sábado, 25 de dezembro de 2010

Diário de bordo - Na terra do Didi

Sábado (25/12/2010) – Natal!


Estamos em Sobral (CE), a quinta maior cidade do Estado, terra do Didi (o Renato Aragão). Ela é famosa no mundo, pois foi aqui, há 80 anos, que a Teoria da Relatividade de Einstein foi provada em um eclipse total. Amanhã visitaremos o museu, que hoje já avistamos. É uma cidade suja, sem ruas definidas, calçamento irregular, muita areia espalhada e um cheiro de esgoto no ar, mas, ao mesmo tempo, consegue ser linda por causa da arquitetura, que tem vários estilos, inclusive o art déco. Não vi tantos prédios assim a não ser em Miami.
É uma cidade de turismo religioso, e não é para menos, há igrejas maravilhosas aqui, visitamos todas, inclusive uma, a de Nossa Senhora dos Pretinhos, onde assistimos a um casamento, em plena noite de Natal. Ela estava toda iluminada por fora, coisa de cartão postal, imagens que não sairão da nossa memória. Aqui há também uma réplica do Arco do Triunfo, só que em homenagem a Nossa Senhora. Tudo aqui, aliás, está voltada para a igreja. O único jornal da cidade, semanal, tablóide, é da Paróquia. A diagramação é moderna, é bem colorido, mas a linha editorial...

A viagem de Teresina para cá foi tranquila. Estradas boas, mas GPS maluco, ele não conseguia se localizar. Não há grandes cidades entre Teresina e Sobral, só muitos povoados. Descemos uma serra maravilhosa, vimos cenas hilárias – uma placa indicava o estádio Coelhão, e só vimos cerca de arame, duas traves e muitos coqueiros. É claro que fiz foto. Como também do comércio de carne por aqui. Elas ficam estendidas, sem proteção, tomando poeira, fumaça e nem quero pensar que sorte de outras coisas...

Amanhã chegaremos em Fortaleza!!!Praia, sol, mar...

Diário de bordo - No porão da ditadura

Sexta-feira (24/12/2010)

Primeiro dia sem estrada. O dia começou lindo, com sol. Acordamos sem despertador, tomamos o café da manhã mais farto até agora. Não consegui escapar e acabei experimentando a tapioca com queijo e presunto e outra versão mais pesada: com bacon. Gostei, mas não dá pra encarar todos os dias como eles fazem por aqui. É pesada, tem uma hora que a massa cresce na boca. Depois do café, piscina, sol, leitura do jornal local – o melhor até agora, boa diagramação, mas linha editorial complicada – brincadeira com as crianças na água até cansar.

A proposta do dia era visitar os pontos turísticos da cidade. E foi o que fizemos: igrejas, palácios – a sede do governo é linda!!!!, o Palácio de Karnak, uma réplica de um templo do antigo Egito – pontes, rios, prédios antigos (cuja arquitetura vem sendo mantida, lindos) e o centro de artesanato. Visita despretensiosa, para compras e lazer. Quem dera!

O centro funciona em um prédio antigo, que no passado teve duas funções. Uma de suas fachadas servia para o teatro da cidade. A outra era sede do Exército. Unidos, os prédios agora formam um grande quadrado onde foram dispostas pequenas lojas, anfiteatro, salas de aula das diversas artes, entre outros. Precisei visitar uma ala inteira das lojinhas para perceber que todas elas, de tamanhos iguais, mais pareciam celas. E foram, no passado. Mas só entendi tudo na última porta, depois de comprar as lembranças de palha de bacuri, chaveiros, chapéus e licores. Naquele local, um grupo ouvia atentamente um piauiense empolgado. O sotaque e o modo de falar deles dificulta a compreensão de primeira, mas ele falava de ditadura militar e não deu pra não parar para ouvir.

Ele mostrava uma grade no chão, de onde podia se ver uma escada grande, íngreme, com degraus grossos. Então entendi de vez o que quer dizer, literalmente, a expressão “porões da ditadura”. O guia explicou que nos anos 60/70 aquela sede do Exército serviu para prender e torturar os piauienses. Eles eram presos, trazidos para o local, torturados (um bastão de madeira ainda está lá, em exposição), e muitas vezes jogados naquele porão. A descrição já era cruel, mas quando ele levantou a grade e perguntou quem queria descer, fui uma das primeiras (e poucas). Não sou ‘virgem’ no assunto. Tive o melhor professor de História que alguém que cresceu nos anos 70 poderia ter: Cristóvam Avelhaneda, um bravo, que se recusou a ensinar o que os militares queriam, ensinou o que quis. Fui amiga de Renato Rollemberg, cujo pai, o advogado e político Roberto Rollemberg, foi cassado por ajudar os mais necessitados. Conheci o Sr. Ruy Berbert, pai de Rui Carlos Berbert, estudante morto no Araguaia, cuja identificação dos ossos, décadas depois, eu acompanhei de perto. Li tudo, assisti aos documentários, filmes, estudei as músicas, mas, fisicamente, o mais perto que eu havia chegado nesta história tinha sido da sede do Exército na rua Tutóia, em São Paulo. De ímpeto, desci naquele porão. Meu filho, Eduardo, quis me acompanhar, mas não conseguiu ficar por muito tempo, como aconteceu com a Verônica, quando ela desceu com o pai.

Descer a escada é difícil. É estreita, rústica, com degraus muito altos. Mas para s presos não havia dificuldade porque eram jogados lá depois de torturados, de uma altura de quase 5 metros. A primeira impressão é escura. Não há luz, porque não há janela, só um retângulo de pedra úmida, estreito e alto. Deve ter uns 7 metros de comprimento por uns 3 metros de largura. Na parede ainda há os dois ganchos que prendiam os presos pelas mãos, em uma tortura psicológica que podia durar dias, semanas ou meses. Nas paredes ainda há o suporte para o pau-de-arara e a fiação com fios descascados. Há manchas nas paredes, que dizem, são de sangue. Mas o pior de tudo é o cheiro, amargo, azedo, podre. Dói o nariz, embrulha o estômago, enche os olhos de água.

“Por que as pessoas faziam isso?”, perguntaram meus filhos quando o pai e eu saimos. Foi um momento intenso quando explicamos que para eles serem livres como são hoje, muita gente precisou morrer. Eles estão mais atentos, curiosos, querem ouvir as histórias.

Saí atordoada. Almoçamos no meio da tarde, em outro shopping da cidade, também plano e agradável. No último tour da tarde, fomos conhecer mais pontes e prédios históricos e, sem querer, chegamos ao Maranhão. Sim, é o rio Parnaíba que divide os dois estados e ao atravessarmos uma ponte, conhecemos Timon, a primeira cidade maranhense.

Nesse passeio algumas coisas nos chamaram a atenção. Em Teresina, ao lado do rio Parnaíba, há um lava-jato alternativo. São desempregados que captam a água do rio e lavam os carros na rua mesmo, claro que por um preço mais acessível. As pessoas estacionam, sentam-se em bancos improvisados e numa rapidez absurda, os homens lavam os carros com a água do rio.

Outra curiosidade é que há um mercado de coisas usadas: fogão, geladeira, TV, a céu aberto, no centro da cidade. Cheguei a fotografar.

Depois de andar muito em uma cidade que tem dois sóis pra cada um (como parafraseou a Verônica de uma frase do Alexandre, meu amigo fotógrafo), voltamos ao hotel para descansar e ceiar. Noite simples, tranquila e deliciosa. Tomara que o Natal de todos que amamos tenha sido assim.

Diário de bordo - Ainda são muitos os Fabianos

Quinta-feira (23/12/2010)


Maurício se esqueceu de atualizar o relógio e quando ele tocou, no horário de verão de São Paulo, às 6h30, eram 5h30 da madrugada no Piauí!!!! Mas o hotel estava um movimento só. Acho que todos acordaram juntos e quiseram sair ao mesmo tempo. O que no Piauí é impossível. Eles não têm pressa. Muitas vezes, nem planejamento, nem organização. Explico: O café da manhã não foi suficiente para todos os hóspedes, algumas pessoas ficaram sem comer porque o hotel não tinha previsto o movimento (e nos povoados vizinhos não havia alimento, água e outros tipos de bebidas para prover o hotel, simples assim). Comemos o suficiente. O Maurício até arriscou uma carne seca com suco de cajá logo cedo (ai). Eu fiquei só no suco. Não tenho estômago pra tanto.
Comecei dirigindo e dei sorte porque depois de 3 horas no volante, quando passei a tarefa para o Maurício, foram 75 quilômetros pra esquecer. Primeiro porque o asfalto atrapalhava os buracos, da média de 120 quilômetros por hora que vínhamos fazendo (ops!), por 75 quilômetros tivemos que reduzir as vezes até para 40 quilômetros. A tortura durou uma eternidade. Depois porque revi cenas que pensava que jamais tornaria a ver.
Há 18 anos estive no Nordeste pela primeira vez, e uma cena em Alagoas me marcou: crianças na estrada, com pás nas mãos, tampavam e destampavam os buracos do asfalto (feitos pelo tempo ou por eles próprios) para ganharem um “dinheirinho” como pediam acenando com os dedos. Hoje vimos a mesma coisa no Piauí, em Campos do Buriti. Mas não eram mais só crianças. Crianças, moços e velhos, homens e mulheres, todos num sol de no mínimo 40 graus (lembrem-se, a Linha do Equador passa por aqui!) tendo só essa opção pra sobreviver. Vivem daquilo que lhes é jogado das janelas dos carros. No passado, além do dinheiro, quis dar um pacote de bolachas para um grupo de crianças de Alagoas. Elas pegaram o pacote, cheiraram o plástico da embalagem e não sabiam o que fazer com aquilo, não conheciam. Hoje não quis dar as bolachas, fiquei com medo daquela cena se repetir. Fui dando as moedas de 1 real que tinha até que elas se acabaram e as pessoas pedindo, não. Me senti incapaz, não resolvi os problemas de quem eu dei a moeda, não resolvi os problemas dos outros. E eles também não conseguirão resolver este problema. Vão trocar seus votos pelas cestas básicas que lhes derem, porque precisam sobreviver (embora a não reeleição doMão Santo e do Heráclito já sejam um bom indicativo). Ainda existem muitos Fabianos e agora eu entendo porque o “sertanejo é um forte”.
Almoçamos em Floriano, a terceira maior cidade do estado e olha, ela é bem menor do que Jales...O almoço foi uma delícia, em um restaurante de hotel onde fomos apresentados à cajuína, um suco de caju diferente do que conhecemos. Bem, a paisagem só mudou na entrada da capital Teresina, grande, plana e com todos os problemas das capitais, em especial o trânsito caótico, as ruas mal sinalizadas e a pobreza exposta pelas ruas. Aqui elas não estão debaixo dos pontilhões porque alguém decidiu transformar estes vãos em shppings da natureza, lojas que vendem plantas e flores. Ideia original e genial.
Estamos no melhor hotel, com vista para o Rio Poty (Poty era o nome da cidade antes de Teresina), de frente aos shoppings e eu ainda me sinto tão culpada pelas crianças que não pude ajudar pela estrada. Meus filhos levaram um “baque”. Não imaginavam a pobreza. Agora sabem que existe e é cruel, desumana. Jantamos em um dos shoppings que tem tudo o que os outros têm, inclusive as franchisings, mas uma característica singular: ele é térreo, aliás tudo em Teresina é plano, só há 10 anos eles começaram a construir prédios, em um bairro específico, Ilhotas, onde ficam os hotéis, como o que nós estamos. Dormimos como anjos...

Cidades: Barra de Santana, Palmeira do Piauí,Alvorada do Gurguéia, Colônia do Gurguéia, Eliseu Martins, Canto do Buriti, Pajeu do Piauí, Flores do Piauí, Itaueira, Floriano, Angical, Santo Antônio dos Milagres, São Pedro do Piauí, Agricolândia, Lagoinha do Piauí, Olho D´Agua do Piauí, Miguel Leão, Monsenhor Gil, Lagoa do Piauí, Demerval Lobão, Teresina (PI).

Diário de bordo - O esquecido Piauí

Quarta-feira (22/12/2010)


Café da manhã de hotel, sempre bom e farto. Estrada! Mas a paisagem mudou. Os campos plantados deram lugar para um sertão verde, nativo, de terra rochosa, sem a interferência do homem. Quilômetros e quilômetros de terra, sem homens, nem plantações, sertão, duro e seco sertão. O cenário não mudou quando entramos no Piauí, aliás, só piorou. As cidades transformaram-se em povoados, distantes, pobres, carentes, esquecidos, por Deus e pelos políticos (a partir de agora vou prestar mais atenção nos representantes do Piauí, eles são ruins demais porque a miséria grassa por aqui). A maioria das casas ainda é de pau-a-pique, com paredes de barro e folhas de coqueiro no teto. Não há plantação, nem criação, só o sol, a seca e, acho, o Bolsa-Família. Se não, como sobreviveriam? Os homens, sem nada pra fazer, se amontoam nos botecos, onde sempre há uma mesa de sinuca (impressionante!). As mulheres? As que não estão carregadas de filhos, estão “com o bucho cheio”, como se diz por aqui. Como sobrevivem?Não sei! Nas paradas nos postos, algumas surpresas: a comida é barata (10 reais o quilo) enquanto o combustível é caro, R$ 2,40 o litro do álcool (onde ele chega) e R$ 3,00 o litro da gasolina. Ainda assim, a frota de motos Honda e camionetes importadas é impressionante por aqui. Há casas de barro com camionetes estacionadas. E todos já têm motos, os burricos são enfeites perigosos na beira da rodovia (eles nunca estão presos e teimam em atravessar o asfalto). Bem, se comer já começava ser um problema a partir de São Paulo, encontrar um lugar pra dormir no Piauí passou a ser um desafio. Saímos de Araçatuba com todas as paradas planejadas, reservas feitas por telefone ou internet, mas...vendo alguns locais 'in loco' foi preciso desistir e tentar a sorte mais pra frente, pois não havia a mínima condição, especialmente para duas crianças. Foi assim, ao acaso, que achamos um oásis no deserto pra dormir, um hotel (Palace Hotel de Gurguéia, em Cristino Castro) com piscina onde as crianças se divertiram e nós pudemos ficar descansados. Pura sorte.

Cidades: Barreiras, Riachão das Neves, Santa Rita de Cássia, Formosa do Rio Preto (BA); Cristalândia do Piauí, Corrente, São Gonçalo do Urgunhães, Gilgo, Paus, Monte Alegre do Piauí, Redenção do Gurguéia, Contrato, Eugenópolis, Bom Jesus, Caiazeiras e Cristino Castro (PI).