes jogados naquele porão. A descrição já era cruel, mas quando ele levantou a grade e perguntou quem queria descer, fui uma das primeiras (e poucas). Não sou ‘virgem’ no assunto. Tive o melhor professor de História que alguém que cresceu nos anos 70 poderia ter: Cristóvam Avelhaneda, um bravo, que se recusou a ensinar o que os militares queriam, ensinou o que quis. Fui amiga de Renato Rollemberg, cujo pai, o advogado e político Roberto Rollemberg, foi cassado por ajudar os mais necessitados. Conheci o Sr. Ruy Berbert, pai de Rui Carlos Berbert, estudante morto no Araguaia, cuja identificação dos ossos, décadas depois, eu acompanhei de perto. Li tudo, assisti aos documentários, filmes, estudei as músicas, mas, fisicamente, o mais perto que eu havia chegado nesta história tinha sido da sede do Exército na rua Tutóia, em São Paulo. De ímpeto, desci naquele porão. Meu filho, Eduardo, quis me acompanhar, mas não conseguiu ficar por muito tempo, como aconteceu com a Verônica, quando ela desceu com o pai.

Descer a escada é difícil. É estreita, rústica, com degraus muito altos. Mas para s presos não havia dificuldade porque eram jogados lá depois de torturados, de uma altura de quase 5 metros. A primeira impressão é escura. Não há luz, porque não há janela, só um retângulo de pedra úmida, estreito e alto. Deve ter uns 7 metros de comprimento por uns 3 metros de largura. Na parede ainda há os dois ganchos que prendiam os presos pelas mãos, em uma tortura psicológica que podia durar dias, semanas ou meses. Nas paredes ainda há o suporte para o pau-de-arara e a fiação com fios descascados. Há manchas nas paredes, que dizem, são de sangue. Mas o pior de tudo é o cheiro, amargo, azedo, podre. Dói o nariz, embrulha o estômago, enche os olhos de água.

“Por que as pessoas faziam isso?”, perguntaram meus filhos quando o pai e eu saimos. Foi um momento intenso quando explicamos que para eles serem livres como são hoje, muita gente precisou morrer. Eles estão mais atentos, curiosos, querem ouvir as histórias.

Saí atordoada. Almoçamos no meio da tarde, em outro shopping da cidade, também plano e agradável. No último tour da tarde, fomos conhecer mais pontes e prédios históricos e, sem querer, chegamos ao Maranhão. Sim, é o rio Parnaíba que divide os dois estados e ao atravessarmos uma ponte, conhecemos Timon, a primeira cidade maranhense.

Nesse passeio algumas coisas nos chamaram a atenção. Em Teresina, ao lado do rio Parnaíba, há um lava-jato alternativo. São desempregados que captam a água do rio e lavam os carros na rua mesmo, claro que por um preço mais acessível. As pessoas estacionam, sentam-se em bancos improvisados e numa rapidez absurda, os homens lavam os carros com a água do rio.

Outra curiosidade é que há um mercado de coisas usadas: fogão, geladeira, TV, a céu aberto, no centro da cidade. Cheguei a fotografar.

Depois de andar muito em uma cidade que tem dois sóis pra cada um (como parafraseou a Verônica de uma frase do Alexandre, meu amigo fotógrafo), voltamos ao hotel para descansar e ceiar. Noite simples, tranquila e deliciosa. Tomara que o Natal de todos que amamos tenha sido assim.

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