terça-feira, 29 de novembro de 2011

Adoro focas!

Texto enviado como colaboração pela aluna Ariadne Bognar, minha estagiária preferida (e única).
Atenção para este nome: Luiza Calegari. Como escreve e seu amadurecimento profissional aos 22 anos já me informam: esta menina vai longe!

Thiago Santaella arruinou a primeira aula do Paco Sánchez. Lá se vai um mês e tanto (foi ontem?) desde que o galego entrou na sala de treinamento perguntando: “O que é comunicação?”. Já que as respostas estavam tímidas (como assim, a lenda viva já chegava perguntando?), Santaella, que já tinha assistido a um curso dele, disparou: “Formar comunidade”. Era para a discussão ter evoluído antes que chegássemos a esse ponto, o Paco argumentou. Mas seguimos com a conversa, que, afinal, foi apaixonante.




Na programação do MediaOn, o primeiro debate na quarta-feira era, na verdade, exposição e sabatina de Meg Pickard, diretora de Estratégias para Mídias Sociais no grupo Guardian News & Media. Quer dizer, a responsável por um dos modelos de jornalismo participativo mais bem sucedidos do mundo. Em muitos aspectos, vários tópicos que ela abordou dialogam com o que havíamos aprendido com Paco Sánchez.

Pickard (londrina típica, sorriso fácil, empatia imediata) começou a exposição com o conceito reverso da nossa primeira aula do Paco: “Communities communicate”. Para existir uma comunidade de fato, é preciso que haja interação, comunicação. A grande sacada do Guardian, segundo a Meg, está em “encorajar e premiar essas iniciativas”. A história que ela citou foi fantástica. Em 2009, o Parlamento britânico tornou pública a prestação de contas de cada um de seus membros, em um total de 500 mil páginas em .pdf. Ou seja, o inferno na terra.

A solução encontrada pelo jornal para transformar aquilo em uma análise interessante exigiu dez dias de execução: foi o tempo que o programador precisou para criar uma ferramenta online de pesquisa. E aí o Guardian incentivou os leitores a entrar no site e pesquisar o parlamentar que eles haviam elegido. Além de ser um exercício de cidadania, os (e)leitores podiam classificar as contas do seu parlamentar como Interessantes e merecedoras de investigação, Interessantes mas já conhecidas, ou apenas informar que não havia nada de errado. Dessa forma, em menos de quatro dias, 5 mil .pdf’s foram analisados.

Mas a lição mais importante sobre esse estilo de jornalismo participativo ficou para o final. O caminho da notícia não é mais linear, e esse é o rumo que nós, jornalistas, precisamos entender. Não cabe mais na redação o profissional que bate ponto, que não pensa digitalmente – recebe a pauta, entrevista personagem e especialista, ouve os “dois lados”, publica, vai embora, e no outro dia começa tudo de novo. É imprescindível que o jornalista acompanhe a repercussão de sua matéria, e, mais que isso, se inspire pela interação com as pessoas que leem e comentam os textos.

Ao final, o que se aprende com as sensíveis aulas de texto com Paco Sánchez é magistralmente resumido pela frase apresentada por Pickard: “It’s not about those who speak, but those who act” (algo como “não importa quem fala, mas quem age”). Somos menos importantes do que as histórias que contamos. E menos importantes do que os efeitos que causam essas histórias. Aos apaixonados pelo ofício, não deveria ser necessário o conselho final de Meg, mas vale a inspiração: “Don’t light the fire and walk away” (“Nunca comece um fogo e depois vá embora”).

Luiza Calegari, de 22 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina – e tem muito mais perguntas que respostas

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