sábado, 2 de outubro de 2010

Perfil Mané Garrincha


Olha só, colaboração da Amanda Monzani. Muito legal. Depois damos os créditos.
Aproveito para dar a dica: vale a pena ler "Estrela Solitária", do Ruy Castro, uma biografia riquíssima deste jogador de futebol que até hoje é escalado para as melhores seleções do mundo.




Perfil – Mané Garrincha


Sua irreverência e genialidade encantam a todos até hoje. Até os que confessam não gostar de futebol se dobram aos dribles do “anjo de pernas tortas”, como foi chamado pelo poeta Carlos Drummond de Andrade.

Manuel Francisco dos Santos nasceu em Pau Grande, no Rio de Janeiro. Antes de encantar o mundo com seus dribles, Mané Garrincha (ou simplesmente Mané) enfrentou todas as agruras da miséria. Consta que as pernas tortas foram resultado de uma poliomielite adquirida na infância. Por causa da distrofia física, os médicos acharam que ele nunca seria capaz de andar direito, tampouco jogar bola. Erraram feio.

O gramado virava o picadeiro de Mané, a bola lhe era submissa e a partida virava uma festa. “É ai que estava o milagre. O povo ria antes da graça, da pirueta. Ria adivinhando que Garrincha ia fazer sua grande ária, como na ópera. Como se sabe só jogador medíocre faz futebol de primeira. O craque, o virtuoso e o estilista, prendem a bola. Sim, ele cultiva a bola como uma orquídea de luxo”, setenciava Nelson Rodrigues, ex-companheiro do Botafogo.

Os dribles de Garrincha não tomavam conhecimento do adversário. Fosse quem fosse, o marcador era sempre algum “João” parafusado na lateral. Quando a bola estava em seus pés, todos eram iguais.

Muitas vezes parecia que o craque lutava sozinho contra os onze adversários. Eles os perseguiam, lutavam em vão como touros. Mas Garrincha era um matador. Depois de driblar dois, três, quatro jogadores, colocava suas mãos na cintura e esperava. O silêncio das multidões era o prelúdio das gargalhadas.

O craque conheceu seu auge nas copas de 1958 e 1962. Na primeira, seu brilho foi um tanto ofuscado por um jovem e talentoso jogador chamado Pelé. Mas foi considerado o melhor de sua posição, a ponta-direita. Na segunda, Garrincha foi o responsável pela conquista do bicampeonato da seleção. Nessa Copa Pelé, já consagrado, não pôde jogar devido a uma contusão.

Se Garrincha foi chamado de “a alegria do povo”, sua vida foi marcada por muitas tragédias. No final dos anos 60, Mané entrou numa espiral de decadência. Seu casamento com a cantora Elza Soares, muito condenado na época, estava nas últimas.

Em 1982, depois de vários anos sem ser visto publicamente, um Garrincha catatônico surgiu em um carro alegórico da Mangueira, que lhe prestava homenagem naquele carnaval. Mané não conseguia nem ficar em pé para saudar a multidão que tanto lhe louvou.

Com a idade e a vida boêmia, Mané perdeu a agilidade para o futebol. Seus problemas se agravaram com o alcoolismo, que anos depois, morreu pobre e solitário Infelizmente, no futebol dos pernas de pau, dos medíocres e ordinários, há cada vez menos espaço para espetáculos de “pernas tortas”.

Perfis

Os estudantes do 2o. ano estão aprendendo sobre perfil. Veja alguns que eles pesquisaram...Esta é a colaboração da Fernanda sobre a Lady Gaga, bem legal!

O Coração Partido e as Fantasias Violentas de Lady Gaga
Por Neil Strauss – revista Rolling Stones – Brasil (edição 46)


Ela pula para cima de uma cadeira na frente do espelho de maquiagem, e assiste a uma edição preliminar do videoclipe de seu single mais recente, "Alejandro", sem som, em seu MacBook Pro. Levando em conta a inclinação que ela tem para roupas que chamam a atenção, a cena que ela assiste vez após outra é relativamente discreta.

"Está vendo? Não tem telefone nenhum na minha cabeça - nem cabine de telefone", ela diz. Então ela volta o vídeo e dá pausa. "Nem estou usando maquiagem aqui. Sou só eu, e as pessoas vão ver que aquilo que existe por baixo de tudo continua sendo eu." Ela faz uma pausa e saboreia a imagem por mais um instante: "E eu continuo conseguindo ser selvagem".

Claro que, algumas cenas mais para a frente no vídeo, ela está dançando com rifles militares que saem de seus peitos. "Certo, tudo bem, ainda tem um pouco de Lady Gaga ali", ela confessa com um sorriso.

A ex-Stefani Joanne Angelina Germanotta tem uma missão a cumprir: provar que Lady Gaga é arte e que a arte dela não é uma máscara. É a vida dela. E, se ela tivesse menos força de vontade, sua vida estaria saindo fora de controle neste momento: o avô dela está no hospital, o pai passou por cirurgia cardíaca recentemente e ela acabou de ser informada por médicos que corre o risco de desenvolver lúpus, uma doença autoimune que matou uma tia dela, antes mesmo de ela ter nascido.

Adicione a isso pressões de ascensão repentina ao domínio cultural, a ética de trabalho incansável, a turnê mundial aparentemente infindável e o fato de que ela já finalizou demos para o próximo álbum, e é possível imaginar uma estrela à beira do colapso. Mas não é assim que Gaga enxerga as coisas. "Nós deveríamos estar cansados", ela diz antes de cantar algumas das músicas novas que escreveu na estrada. "Não sei quem falou outra coisa, mas você tem que fazer um álbum e uma turnê. É assim que se constrói uma carreira. Eu disse ao meu empresário hoje: 'Estou ansiosa para tirar todos os meus discos de platina das paredes e abrir espaço para mais'."

Apesar de a esperteza e a ambição de Gaga ficarem bem claras, também dá para detectar certa ingenuidade e a disposição de acreditar nas pessoas quando se está cara a cara com ela. Quando seu road manager lhe diz para não mostrar as músicas novas para um jornalista, mesmo que ele concorde em não divulgar, ela ignora o aviso. "Ele vai escrever sobre outras coisas", ela diz. "Só quero que ele saiba quem eu sou."

E quem ela é? Algumas pessoas dizem que Lady Gaga tomou forma no dia em que ela e seu ex-produtor e namorado, Rob Fusari, inventaram o apelido, inspirado pela música "Radio Ga Ga", do Queen. Mas se você acompanhar a história e a música dela com cuidado, vai ver que está mais para o resultado de um coração partido: primeiro pelo pai, um roqueiro bissexto que parou de lhe dar dinheiro quando ela largou a faculdade; e depois pela gravadora Island/ Def Jam, que assinou contrato com ela e então a dispensou, nada impressionada com o rock de pianinho, ao estilo Fiona Apple que ela estava gravando na época, e, finalmente, o ingrediente mais devastador de todos, por uma relação tempestuosa e passional com um baterista de heavy metal, o único namorado que ela diz ter amado, logo antes de ficar famosa.

Depois que os dois terminaram, ela prometeu a si mesma que nunca mais amaria e faria com que ele amaldiçoasse o dia em que duvidou dela. E essa pode ser a origem de sua transformação de Stefani para Gaga. Como qualquer pessoa que a viu durante a turnê sabe - neste momento, isso significa cerca de 1,4 milhão de pessoas -, o show dela não é só um espetáculo de palco como o de Madonna ou do Kiss. É um exemplo de performance de arte altamente pessoal, fantasiada de espetáculo pop. Como ela repete vez após outra durante o show, ela é uma "free bitch" algo como uma "louca livre") e o público deve agir da mesma maneira: libertar-se não apenas das pressões da sociedade para se adaptar mas também do poder dos homens em sua vida, que tentam controlá-lo ou defini-lo. Ela vê seu público como uma coleção de miniversões de seu próprio eu rejeitado do ponto de vista social e romântico e, a certa altura, diz: "Vamos fazer um brinde para curar todos os corações partidos dos meus amigos fodidos". O sucesso dela é a vingança máxima dos deslocados.

Na noite seguinte em Birmingham, Lady Gaga está de novo no backstage, preparando-se para o show. Desta vez, está escutando Born to Run, de Bruce Springsteen, em vinil, usando uma bandana azul como homenagem na cabeça e um colete preto com tachas sem abotoar com um sutiã preto por baixo.

Quando ela usa palavras como "ousadia" ou descreve suas conquistas sexuais de homens bonitos, dá para ver por que os boatos de hermafroditismo a respeito dela são tão persistentes: às vezes, ela parece um homem gay preso em um corpo de mulher. Ela se senta calmamente no sofá, abaixa o volume e reflete sobre a noção de que Lady Gaga seja o produto derivado de um coração partido.