quarta-feira, 28 de setembro de 2011

“Escondido é mais gostoso”

Por Marina Migliorucci

Não sou tão velha assim, tenho 19 anos. Meus pais nunca me influenciaram a beber. Ao contrário de muitos outros que infelizmente seguem a filosofia “é melhor beber na minha frente do que nas costas”. Meus avôs eram alcoólatras e meus pais sempre fizeram questão de reforçar essa parte da história da minha família com medo de que se eu começasse a beber cedo acabasse seguindo o mau exemplo dos meus avôs.

Mas não vamos ser hipócritas, é claro que eu bebia com 15 anos. Morrendo de medo de a polícia me ver, morrendo de medo de passar mal e dos meus pais descobrirem. Infelizmente a sociedade brasileira quer se fazer de cega e ao mesmo tempo se fazer de surpreendida com certas notícias.
Começar a beber cedo faz mal? É claro, pode até causar danos psicológicos irreversíveis, mas quem nunca bebeu quando era menor de idade que atire a primeira pedra. Que fique claro que eu não estou fazendo apologia a bebidas, mas acho que esses casos de adolescentes que passam mal deveriam ser encarados de outra forma. Quem sabe apresentar a esses adolescentes a realidade de uma pessoa que bebe ou é viciada? Colocá-los em contato com pessoas que usaram álcool desde cedo e foram severamente prejudicadas, talvez essa fosse uma solução. Aproximá-los de pessoas que perderam tudo, até a família ou a vida por causa do uso exagerado, tudo isso pode ajudar a evitar um futuro contato com o álcool e mais para frente as drogas.
Fomos criados dentro de uma sociedade onde o “escondido é mais gostoso”, a maioria dos pais não sabe que eles estão indo beber e a minoria incentiva. E não adianta nada pai ou Conselho Tutelar falar que beber faz mal porque para os adolescentes isso tudo vai entrar em um ouvido e sair pelo outro. Experiência própria de quem passou por essa fase dos quinze recentemente. Falar não vai adiantar.
Às vezes parece que escrevo tudo isso porque tenho um espírito de jovem jornalista que quer mudar o mundo. Mas não é isso. É porque eu vejo que falar não “cola” com eles. Se funcionasse não estaríamos no “segundo” caso, porque vamos ser sinceros: quase todo final de semana pelo menos um adolescente passa mal por causa do consumo exagerado de álcool. Lembro-me do ano passado, acompanhei vários casos da Expô de adolescentes passando mal. Umas delas inclusive eu conhecia, não adiantou eu falar para não beber... passou mal e além de tudo ainda sobrou para eu limpar. Por isso acho que outras soluções devem ser tomadas.
Como futura jornalista, fico feliz que jornais exponham essa realidade para a sociedade, porque é preciso, é preciso mesmo que tudo isso mude e que alguém faça alguma coisa. Mas, a minha pergunta é: quem vai começar? Parece que as pessoas têm medo de tomar atitudes, medo de começar a mudar o mundo, isso é errado. Não temos que ter medo de mudar e ter uma vida melhor e viver em um mundo melhor.
Ainda não sei ao certo qual é o melhor jeito para começar a mudar a situação desses jovens que bebem tanto, penso se é melhor começar dos filhos para os pais, ou dos pais para os filhos. Quem sabe começar juntos! Por mais que exista o PROERD (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência) a maioria das pessoas só guarda a famosa música: “PROERD é o programa, PROERD é a solução, lutando contra as drogas e ensinando a dizer NÃO”, e acabam esquecendo-se de tudo o que aprenderam. Quando eu estava na oitava série algumas pessoas da minha sala já usavam drogas e bebiam demais. Com a intenção de passar a imagem de “eu sou o cara, eu bebo, eu fumo, eu sou adulto”. É por isso que eles bebem, eles querem se mostrar os maiorais para os amigos, porque eles já são “adultos” e bebem. E esses jovens que conheci vinham de famílias importantes da cidade que eu morava, famílias ricas, com base e estrutura. Ou seja, o jovem que bebe e usa drogas não está usando apenas por falta de base familiar, falta de amor ou carinho, estou falando isso porque a maioria das pessoas acha que só em família pobre falta amor e carinho, mas nas famílias ricas também falta viu? As pessoas ficam tão preocupadas com o dinheiro e acabam esquecendo-se dos filhos. É claro que isso não se aplica a todas as famílias pobres ou ricas. É isso que precisa ser visto. Os “playboys” também bebem e não apenas os pobrezinhos com fama de coitado.
Talvez tantas notícias divulgadas de adolescentes bebendo exageradamente seja um começo, um começo que mostra que talvez as coisas vão mudar fazendo a sociedade enxergar e tratar o alcoolismo infantojuvenil de outra forma.

Nenhum comentário:

Postar um comentário