segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Enem e as correções das redações

A Justiça Federal do Ceará determinou, no início desta semana, que o Inep - Instituto Nacional de Estudo e Pesquisas Educacionais, órgão ligado ao Ministério da Educação, entregue as redações corrigidas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para todos os candidatos que solicitarem as provas, realizadas no final do ano passado. A decisão é válida para todo o País. Nada mais justo.



Todos têm o direito de conhecer os critérios de correção de uma prova, especialmente de uma produção de texto que sempre exige do candidato mais do que o conhecimento da norma culta do português. Obriga-o a ter conhecimento de mundo; saber ler, interpretar e contextualizar vários gêneros textuais, além de selecionar as melhores ideias e argumentos baseados em discursos de autoridades, exemplos, raciocínios de causa e consequência, dedução, indução, entre outras estratégias discursivas. Afinal, a redação, a grande "vilã" dos vestibulares, está supervalorizada no Enem e como em outros concursos tão concorridos pode ser a responsável por fazer o aluno conquistar ou não a vaga no ensino superior, inclusive nas universidades públicas - estaduais ou federais - mais concorridas do Brasil.

É que de prova para avaliar o ensino médio, o Enem passou a ser o cartão de entrada no ensino superior pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada). Só este ano, o governo federal recebeu cerca de 3,4 milhões de inscrições para as pouco mais de 100 mil vagas oferecidas por este sistema. Foram quase 2 milhões de candidatos (eles podem se inscrever para mais de um curso), com a média de 30 candidatos por vaga. O problema é que o Enem é questionável por vários fatores, entre eles o roubo de provas, as quebras de sigilo e a não divulgação da correção das redações.

No artigo "A loteria Enem" publicado na Folha de S. Paulo (17/1/2012, A3), o professor Nilson José Machado, da Faculdade de Educação da USP - Universidade de São Paulo, afirma: "... o que se conseguiu foi a transformação da correção da prova em uma verdadeira loteria...Aos alunos cabe fazer o exame e torcer ou rezar por uma boa sorte." Não pode ser assim.

A divulgação da redação corrigida vai esclarecer a todos - candidatos ou não - os critérios de correção da prova de redação do Enem, premissa que deve ser básica em todo concurso que deseja ser levado a sério. É preciso definir com clareza quais os critérios que estão sendo avaliados. Adequação à proposta? Coerência? Coesão? Recursos discursivos? Recursos linguísticos? Ou haverá oportunidade para criatividade, originalidade, diversidade de argumentos? As regras gramaticais terão mais valor do que as ideias ou vice-versa? Um candidato que entre no jogo sabendo como jogar tem mais chances de ganhar.

Da decisão da Justiça do Ceará ainda cabe recurso. O que se espera é o bom senso dos educadores do Ministério da Educação para não recorrerem. Não se deve furtar os candidatos de um direito fundamental: saber onde erraram e como poderão melhorar suas chances na próxima prova, se for o caso. Ou então comemorarem de vez a entrada no ensino superior com sua competência reconhecida.

Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista e professora de redação da rede particular de ensino de Araçatuba.

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