quinta-feira, 26 de maio de 2011

Depoimento de Ricardo Kotscho

Queridos,
Vale a pena!

http://blogdoconsa.blogspot.com/2011/05/internet-para-ricardo-kotscho.html

O jornalismo não pode viver só de notícias ruins

Reproduzo, abaixo, colaboração de Jean Oliveira. Obrigada, amigo!

"O jornalismo se tornou incapaz
de falar de coisas boas para melhorá-las"

Entrevista com Armenio Guedes

Mauro Malin



Comemora-se nas redações de São Paulo e fora delas: Armenio Guedes faz 80 anos em 30 de maio.

Armenio é um intelectual ouvido com atenção por quem tem juízo. Sua opinião sobre o estado atual da imprensa tem a simplicidade dos clássicos. Como os músicos que costuma ouvir: Jobim, Gershwin, Porter, Arlen, Ellington, Parker, Monk, Miles, lista imensa na qual não há lugar para o duvidoso.

Lê jornal há setenta anos, há sessenta faz jornal e revistas e ajuda a publicar livros. Algumas referências são notórias, outras só para público especializado: Seiva, Editora Cultura, Continental, United Press, Voz Operária, Tribuna Popular, Problemas, Estudos Sociais, Novos Rumos, Semanário, Voz da Unidade, IstoÉ, Gazeta Mercantil, onde é hoje assistente do diretor de redação e cuida do lançamento de uma nova revista, Forum.

Começou a ler aos 10 anos. A Tarde, de Salvador, foi o primeiro diário. O Jornal do Brasil dos anos 50 e 60, o melhor. Com menção honrosa para a Última Hora de Samuel Wainer. Além do Samuel repórter, cita só um jornalista: Osório Borba. Não perdeu uma coluna sobre futebol de Armando Nogueira e João Saldanha.

Nasceu em terra de pedras preciosas, Mucujê, na Chapada Diamantina, morou em Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Moscou, Santiago do Chile, Paris, novamente São Paulo, conheceu dezenas de outras cidades, milhares de personalidades da vida pública de França, Oropa e Bahia. Militou no Partido Comunista Brasileiro entre 1935 e 1982. Tem janela e discernimento.

Antigüidade não é posto: não são argumentos de autoridade que pesam. O que pesa é a qualidade das opiniões do mais jovial dos decanos. Para ler e meditar.

"O jornalismo não tem mais a seiva do fim do século passado, como víamos nos filmes americanos. O jornalista da cidadezinha que enfrenta os poderosos para cumprir sua função. O jornalista era um arauto de grandes causas. Isto ficou diminuído, foi afogado por preocupações de outra natureza, que foram se impondo.

Hoje existe uma preocupação exagerada com a informação dita de primeira mão, em detrimento da qualidade. Busca-se a notícia como sensação. A indústria da seca transforma-se em indústria da notícia. O jornalismo se tornou incapaz de falar de coisas boas para melhorá-las.

A maior virtude da Gazeta Mercantil, que geralmente se reconhece como o jornal brasileiro de melhor qualidade, não é só apurar com cuidado, gastando o tempo necessário para isso, é sobretudo informar sobre o surgimento do novo, de novas indústrias, novos serviços, novos investimentos.

No Brasil há muita coisa bem feita, coisas que dão certo. O que houve no cerrado, antigamente considerado uma área perdida, foi uma verdadeira revolução agrícola. Mas muita coisa precisa ser aprimorada. É necessário informar sobre isso. O semi-árido irrigado na região do São Francisco é um avanço, mas precisa de apoio comercial, apoio para exportação.

O que me incomoda mais é a exploração da denúncia, é o falso moralismo. Incomoda-me a confusão do jornalista com o policial. É levar a informação para uma fase que não é a da informação, é a do policial. Watergate virou quase padrão de jornalismo político. Não gosto dessa coisa de investigar a vida das pessoas."