quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Cobertura da TV brasileira da invasão ao Iraque foi parcial


TVs brasileiras participaram de uma "Guerra de informação" a favor da invasão

Uma análise da cobertura realizada por companhias de televisão brasileiras sobre a invasão do Iraque, em 2003, revela que houve uma “Guerra de informação”, na qual as corporações televisivas brasileiras apoiaram e reproduziram ideais dos Estados Unidos e Reino Unido, países que lideraram a invasão

De acordo com o estudo da jornalista Veridiana Delia Bueno de Morais, realizado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, os grupos de TV brasileiros optaram por não fazer uso do material de agências de notícias árabes com credibilidade internacional, como a Al Jazeera e Al Arabiya, e também não deram voz às comunidades árabes brasileiras, que poderiam aprofundar o debate sobre a invasão.

Segundo o estudo O Iraque na TV Brasileira, o principal motivo desta abordagem parcial dos fatos deve-se ao Brasil, historicamente, sofrer influência norte-americana, inclusive no que tange o modelo de telejornalismo. “O modelo de telejornalismo brasileiro ainda é muito atado ao modelo americano. Com isso, as emissoras compram embutido o discurso norte-americano”, explica Veridiana.

Segundo ela, a imprensa dos EUA apoiou a invasão, sob o argumento da ‘Guerra contra o Terror’, e a imprensa brasileira se contentou em reproduzir este discurso. “Em 2003, houve uma pobreza de informação decorrente de uma de fontes. As companhias de TV descumpriram um mandamento do jornalismo: ouvir os dois lados de um conflito. Elas não escutaram nenhum líder, civil ou especialista árabe durante a cobertura da invasão”, relata.

O estudo concentra suas análises no tipo de abordagem que três canais de televisão heterogêneos conduziram o tema, em 2003: TV Globo (Canal aberto – ou seja, gratuito – e Privado), TV Cultura (Canal aberto, mantido por capital Público) e Globo News (Canal fechado e Privado).

TV Globo e espetaculização

A diversidade dos canais escolhidos para análise amplia o universo de abordagens e o grau de profundidade, que depende do público e do objetivo editorial do canal.

A TV Globo foi escolhida por ser a televisão aberta com a maior audiência e conseguir, com isso, ter grande força e inserção nos debates da sociedade brasileira. “Assim como a TV Cultura e a Globo News, a rede Globo apenas fez uso do material concedido pela CNN e pela Reuters [agências de notícias norte-americana e britânica, respectivamente]”, diz Veridiana.

Para a jornalista, essa exclusividade de material de agências ocidentais no noticiário do canal contribuiu para a parcialidade da cobertura e para a sua espetaculização. Tanto a CNN quanto a Reuters acompanhavam oficiais e ações do exército britânico e americano ao vivo, o que já implica na defesa de um dos lados do conflito. “Uma gravação do exército americano mostra um militar da marinha, que bombardeava Bagdá, acompanhando ao vivo a cobertura do próprio bombardeio pela CNN, de dentro de seu navio. Isso passa muita credibilidade à emissora e, ao mesmo tempo, demonstra como a imprensa e as Forças Armadas americanas se alimentaram desse espetáculo”, afirma.

Ainda segundo ela, “a CNN e a Reuters são justamente dos países que inciaram a invasão do Iraque e, por isso, elas estão implicadas politicamente”.

Globo News: oportunidade perdida

Cobertura semelhante aconteceu na emissora de televisão por assinatura, Globo News. Formada por uma audiência diferenciada, que não sofre as restrições comerciais de horário e anunciantes da televisão aberta – já que possui uma grade de programação mais flexível -, a emissora não aproveitou a oportunidade de estimular um debate mais plural e aprofundado, segundo Veridiana.

O estudo mostra que o árabe também foi ignorado pelo canal de assinatura e que as agências de Notícias Árabes foram desprezadas em virtude de um filtro editorial. “A emissora tentou dar voz ao lado árabe entrevistando um porta-voz do exército americano que discursava sobre a realidade do povo iraquiano. Isso comprova a desqualificação do árabe, que não fala por si próprio, não tem a oportunidade de se expressar”, ratifica.

TV Cultura, pouco para uma TV educativa

Criada para ser uma televisão educativa e pública, com o compromisso firmado por lei de informar e formar, a TV Cultura também teve uma cobertura aquém do esperado.

Apesar de ter proporcionado um tempo de debate alto e contextualizado, com as implicações que a guerra causaria no Brasil, a emissora também não deu voz aos árabes. “A emissora pública teve a preocupação de aprofundar e contextualizar o tema por meio de debates com especialistas brasileiros. No entanto, o ideal seria ouvir a opinião de representantes e intelectuais da comunidade árabe brasileira”, defende a jornalista.

“É necessário que a imprensa brasileira, em geral, se liberte dos vínculos históricos com a mídia americana. A opinião pública brasileira é diversa dos EUA e deve trabalhar para criar sua identidade própria, evitando a espetaculização em casos de guerra e aprimorando o debate público entre os agentes do conflito”, conclui Veridiana.


Agência USP
Por Marcelo Pellegrini - marcelo.pellegrini.filho@usp.br

Publicado em 23/novembro/2011












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