terça-feira, 27 de setembro de 2011

Artigos: Os discos que (não) vendem mais.

Por Leonardo Moreno

O que se ouve por ai? Não, não estou falando de fofoca, faxina no governo, conflitos no Oriente Médio, taxa de juros ou crise internacional.
O que violenta nossos ouvidos é um tal de sertanejo universitário, que, na prática, não é sertanejo e tão pouco universitário. Há quem explique que é este seu público e assim tente justificar o termo, mas este gênero ultrapassa as paredes dos botecos próximos aos campus, das repúblicas e boates burguesas. O ritmo domina a programação das rádios, que não têm os universitários como público alvo, mas uma classe C e D que ainda é minoria no ensino superior.

O termo “universitário”, na realidade, é empregado pelas gravadoras para facilitar a identificação do público com um novo ritmo, eleito como a nova tendência pop de determinado momento. O fenômeno é observável: em 2001 surge a banda Falamansa com o então “Forró Universitário”; no meio da década foi a vez do “Pagode Universitário”, com bandas como Jeito Moleque e Inimigos da HP; nos últimos anos, com a criação do “Sertanejo Universitário”, vemos Luan Santana e duplas como Maria Cecília e Rodolfo e João Bosco e Vinícius.
Com o apoio da mídia, em seus respectivos “períodos”, estes artistas foram os que mais faturaram no mercado musical.
O legitimo sertanejo é um cronista que canta o cotidiano do trabalhador rural e declama poeticamente seus causos, acompanhado de sua viola. A verdadeira música caipira, o sertanejo de raiz, é cantada por homens que têm de fato uma relação com o meio rural. Ou não são legítimos homens do campo figuras como Tião Carreiro,Tonico, Tinoco, Pena Branca, Xavantinho? Além de Sergio Reis, Renato Teixeira e Almir Sater, que revelam a alma deste homem.
Diferente destes mestres, aqueles que hoje fazem o chamado “Sertanejo Universitário”, nem mesmo usam a viola, cresceram na cidade e tão pouco possuem vinculo algum com campo. Os temas de suas músicas se resumem a festas, bebedeiras, poligamia e traição.
Houve um tempo em que o brasileiro cantava além da boemia. O brasileiro cantava também poesia, reflexão e crítica. Nosso povo valorizava uma boa composição, bem trabalhada. A bossa nova, criada por João Gilberto e seus chegados que se reuniam no apartamento da Nara Leão, em Copacabana, fazia a cabeça dos jovens nos anos 60 e foi sucesso inclusive no exterior.
Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Os mutantes, entre muitos outros, expandiram o conceito de música popular brasileira e visitaram quase todos nossos gêneros além de misturá-los ao rock, ao tango, e há outras maravilhas. Na época dos festivais os músicos, além da poesia, foram marcados pelo engajamento político, que acabou rendendo o exílio a muitos.
O brasileiro era tão preocupado com a sua música que, em 1967, artistas e público se juntaram em uma passeata contra a guitarra elétrica, então considerada uma ameaça a cultura brasileira.
Nos anos 70 do século passado, foi a vez da Jovem Guarda, que de certa forma apresenta certas semelhanças com o que é feito hoje. O movimento era tolerado pela ditadura militar, pois era considerado inofensivo. Suas letras descompromissadas mantinham alienados os jovens, enquanto os divertia.
Hoje, mesmo com a liberdade de imprensa e com a democracia consolidada, são de músicos “forjados” os discos que vendem mais. Ou, depois da internet, não vendem mais... mas faturam milhões.

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