sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Veículos de comunicação excluem população afrodescendente


Esta discussão é antiga - há excelentes trabalhos acadêmicos sobre este assunto -, mas o problema não se resolve. Estudantes de jornalismo, novos jornalistas: está nas mãos de vocês mudar esta triste realidade
Por Marcelo Henrique Nascimento, do USP Online

Visando estudar a presença afrodescendente nos veículos de comunicação, o professor Dennis de Oliveira, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, conduz a linha pesquisa Representações étnicas afrodescendentes na mídia. A linha trata tanto de aspectos quantitativos, como o número de ocorrências de presença de negros, como também qualitativos, com as maneiras em que se dá essa participação, para identificar como os aparelhos midiáticos mostram os negros nos principais meios de comunicação no Brasil.


Sobre o aspecto quantitativo, segundo o professor, nota-se uma participação muito pequena do afrodescendente na mídia em geral. Para comprovar tal fato, foi feito, no ano de 2009, um levantamento com alunos de uma escola pública do ensino médio de São Paulo, com o objetivo de verificar quais eram as principais revistas lidas por pessoas nessa faixa etária e classe social, para então se descobrir qual o percentual da presença negra nesses meios de comunicação.

Constatou-se que, nas revistas mais lidas pelo público em questão, dentre as pessoas que aparecem nas propagandas, fotos e reportagens, apenas 8,58 % eram negras. Em levantamento semelhante realizado nos Estados Unidos, com publicações de mesmo público-alvo, verificou-se porcentagem semelhante (8,85%) – o que ratifica o contraste, devido ao fato da população afrodescendente do Brasil ser, proporcionalmente, superior à dos EUA.

Pelo lado qualitativo, a situação também não é diferente. Para o professor, há dois aspectos principais: a minorização da população afrodescendente, com os negros aparecendo sempre sozinhos, ou cercados por vários brancos; e uma desqualificação da estética negra, em contrapartida ao que ele chama de “branquitude normativa”, pela qual tudo relacionado ao fenótipo branco é tido como normal, e o que está fora disso como exótico ou anti-estético.

Já para jornais impressos, o professor fala que além da presença de negros ser pequena, ela ocorre normalmente nos espaços lúdicos, como esportes, artes, celebridades, personalidades internacionais e outros. Discussões mais aprofundadas sobre as temáticas raciais ficam restritas à parte opinativa do jornal, com poucas reportagens e matérias sobre o tema.

“Existe uma pequena participação dos negros na mídia, e essa pequena participação se dá sob um princípio de desqualificação”, afirma Oliveira.

O professor destaca que faz parte de uma das funções do jornalismo estar atento à questões que envolvem a sociedade como um todo, e quando esse consolida elementos que reforçam uma sociedade desigual, como ocorre com a presença afrodescendente na mídia, não está “cumprindo seu papel”, conclui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário