terça-feira, 28 de junho de 2011

A dificuldade de discutir temas nacionais

Por Luís Nassif

Há poucas semanas, o intelectual e jornalista francês Ignacio Ramonet - editor do influente Le Monde Diplomatique - lançou um livro, "A explosão do periodismo", onde discute as transformações recentes na mídia mundial, com a crise da chamada grande imprensa e o avanço da Internet.
Nele, destaca uma das grandes distorções ocorridas com o chamado "quarto poder" (aqueles veículos que influenciam diretamente as estruturas de poder) nos últimos vinte anos.
Segundo ele, "à pergunta sobre "o que é uma notícia", os meios de comunicação tendem a analisar tudo sob a ótica da audiência. Produzem-se notícias que podem interessar ao maior número de pessoas, não aquela que seja mais útil para a população, mais esclarecedora em matéria de economia, ecologia, política, de tal modo que os grandes meios de comunicação perderam de vista sua missão".

Hoje em dia, há enorme dificuldade em se discutir temas relevantes através da mídia. "O jornalismo de especulação, de entretenimento e de espetáculo triunfa, em detrimento da exigência de qualidade", continua ele.

Três exemplos sobre as dificuldades em se aprofundar os grandes temas.
O caso do "livro que ensinava português errado".
Desde 1999 há uma diretriz no MEC - promulgada no tempo de Paulo Renato de Souza - para preparar os novos alfabetizados a não discriminarem pessoas do seu ambiente que falam errado. O livro em questão abordava o tema em meia página. Não ensinava a falar errado, mas a não discriminar quem falava errado. No entanto, durante uma semana o país discutiu em torno da falsa informação de que o livro ensinava a falar errado.

O sigilo das obras das Olimpíadas.
A Casa Civil propôs um novo método de licitação de obras para a Copa e para as Olimpíadas - recomendado pela OCDE (a organização dos principais países industrializados). Por ela, licita-se o projeto e a obra completa. E, para não combinarem o lance entre si, os competidores não podem saber, antes do resultado, qual o valor orçado para a obra. Depois de escolhido o vencedor, todos os dados (inclusive o valor orçado) tornam-se públicos.
Há uma bela discussão técnica comparando os dois métodos de licitação: o atual, no qual o licitante define o projeto, em todos seus detalhes, e o novo, saber qual é mais eficiente para conseguir preços melhores e para evitar conluios de competidores". No entanto, tudo ficou reduzido à questão da "licitação secreta.

O sigilo secreto dos documentos oficiais.
A discussão, no caso, é se devem abrir todos os documentos ou preservar aqueles que contenham informações estratégicas ou delicadas.
Lembro do caso da venda de tório para o Iraque, em 1982. Foi uma aventura do governo militar. Mas a divulgação dos documentos agora aumentaria a pressão da Agência Internacional de Energia (AIE) sobre o processo de enriquecimento do urânio brasileiro - fruto de um belíssimo trabalho tecnológico da Marinha.
Em vez de uma discussão sobre quais temas podem ou não ser reservados, reduziu-se toda a polêmica a uma simplificação falsa, como se a opção fosse entre manter todos os documentos em sigilo ou abrir todos.

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