domingo, 9 de janeiro de 2011

Diário de Bordo - Canudos e Euclides da Cunha

Sábado, 1 de janeiro de 2011

Ainda em Jaguaribe (CE) vivemos uma experiência legal. Éramos os únicos hóspedes do hotel, assim, quando fomos tomar o café da manhã, ele foi feito na hora, só pra nós. Sucos, lanches, frutas. Mas o destaque foi a atenção que a cozinheira deu especialmente ao Maurício. Já havíamos notado que mulher desacompanhada no sertão do nordeste é igual a nada. Nos hotéis, restaurantes e até algumas praias, todos se dirigem só aos homens. Houve vezes que, já na mesa dos restaurantes, com o Maurício no toalete, os garçons só vieram nos atender depois que ele chegou. Não penso que seja machismo. Acho que é a cultura mesmo. Em alguns lugares deste sertão é preciso ser muito macho pra sobreviver. Ser chefe de família onde a fome grassa e não há informação nem assistência para planejamento familiar (e portanto o casal nunca tem menos de cinco filhos) tem que ser muito forte e inteligente pra sobreviver e fazer a prole conseguir o mesmo.

Depois do café da manhã especial, estrada. Meu Deus, como o sertão é árido, especialmente esse da Bahia, onde chagamos depois de algumas horas de viagem. Nada brota do chão, só as pequenas árvores da caatinga, que agora estão com a copa miúda verde porque estamos na época em que mais chove por aqui (e olha que não pegamos um dia sequer de chuva, hein...). É quase impossível acreditar, mas é verdade: só brotam pedras do chão. Pedras mesmo. Não há pasto, não há animais, nem água. Passamos por muitas pontes com o leito do rio seco, alguns estão minguando e poucos, pouquíssimos, resistem com um fio maior de água (com exceção do São Francisco que é mesmo um grande mar neste sertão. Ele é lindo!). Só há casinhas de barro, teto de folha de coqueiro, o povo castigado, as muitas crianças seminuas e pedras, muitas pedras pelo caminho. Não na estrada. A BR continua um tapete, acaba de ser recapeada, tem trechos até sem sinalização ainda...

Impossível não pensar no bando de Lampião. Como conseguiram sobreviver tanto tempo debaixo de tanto sol, sem água? E como dava pra ser Maria Bonita no meio de tanta poeira, sem banho, só com muito suor? Com o ar condicionado do carro no máximo, às vezes o calor ainda é grande no meio do sertão. Minha sogra costuma contar que o avô, de Pernambuco, muitas vezes deu abrigo e alimentou os homens de Lampião por lá. Ele mesmo era conhecido da família. Todos eram muito bravos. Mas não é pra menos. A miséria e a fome devem mesmo deixar algumas pessoas enfurecidas. As que não ficam assim é porque se apegam na religião. Todas as cidades pelas quais passamos (Bahia, Piauí e Ceará) estão repletas de igrejas e santos, estes em proporções gigantescas. A fé alimenta este povo. É admirável como aceitam as privações e ainda têm esperanças.

Impossível não associar religião e povo nesta parte do sertão com Canudos. Aliás, quando Maurício fez este roteiro de viagem, entre as opções estava passar ou não por Canudos, nós dois optamos por visitar e tentar entender o que foi a saga de Antônio Conselheiro e seus seguidores. Valeu a pena!

Canudos fica na região de Bendegó (BA), onde em 1784, no vilarejo de Monte Santo, um menino chamado Bernardino da Motta Botelho encontrou uma pedra diferente enquanto pastoreava. Em 1810, os cientistas da Sociedade Real de Londres atestaram que se tratava de uma rocha espacial que havia se chocado com a Terra depois de viajar milhões de quilômetros pelo universo. O meteorito, o maior já encontrado na América do Sul, está hoje no saguão do Museu Nacional do Rio de Janeiro, como conta o jornalista Laurentino Gomes em seu “1808”.

Nesta região especial aconteceu outra história importante e ao mesmo tempo triste do Brasil. Incomodados com um líder religioso e seus seguidores, a República enviou três tropas – a última com mais de 10 mil homens – para um massacre que matou centenas de mulheres, crianças e trabalhadores. O episódio – a Guerra de Canudos – teve cobertura especial de Euclides da Cunha, escritor brasileiro que cobriu o conflito para o jornal o Estado de S.Paulo, que depois se transformou na obra “Os Sertões”, leitura obrigatória para todo postulante a jornalista.

Conhecer o Parque de Canudos, com os sítios arqueológicos preservados pela Universidade da Bahia foi mágico! As sensações são quase indescritíveis, justo pra mim, professora de redação. No Vale da Morte me comovi imaginando as centenas de soldados mortos pelos conselheiristas e, ao mesmo tempo, tantas vidas de mulheres e crianças tiradas de forma tão cruel. Estive em uma trincheira, no caminho sagrado onde havia as procissões de Conselheiro, vi desenhos que Euclides da Cunha fez para enviar ao governo, fotos espetaculares de alguém que estava no lugar certo na hora errada. Acho que as crianças não entenderam muito tantas emoções, mas mais maduras, nas aulas de História, vão entender melhor.

Terminamos a viagem à noite, na cidade com o nome de Euclides da Cunha (que eu já admirava e agora idolatro, menos pelas obras de literatura e mais por vasculhar o país e descobri-lo e descrevê-lo, fosse no nordeste ou no norte). A cidade é antiga, os paralelepípedos e as construções denotam isso. Mas não tivemos muito tempo de explorá-la, só tomamos um lanche gostoso perto do hotel (Bastos) e caímos na cama, não antes sem acompanharmos toda a cobertura da posse da nova presidente Dilma Roussef. Aliás, em todos os postos que paramos para abastecer ou comer (nosso primeiro almoço do ano foi muito ruim, em um posto de estrada, daqueles eventos que servem para ser esquecidos), todas as televisões estavam sintonizadas nos noticiários e é perceptível a esperança dos nordestinos na nova presidente.

Um comentário:

  1. Ayne, li tudo e adoreiiiii! tem mais?? não deixe de contar o resto da viagem. Tentei comentar, mas não foi.. espero que este dê certo! Beijos

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